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Jornalista expõe racismo em salão em SP: 'Como se não pudesse estar ali'

A jornalista Luanda Vieira alega ter sofrido racismo em um salão em São Paulo enquanto fazia suas unhas. - Acervo pessoal
A jornalista Luanda Vieira alega ter sofrido racismo em um salão em São Paulo enquanto fazia suas unhas. Imagem: Acervo pessoal

Rafaela Polo

De Universa, São Paulo

12/05/2022 14h36

A jornalista Luanda Viera fez uma denúncia em seu Instagram sobre uma situação constrangedora que passou no salão Studio Lorena, no bairro da Jardim Paulista, em São Paulo. Na sexta-feira (6), ela conta que foi confundida por um dos profissionais do lugar com uma das manicures que já tinham trabalhado lá. Era a sua primeira vez visitando o salão, que fica em frente a sua casa.

"Enquanto eu fazia as unhas, chegou esse profissional. Percebi, mesmo de longe, que ele olhou para mim assustado. Independente de ter reconhecido alguém em mim, ou não, fiquei muito desconfortável", diz Luanda em entrevista a Universa. Segundo ela, a primeira coisa que passou pela cabeça, sendo a única mulher preta em um local cheio de pessoas brancas, é que ela não pertencia àquele lugar.

Luanda conta que, após esse olhar, o profissional Augustho Lima se aproximou de onde ela estava e falou com a sua manicure, ignorando-a completamente. "Em nenhum momento ele olhou na minha cara. Falou várias vezes, em voz alta, e rindo muito, o que me soou como deboche, que tinha levado um susto achando que era a Miriã. 'Imagina a Miriã fazendo a unha aqui, que absurdo', falou", conta a jornalista.

"Mandei mensagem para minha namorada, que é branca, contando. A gente sabe que o racismo acontece, mas quando é de forma tão absurda assim, você desacredita. Ela disse que eu não estava interpretando errado e que era racismo mesmo", diz Luanda. A jornalista percebeu que a manicure tinha ficado desconfortável com a situação, que durou cerca de três minutos, e até tentou mudar de assunto.

Como ela tinha o nome da profissional e sabia que ela tinha um bebê pequeno, começou a procurar Miriã nas redes sociais para entender o que elas tinham em comum. Mas acabou percebendo que a única característica era que ambas são mulheres pretas.

"Quando terminou a minha unha, avisei a manicure que faria uma reclamação e que talvez ela fosse questionada, por isso, queria deixá-la preparada".

Segundo Luanda, ela, inclusive, defendeu Augustho e disse que ele não era racista. "Mas comigo ele foi", diz.

Ela reclamou na recepção, onde ouviu muitas desculpas, e teve uma conversa por telefone com Fernanda, a dona do salão, que também se desculpou. "Fernanda entrou em contato comigo, foi muito gentil todo tempo. Ela finalizou dizendo que tinha ficado surpresa com a minha educação ao relatar o fato. Achei que esse comentário deu a entender que ela achava que eu ia esbravejar e gritar, um estereótipo que atribuem à mulher preta", diz Luanda.

A jornalista voltou para casa chorando após o ocorrido. "É importante que a gente saiba que o racismo não é só aquele que você ouve coisas como 'você é negro e não pode estar aqui'. Não precisa ter a palavra 'negro' para ofender. Eu expus meu caso justamente para que entendam que situações que soam como racismo, é racismo. E que não precisamos ter medo de falar", completa.

Luanda ainda falou que espera não sofrer resquícios desse trauma em sua vida, mas que será inevitável ficar com o pé atrás ao entrar em salões. Ela também pretende fazer uma denúncia formal e registrar um B.O. contra o local.

O que diz o Studio Lorena

Procurados pela redação de Universa, o salão enviou uma nota se posicionando sobre o ocorrido. Eles disseram que a demora por falar sobre o assunto, já que o vídeo de Luanda foi postado no Instagram no começo da semana, não foi descaso, e sim, "porque é um assunto delicado de se posicionar, especialmente em um ambiente que potencializa mais o
combate do que a conversa".

A nota, assinada pelos donos do salão, Fernanda e Luis, afirma que ficaram muito tristes com o relato da Luanda, e que "Augustho agiu de forma que julgamos errada, sim, ao confundir e comparar a Luanda com a Miriã, já que essa conexão se deu por ambas serem negras e usarem o mesmo estilo de penteado e tranças". Segundo o salão, seu cabelo era assim na época em que trabalhou com eles.

Ainda na nota, o local disse que "[a situação] nos mostra o quanto precisamos trazer o debate racial com mais afinco aqui para dentro, já que nossa proposta enquanto espaço não é a de fazer comparativos entre pessoas, mas sim ser um ambiente onde todos se sintam acolhidos e bem".