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Karine Teles, de 'Pantanal', sobre assédio online: 'Recebi coisas nojentas'

A atriz Karine Teles - Condemais
A atriz Karine Teles Imagem: Condemais

De Universa, em São Paulo

11/05/2022 04h00Atualizada em 02/08/2022 18h05

Na televisão, ela está com os cabelos loiros de Madeleine, na novela "Pantanal". Mas, na conversa com Universa por ligação de vídeo, a atriz Karine Teles apareceu com os fios castanhos —ela já finalizou as gravações da trama, e o fim de Madeleine deve ir ao ar em breve. O novo visual é apenas uma das características que afastam Karine da personagem.

Enquanto a mãe de Jove é uma influenciadora digital, Karine tem tentado se distanciar cada vez mais do mundo virtual. Com a audiência de "Pantanal" em um crescente, o número de seguidores do perfil da atriz, com trajetória mais ligada ao cinema e teatro, duplicou no Instagram —hoje são 80 mil seguidores. E, com isso, não vieram só consequências positivas.

"Não estou lendo mais mensagem privada de gente que eu não conheço porque corre o risco de ter um tipo de violência nos comentários", conta. "Recebi coisas bem desagradáveis. Cantadas agressivas, assédios, coisas bem nojentas."

Com duas décadas de carreira como atriz, Karine já esteve em mais de 30 espetáculos teatrais e estrelou em filmes como "Que horas ela Volta?" (2014), "Fala comigo" (2016) e "Bacurau" (2019). Ela já foi eleita melhor atriz nos festivais de Gramado e do Rio, além de receber diversos prêmios, incluindo dois da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Agora, ela se concentra na gravação da série "Segundas Intenções", da HBO Max —a primeira do Brasil com um formato maior, de 50 episódios—, e aguarda o lançamento da segunda temporada de "Manhãs de Setembro", da Amazon Prime, em que atua ao lado das cantoras Liniker e Linn da Quebrada.

UNIVERSA - Na nova versão de "Pantanal", Madeleine é uma influenciadora digital. Por que inserir isso na história?
Karine Teles - Vejo que a novela tem trazido reflexões novas que não existiam há 30 anos. Entre elas o tamanho que a nossa vida virtual ocupa no nosso cotidiano, ou como a virtualidade corre o risco de virar um universo paralelo que impede a gente de ter contato real com as pessoas. Tem muitas coisas legais na internet, mas também tem conteúdo vazio, de perigoso e opressor que leva a gente a comparações irreais e injustas, como toda essa maluquice dos filtros, das fotos tratadas. E acho que é nesse lugar que a Madeleine se encontra, dentro dessa crítica.

Karine Teles caracterizada como Madeleine em "Pantanal" - Globo/João Miguel Júnior - Globo/João Miguel Júnior
Madeleine (Karine Teles) em Pantanal
Imagem: Globo/João Miguel Júnior

Qual a sua relação com as redes sociais?
A única rede que eu tenho é o Instagram. Tive Facebook por um tempo, mas comecei a perceber que aquilo estava ocupando um espaço muito grande da minha rotina. As pessoas dão opinião sobre tudo, mesmo a respeito de coisas que não entendem ou não conhecem. Brinco que sou analógica. Tenho 44 anos e não existia internet na minha adolescência nem no início da idade adulta. Então, fico um pouco cansada quando uso internet demais e sinto que algumas coisas me atingem de um jeito desnecessário.

Qual a parte negativa das redes sociais?
Por causa da novela, meu número de seguidores no Instagram aumentou muito, mais do que dobrou. Antes, conseguia conversar com as pessoas que vinham falar do meu trabalho, que tinham assistido a alguma coisa da qual eu participei. Agora, estou em um momento em que não leio mais mensagem de gente que eu não conheço, porque eu recebi coisas bem desagradáveis.

Que tipo de coisas?
Cantadas agressivas, assédios, coisas bem nojentas, como comentários violentos com respeito à personagem ou ao meu trabalho. Aí eu ia olhar e era um perfil fechado ou pessoa que não me seguia. Mas isso é uma minoria do que chega para mim, a maioria das pessoas é muito legal, generosa, carinhosa e afetuosa com meu trabalho. Porém, como sou uma pessoa analógica, não consigo manter esse filtro. Me sinto invadida. Quando as pessoas falam da personagem, não me incomoda, eu entendo. O problema é quando o negócio vai para o pessoal.

Estou fazendo um movimento oposto da Madeleine: quanto mais ela bomba, mais eu fico offline. - Karine Teles, atriz

Você já disse em uma entrevista que a Madeleine é sedutora, diferentemente de você. Não se acha sedutora?
Não do jeito que é Madeleine. Ela usa a presença como forma de atrair e manipular os outros. Usa a beleza como forma de convencer os outros que ela tem o direito de ser como é e pode fazer o que quiser. Na minha forma de estar no mundo, diria que a minha sedução é muito mais intelectual. Gosto de chamar atenção pelas minhas ideias, pelas coisas que penso, gosto de conversar. A personagem constrói uma capa, uma imagem, tanto na vida pessoal e social quanto na internet, e ela usa essa imagem para se relacionar com o mundo. Eu não. Minha armadura é o meu discurso, as minhas palavras, não é a minha aparência.

Ela também foi chamada de egoísta e criticada pelo público quando, na verdade, estava deprimida e isolada. Pegaram mais pesado por ser mulher?
Sim. A Madeleine é uma mulher branca, cheia de privilégios. Nem quando ela está claramente deprimida, abandonada, isolada, as pessoas não têm empatia. Não estou dizendo que eu concordo com todas as atitudes dela, porque não concordo. O que não significa que não entenda.

O tema da saúde mental ainda é um tabu e muito cercado de preconceito. Se a pessoa pega um vírus ou tem um problema no estômago e liga para o trabalho dizendo que está passando mal, ninguém vai questionar. Agora, se a pessoa está atravessando uma questão de saúde mental, é hostilizada. Vejo ainda muita dificuldade em entender isso, ainda mais com mulheres.

A personagem tem uma relação conflituosa com o filho. Você é mãe de gêmeos. Como é sua relação com a maternidade?
É uma fatia gigantesca da minha vida. Engravidar foi uma revolução porque vieram gêmeos, o que a gente não planeja. Então, é um lugar de dedicação, mas não de abdicação. É um lugar que me estimula e me ensina muito. Meus filhos já estão com 11 anos, e em cada fase que eles vão passando, aprendo novas coisas. Somos companheiros e amigos. Foi uma transformação muito intensa. Quando uma mulher vira mãe, nossa sociedade a reduz apenas a esse papel. Ela deixa de existir, assim como indivíduo.

Você se sentiu "deixando de existir" como mulher ao virar mãe?
Sinto até hoje. As discussões avançam, mas o mundo não avança junto. Por exemplo, hoje, em pleno de 2022, ainda sinto que se exigem responsabilidades da mãe que não exigem do pai. Mesmo eu, que vivo em uma bolha de privilégios, entre artistas, ouço comentários quando chego em uma festa do tipo: "E os meninos, estão com quem?". É o tipo de pergunta que não se faz a um homem. E isso é só a ponta do iceberg.

Você já encenou muitas "megeras", como nos filmes "Bacurau" e "Que Horas Ela Volta?". Vê um estereótipo relacionado à sua aparência física?
O Brasil é um país racista, e sou uma mulher branca de meia-idade. Claro que não vão me colocar como heroína romântica de uma comédia. Mas, dependendo do projeto, aceito fazer porque me interessa participar da discussão. "Que Horas Ela Volta?" é um filme brilhante, importantíssimo. Ralei muito para conseguir aquele papel. Quando li o roteiro de "Bacurau", disse que faria qualquer personagem.

A indústria do audiovisual está começando a olhar para os estereótipos e a fazer um esforço para mudar isso. Somos um país extremamente preconceituoso, então ainda caibo em personagens que representam essa elite preconceituosa do país. Por mais que a minha origem não tenha a ver com isso, como atriz, fico muito satisfeita de poder servia à obra e suas discussões.

Você é uma artista que se posiciona politicamente e de maneira recorrente. Por que isso importa?
Por mais que eu não seja um artista que tem um alcance gigantesco, faz parte de quem eu sou e do tipo de arte que acredito questionar o mundo. Por isso sou artista, porque tenho a convicção de que uma obra de arte transforma uma pessoa. Então, me sinto na obrigação de me posicionar e de levantar questionamentos.

Você tem receio de perder algum trabalho por causa de política?
Não. Isso seria uma novidade na minha vida. Sempre me posicionei. Quem vai me chamar para um trabalho sabe disso.