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Mulheres inspiradoras

Ela investiu na primeira escola afro-brasileira do país após se tornar mãe

A produtora cultural e empresária Maju com o filho Ayo em Corumbau, na Bahia - Dante Vicenzo
A produtora cultural e empresária Maju com o filho Ayo em Corumbau, na Bahia Imagem: Dante Vicenzo

Denise Meira do Amaral

Colaboração para Universa, de São Paulo

10/05/2022 04h00

Quando revê seu álbum de escola, a produtora cultural e empresária Maju Passos quase não se reconhece. Com cabelos alisados ao redor de colegas majoritariamente brancos nos colégios particulares em que estudou, a baiana de 37 anos demorou a perceber que o racismo sempre esteve presente em sua vida —e desde a primeira infância. Além de suas bonecas serem brancas e das apresentadoras dos programas infantis, loiras, Maju nunca teve contato com escritores e heróis negros em sua trajetória escolar. A única imagem de africanos que recebia dos livros era a de escravos.

Maju Passos e Ayo, em foto de 2020, no litoral norte de Salvador         - Divulgação - Divulgação
Maju Passos e Ayo, em foto de 2020, no litoral norte de Salvador
Imagem: Divulgação

Sem a referência de negros empoderados e protagonistas de suas próprias histórias, Maju revela que teve sua autoestima afetada, gerando uma série de inseguranças que a acompanham até a vida adulta. "Só depois fui perceber como o espaço educacional no qual eu estava inserida ajudou a destituir a minha imagem. Eu aprendi que eu precisava ser quem eu não era para me sentir inserida e acabei embranquecendo minhas atitudes. Tive que me tornar mãe de Ayo para me reconhecer", acredita Maju, formada em dança pela Universidade Federal da Bahia e especialista em economia criativa pela FGV do Rio de Janeiro.

Ayo, de 4 anos, que significa alegria em iorubá, é fruto de uma união inter-racial de Maju com um homem branco. Como nasceu loiro e com pele clara, ela é questionada frequentemente se o filho é mesmo dela. Diferentemente de mães brancas, ela precisa conviver com o medo diário de ter sua maternidade questionada e não sai de casa sem a certidão de nascimento para provar às autoridades que seu filho não está sendo vítima de um sequestro.

Quando estava com o pai dele, sentia no olhar e nas atitudes das pessoas que me julgavam como a mulher negra que aplicou o golpe no gringo. Já sozinha com Ayo, me olham com desconfiança por acharem que ele não é meu filho.

Ayo, filho de Maju, em 2020 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Ayo, filho de Maju, em 2020
Imagem: Arquivo Pessoal

Sem se dar conta, o racismo passou inclusive a afetar sua forma de maternar. Maju percebeu que estava com dificuldade de impor limites a seu filho e de exercer autoridade enquanto mãe de uma criança branca. "Precisava quebrar esse lugar que estava construído em mim de subserviência ao corpo do homem branco", explica.

Ao perceber que os frutos do racismo estavam tão entranhados em suas decisões como mãe, Maju partiu em busca de uma solução que a ajudasse na criação de seu filho. "Foi quando meu caminho cruzou com o de Bárbara [Carine]. Recém-separada e vivendo esse luto, assim como eu, ela estava em plena pandemia buscando parcerias para manter vivo o projeto que idealizou para sua filha, a Escolinha Maria Felipa", conta, sobre a primeira escola afro-brasileira do Brasil registrada no MEC, inaugurada em 2018.

Maju se encantou com a proposta e o que poderia ser apenas a possibilidade de um novo negócio se transformou em um verdadeiro abraço. "Ganhei novos braços, pernas e corpos que, assim como eu, acreditam na importância de uma educação que combata o racismo estrutural que nos atravessa afetando várias camadas de nossas vidas e, consequentemente, atravessa as nossas crianças", conta Maju, que entrou como sócia em 2020.

Ensino antirracista

A Escolinha Maria Felipa fica no bairro de Federação, em Salvador, e tem como mote uma educação escolar fora dos marcadores eurocêntricos, desenvolvendo uma série de atividades vinculadas às práticas antirracistas. A instituição é trilíngue, em português, inglês e libras, e é inspirada em Maria Felipa, mulher negra ícone da independência do Brasil na Bahia.

Maju - Jessica Cedro/ Divulgação - Jessica Cedro/ Divulgação
Maju Passos e Bárbara Carine
Imagem: Jessica Cedro/ Divulgação

"Na escola, a representatividade é em todos os âmbitos. Temos mulheres negras em todas as posições", conta Maju. Ela ainda lembra que apesar de Salvador ser a cidade mais preta fora da África, conta com diferença salarial entre brancos e negros de quase 70%, o que reflete em quem tem condições de estudar em uma escola particular. Por isso, a escola arca com a bolsa de 30% para alunos negros e/ou indígenas ou em condições de vulnerabilidade social.

Muita gente me pergunta se a escola também é para crianças brancas. Claro! Só estamos contando a história que não nos foi contada.

"Assim como os brancos, nós, pessoas negras, também tivemos nossa ancestralidade, cientistas, reis e rainhas. A premissa é ter uma perspectiva fora do olhar colonizador, que comunique que nenhum povo é centro do mundo e celebre a diversidade de múltiplas existências", reflete Maju, que foi selecionada neste ano para ser uma das empreendedoras negras aceleradas pelo projeto Feira Preta e Preta Hub, com apoio do grupo Meta, ex- Facebook.

Vale lembra que apesar do ensino de história e de cultura africana e afro-brasileira ter se tornado lei desde 2003 no Brasil, ela está longe de ser implementada de forma significativa nas escolas.

Escola também é rede de apoio

Além do investimento em uma educação mais igualitária para as próximas gerações, a Maria Felipa trouxe em paralelo a possibilidade de uma nova rede de apoio para Maju. "Hoje penso a escola como o lugar que a sociedade deveria olhar com mais carinho. É nesse espaço que o futuro está sendo construído. É também na escola que a gente conta com apoio para dividir a sobrecarga que vem junto com a responsabilidade de criar uma pessoa", acredita.

A romantização e o pouco debate sobre os aspectos sombrios da maternidade tornam esse processo todo ainda mais árduo. "O puerpério foi muito difícil para mim. A sociedade não está preparada para atender as demandas de uma mãe. É uma estrutura que nos coloca muitas vendas. Lembro-me de compartilhar questões e não receber o apoio que precisava. Ninguém notava minha exaustão".

Maju - Paula Fróes/ Divulgação - Paula Fróes/ Divulgação
Maju com Ayo na escolinha durante a pandemia
Imagem: Paula Fróes/ Divulgação

Por isso, as redes de apoio entre mães são fundamentais para ela: "Quando a gente precisa explicar para uma estrutura que ela está nos violentando, isso por si só é mais uma violência. Nos grupos de mães a gente não precisa se explicar. A gente já oferece um copo de água e um abraço. Crescemos em bando".

'É preciso reconhecer nossos limites e pedir ajuda'

Assim como quase todas as mães, a culpa é outro sentimento que acompanhou Maju desde o nascimento de Ayo. Ela conta que lutou por muito tempo para que os outros legitimassem seu maternar e precisou passar por muitas situações até admitir que a mãe, no caso, era ela. "Nesses quatro anos, decidi que a minha opinião importa muito mais. Mas para isso precisei chegar à beira do abismo —e da sobrecarga. Aprendi que é preciso reconhecer nossos limites e pedir ajuda. Esperar que o outro reconheça é um passo para a estagnação. Um bebê afeta todas as áreas da vida: o corpo físico, mental, a vida pessoal, financeira, política... É uma virada de tapete que me trouxe muitas quedas, mas agora já entendi que sei me levantar."

Apesar de todos os percalços e desafios, foi ainda a maternidade que fez Maju se conectar com a sua essência e alcançar uma força interior ainda maior. "Eu quero ser a melhor versão de mim mesma para esse rapaz e para o mundo. Meu filho tem sido gatilho para mudanças na minha vida desde que nasceu."

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