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Minha história

'Trabalhei em plantação de cana para realizar o sonho de abrir uma empresa'

Andriele Seabra, 31 anos, é dona de um ateliê estético em Santa Cruz do Rio Pardo (SP) - Arquivo pessoal
Andriele Seabra, 31 anos, é dona de um ateliê estético em Santa Cruz do Rio Pardo (SP) Imagem: Arquivo pessoal

Andriele Seabra, em depoimento a Ed Rodrigues

Colaboração para Universa, do Recife

23/04/2022 04h00

"Meu primeiro emprego foi em uma plantação de cana. Morava no interior paulista e a busca por independência financeira me levou a trabalhar também em um frigorífico e numa fábrica de doces e salgados. Tudo isso para conseguir realizar o sonho de ser dona da minha própria empresa. Hoje, aos 31 anos, ao lado da minha esposa, posso me orgulhar de ter aberto um ateliê de serviços estéticos na minha cidade, Santa Cruz do Rio Pardo.

O início não foi fácil. Me lembro de pedir a deus para mandar duas clientes por dia. Agora, trabalho das 8h às 20h e tenho a agenda cheia. Penso que minha história só está começando.

Quando eu era criança, morei na Vila Bom Jardim, conhecida como 'Vila Esqueleto'. Eram tempos difíceis, mas eu e meus dois irmãos nunca passamos fome. Tivemos várias vontades não realizadas, mas fome, não. Hoje, entendo que meus pais não tinham condições para nos dar luxo, mas eles trabalhavam muito para nunca faltar comida na mesa.

A situação financeira apertou mais quando meus pais se separaram. Eu tinha 13 anos. Minha mãe ficou muito triste e logo em seguida perdeu o emprego. Foi quando comecei a plantar cana para ajudar nas contas da casa. Fiquei na plantação de cana dos 13 aos 15 anos.

Depois, fui plantar grama com minha tia. Fiquei por ali mais dois anos. Aos 18, trabalhei como balconista, depois em um frigorífico, em uma fábrica de doces e, por último, numa fábrica de salgados, onde fiquei por seis anos. Enquanto corria atrás do nosso sustento, nunca parei de pensar na minha independência financeira. Queria ser dona do meu próprio negócio. E toda decisão que tomei no caminho e recurso que guardei foram pensados para a elaboração desse negócio.

Mantive o sonho aceso dentro de mim e continuei buscando as condições adequadas para realizá-lo.

Andriele - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Andriele Seabra e a companheira, Fabiana
Imagem: Arquivo pessoal

Eu consegui. Mas, mesmo depois de montar meu ateliê, ainda tive muitas dúvidas. Minha maior dificuldade foi acreditar em mim.

Como venho de uma família que sempre trabalhou com registro em carteira, em alguns momentos cheguei a achar que não daria conta. Mas tive muito apoio da minha família. A pessoa que sempre me apoiou em tudo foi minha esposa, Fabiana. Ela sempre acreditou em mim e me impulsionou.

Somos um casal de mulheres e muitas vezes fomos vistas como fracas. No entanto, juntas somos imbatíveis. É muito importante ter esse apoio dentro de casa. Uma pessoa que te dê forças, torça por você... Que seja parceira, companheira.

Sempre fui muito vaidosa, gosto de maquiagem e fazia minha make mesmo para ir trabalhar na fábrica de salgados. Quando sobrava um dinheiro, comprava umas coisinhas, produtos etc. Um dia fui ver um curso de maquiagem barato, que poderia pagar. Comprei dois cursos: maquiagem e sobrancelhas.

Entre a fábrica de salgados e o salão de sobrancelhas

Pensei: 'nossa, mas eu não quero fazer sobrancelhas'. Como já estava pago, fui e me apaixonei. Investi mais. Me aprofundei, aprendi sobre técnicas, equipamentos, materiais. Até que montei um espaço que tinha apenas lavanderia, uma cadeira, armário e meu material que tinha comprado para fazer o curso. Mas foi o suficiente para começar a trabalhar. De segunda a sexta-feira, estava na fábrica de salgados. Sábado e domingo, fazendo sobrancelhas e maquiagem.

Andriele - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Andriele: 'Sempre fui vaidosa, gosto de maquiagem e fazia minha make mesmo para ir trabalhar na fábrica de salgados'
Imagem: Arquivo pessoal

Foi nesse desdobramento profissional que comecei a ficar conhecida. Fui formando uma cartela de clientes. E vi que estava na hora de seguir sendo minha própria chefe. Investi em um curso de micropigmentação de sobrancelhas em Campinas (SP). Foi muito caro na época. Paguei com a economia de um ano.

Aquela formação foi determinante. Conversei no meu trabalho de salgados e investi todo dinheiro no meu novo espaço. Lembro que o dinheiro havia acabado e ainda faltavam coisas. Aumentei o limite do cartão de crédito e 'seja o que Deus quiser'.

Abri meu ateliê, mas continuei inquieta, curiosa, com vontade de aprender mais. É assim que você entrega um trabalho com excelência: sempre se capacitando. Busquei especializações em São Paulo, no Rio de Janeiro, fiz cursos online, mas sempre com dinheiro contado. Santa Cruz do Rio Pardo é interior. Tem muito chão até a capital. Então, não foi fácil sair daqui para conseguir tudo isso.

Graças a Deus e ao meu trabalho, tudo está valendo a pena. Afinal, é bem mais gostoso curtir seu sucesso quando o caminho para chegar lá te exigiu tanta força e resiliência, não é mesmo?

'Pedia a deus dois clientes por dia'

Quando inaugurei o espaço, há quatro anos, pedi a deus que me mandasse pelo menos dois clientes por dia, porque seria o necessário para conseguir pagar o investimento. Hoje meu trabalho de designer de sobrancelhas com micropigmentação atende de segunda a sábado mais de 15 pessoas por dia. Em média, atendemos 260 clientes por mês.

Além do ateliê, dou aulas aqui no meu espaço e em escolas de cursos profissionalizantes. O próximo passo é conseguir um prédio com mais salas para dar espaço a outras mulheres, e vai dar certo. Para quem está começando, eu digo: acredita em deus, em você, e segue. Não vai ser fácil, pode acreditar. Mas desistir não é uma opção."

Andriele Seabra, 31 anos, é dona de um ateliê estético em Santa Cruz do Rio Pardo (SP)

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