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'O samba cura', diz psicóloga que usa o gênero musical como terapia

Ana Laidley, que usa o apelido Ana Malandro porque, em 2006, desfilou no Carnaval de Los Angeles vestida com trajes masculinos - Acervo pessoal
Ana Laidley, que usa o apelido Ana Malandro porque, em 2006, desfilou no Carnaval de Los Angeles vestida com trajes masculinos Imagem: Acervo pessoal

Nina Rahe

Colaboração para Universa, de São Paulo

22/04/2022 17h07

A psicóloga Ana Laidley veio ao mundo ouvindo samba-enredo. Contam que sua mãe, após passar um dia festejando na quadra da Mangueira, começou a sentir as dores do parto e precisou ir correndo para a maternidade. Ao chegar lá, quando o médico descobriu que ela era passista da escola de samba, pediu que cantasse o enredo daquele ano cada vez que sentia uma contração: "E assim/ E assim/ Neste cenário de real valor/ Eis o mundo encantando/ Que Monteiro Lobato criou", repetia.

Filha de Ana Gomes e do percussionista Carlinhos Pandeiro de Ouro, afilhada de Djalma dos Santos, que foi presidente da Mangueira de 1970 a 1974, Ana Laidley diz ter pisado em uma escola de samba quando tinha apenas três meses de vida. Não à toa, a primeira palavra que lembra ter ouvido foi "samba". "Nasci e cresci nesse metiê. Tive que sambar, não tinha opção", lembra.

A pressão da família para que desfilasse ainda menina —e em todos os anos—, no entanto, fez com que ela evitasse o samba por muito tempo, dizendo até mesmo que não gostava do gênero. A reaproximação com esse universo aconteceu apenas quando se mudou para o Havaí. Hoje, há 30 anos morando nos Estados Unidos, Ana não só continua sambando como desenvolveu o "samba movement therapy", ou terapia do movimento de samba, um método no qual a música brasileira é utilizada para tratar doenças como depressão e ansiedade.

Em seu doutorado em psicologia, onde desenvolveu uma tese sobre o poder de cura do estilo musical, Ana começou a pesquisar a respeito dos benefícios da dança. "Comecei a fazer uma conexão com o conceito de imaginação ativa, que é quando você vai para um espécie de transe e expressa o que não consegue expressar por palavras", explica Ana. "Um poema, um desenho, a dança ou a música. Tudo é uma representação do que está no seu inconsciente."

Duas vidas

Mas a percepção de que o samba poderia fazer bem à saúde, na verdade, começou muito antes de ela se tornar psicóloga. Quando mudou de país, Ana enfrentou uma depressão por causa da distância da filha mais velha, Mariana, que à época tinha 2 anos e de quem só conseguiu se reaproximar aos 9, momento que conseguiu levá-la para morar nos Estados Unidos. "Tive um problema com a documentação e, por conta disso, não podia ir ao Brasil", explica.

Durante esse período, o fato de ser professora de dança fez com que ela sentisse que estava em outro país com algo a oferecer. "Comecei a ver que as aulas não eram só para que pudesse sobreviver ali, mas uma missão e um legado", diz. "Sempre recebia mensagens das alunas dizendo que estavam com problemas e que o samba as fazia se sentir melhor."

Foi após o nascimento de sua segunda filha, em 1999, que Ana decidiu se matricular em uma universidade. Começou com um mestrado na área da educação, onde desenvolveu estágio em setores ligados à saúde mental, e decidiu seguir com um doutorado em psicologia. "Estava fazendo uma pesquisa sobre o impacto psicológico da imigração, mas era uma pesquisa tão chata que eu dormia quando começava", conta Ana. Um sonho durante essa fase, no qual ela se via em um quarto branco, sem portas nem janelas, e a parede começava a colorir à medida que o samba tocava, a fez mudar o percurso.

"Até aquele momento, eu não fazia uma conexão direta da dança com a psicologia", explica. "Só depois comecei a perceber que estava vivendo entre dois mundos que precisavam ser integrados." Nas redes sociais, inclusive, ela assumiu a alcunha de Ana Malandro justamente para que profissionais da área de psicologia não conseguissem acessar os posts relacionados ao samba.

O apelido veio porque, em 2006, Ana decidiu desfilar no Carnaval de Los Angeles dançando como malandro. "Fazia a coreografia toda e só no fim revelava que eu era mulher", lembra. A ideia, que surgiu apenas pelo fato de não querer desfilar de biquíni, acabou se tornando um movimento de dança, reunindo várias outras mulheres que se sentiam mais confortáveis sambando desse modo. "Muitas estrangeiras me procuraram dizendo que se sentiam mais à vontade para dançar nesse estilo porque não tinham o samba no pé da passista", resume.

Mas assim que decidiu unir suas "duas vidas" e foi a campo realizar as entrevistas de doutorado, Ana conta que quase caiu para trás. A cada conversa, ela ouvia um novo relato associando a música às mais diversas curas: de câncer a doenças autoimunes. E hoje, por meio das sessões que ministra, ela diz que consegue observar os traumas que aparecem no corpo de cada um. As mãos fechadas, o joelho que não flexiona, a falta de foco, o olhar baixo, segundo ela, são alguns dos indicadores.

Pelo samba, ela procura dar ferramentas para que os próprios participantes consigam identificar e entender tais sinais. "Vejo um resultado de melhora imediata e quero fazer com que outras pessoas tenham acesso a esses benefícios", diz Ana.

Paralelo a tudo isso, ela também assumiu a missão de decolonizar o samba. "Aqui nos EUA todo mundo faz só com a coreografia, mas o samba não é só o movimento", explica. "O samba toca sua alma, e a gente cria a possibilidade das pessoas lidarem com situações que muitas vezes negligencia", resume Ana, que, durante este Carnaval, está no Rio de Janeiro para desfilar nas escolas Cubango, União da Ilha, Mangueira e Portela.

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