PUBLICIDADE

Topo

Relacionamentos

Casamento em casas separadas funciona? Mulheres contam suas experiências

Priscilla e Geraldo estão há 27 anos juntos. O casamento em casas separadas foi uma necessidade do trabalho e se mantem há 6 anos  - Acervo pessoal
Priscilla e Geraldo estão há 27 anos juntos. O casamento em casas separadas foi uma necessidade do trabalho e se mantem há 6 anos Imagem: Acervo pessoal

Rafaela Polo

De Universa, São Paulo

21/04/2022 04h00

"Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença... e na mesma casa, certo? Nem sempre! Apesar do esperado ser que casais dividam o mesmo teto após o "sim", nem todo mundo segue essa linha. Sim, tem gente por aí escolhendo morar um pouco longe do parceiro pelo bem do relacionamento e da convivência.

Para Alessandra, foi uma questão de escolha. Assim, ela e o marido poderiam ter mais espaço para o que achavam necessário e não ficariam presos nas manias um do outro. Para Priscilla e Louise, o distanciamento foi uma necessidade do trabalho. Mas depois de tanto tempo longe, a presença do outro em casa bagunça toda a rotina. Universa conversou com mulheres que dividem o amor, mas não a casa, com os maridos.

'Eu me sentia controlada no mesmo espaço'

Alessandra e Luciano decidiram morar em casas separadas desde 2018 e viram o relacionamento melhorar muito com a escolha - Acervo pessoal  - Acervo pessoal
Alessandra e Luciano decidiram morar em casas separadas desde 2018 e viram o relacionamento melhorar muito com a escolha
Imagem: Acervo pessoal

"Quando nos casamos, eu e Luciano começamos a morar juntos como qualquer casal. Em 2008, tivemos o nosso filho. No começo, estava tudo bem, mas com o tempo foram surgindo dificuldades na convivência e na administração da casa.

Não éramos exatamente um casal tradicional: era eu quem saia para trabalhar e ele quem ficava com a parte doméstica da casa. O que o tornava muito rígido com as coisas. E, por eu ter tido essa educação feminina, e tinha a minha questão de também querer dominar o espaço, os conflitos foram surgindo.

Em 2018, tivemos outros problemas emocionais e quase nos separamos. Resolvemos conversar e ver se o que estávamos sentindo era realmente o fim da reação e concluímos que não era, mas precisávamos de um novo formato. Como nós já tínhamos dois imóveis, um a 200 metros de distância do outro, era possível manter a relação em casas separadas. Cada um no seu canto, fazendo as coisas do seu jeito, mas nos vendo o máximo possível.

Funcionou para o nosso relacionamento. Nos vemos todos os dias e nosso filho, Davi, que hoje tem 13 anos, acha até divertido. Nossas brigas diminuíram bastante e os conflitos também. Eu me sentia bastante controlada quando dividimos o mesmo espaço e ele sentia que eu o restringia.

Por exemplo: ele é cheio de coleção de objetos geeks que agora pode usar para decorar a casa do jeito que quiser. Passamos todos os finais de semana juntos e, durante a semana, vamos circulando pela casa um do outro, fazendo visitas." Alessandra Ayumi Nomura, 46 anos, arquiteta, casada com Luciano Marzocca, 45 anos, publicitário, desde 2004, de São Paulo.

'Nunca aconteceu nada que me deixasse insegura'

Priscilla e Geraldo estão em casas (e estados!) separados há seis anos por causa de uma necessidade de trabalho - Acervo pessoal  - Acervo pessoal
Priscilla e Geraldo estão em casas (e estados!) separados há seis anos por causa de uma necessidade de trabalho
Imagem: Acervo pessoal

"Não escolhemos morar assim, foi algo que aconteceu por uma necessidade de trabalho. Estamos casados há 27 anos e em 2014 ele recebeu uma proposta de emprego para ir para outra cidade. Conversamos bastante e chegamos a conclusão que ele tinha que ir, nem que fosse para tentar.

Nossos filhos já eram adolescentes e o dinheiro ajudaria na criação deles também, claro. E nessa já se passaram oito anos.

Atualmente eu moro em Vitória, no Espírito Santo, e ele em Belo Horizonte, Minas Gerais. Mas nesse período, como sou funcionária pública e trabalho para a Petrobrás também já me desloquei. Enquanto meu marido chegou a morar em Goiás e no Pará, eu já estive em Macaé e São José dos Campos, nossa cidade natal.

O Geraldo é engenheiro mecânico e trabalha na área da mineração, o que sempre o leva para áreas remotas do país. Quando eu estava em Macaé, não tínhamos um aeroporto perto, então pedi transferência pra Vitória por causa da facilidade de ter onde pousar mais perto, já que estamos sempre longe um do outro.

No começo, o Geraldo voltava pra casa uma vez por semana, depois o intervalo passou a ser de 15 dias. Mas em 2020, com o começo da pandemia, ele perdeu o emprego. Fiquei preocupada em tê-lo de volta em casa depois de tantos anos e eu não saber lidar mais com a presença dele.

Na primeira semana foi uma adaptação: eu me irritava com ele, ele comigo. Até que sentamos e conversamos. Falei qual era a minha rotina, ele fez as considerações dele e nos acertamos. Ficamos felizes com o resultado. Tive um pequeno flashback de como era viver com o marido em casa e foi gostoso. Nesse período de grande resguardo, ficamos seis meses na mesma casa e percebemos que, se precisarmos, conseguimos morar juntos novamente.

Acho que essa distância funciona bastante por causa da maturidade do nosso relacionamento. Muitas amigas me perguntam como é. Acredito também que a mudança aconteceu em um momento em que nossos filhos já eram maiores, com 13 e 18 anos. Se eles fossem pequenos, não sei se embarcaria neste formato.

A gente se dá superbem, mas claro que, às vezes, dá ciúmes, sim. Por exemplo, nós respeitamos o WhatsApp de cada um, mas tem vezes que pintam mensagens e a gente quer saber quem é aquela pessoa mandando emojis [risos].

Nunca aconteceu nada que me deixasse insegura. Nossos planos é ficarmos juntos até quando estivermos velhinhos, mas a gente conversa sobre a possibilidade de se apaixonar por outra pessoa por causa da distância. Se acontecer, nosso combinado é contar e vida que segue. Paciência. Mas temos muito respeito um com o outro e queremos ficar juntos." Priscilla Madalena, 47 anos, funcionária pública, casada com Geraldo Júnior, 49 anos, engenheiro mecânico, há 27 anos. Ela mora em Vitória (ES) e ele Belo Horizonte (MG)

'Não sei se me acostumo com ele todos os dias em casa de novo'

Louise e Bruno moram em casas separadas há 5 anos. Ela brinca que não sabe como se acostumaria com ele em casa de novo todos os dias  - Acervo pessoal  - Acervo pessoal
Louise e Bruno moram em casas separadas há 5 anos. Ela brinca que não sabe como se acostumaria com ele em casa de novo todos os dias
Imagem: Acervo pessoal

"Há cerca de cinco anos moramos em casas separadas. É uma rotina bem complicada, principalmente porque temos dois filhos. Por causa disso, nós nos vemos apenas aos finais de semana. Isso tem seus prós e seus contras.

Meu marido trabalha em uma grande empresa nacional e foi transferido para o Rio de Janeiro enquanto eu e meus filhos moramos em Miguel Pereira, no interior do estado. Eu queria que nossos filhos crescessem aqui, que é bem tranquilo. Conversamos e, por uma decisão familiar, ele se mudou sozinho para outra cidade.

Se a gente voltasse a morar juntos 100% do tempo, não sei como seria. Já são 5 anos separados e criamos vários mecanismos para suprir as necessidades do dia a dia. Não sei se me acostumo com ele todos os dias em casa de novo.

Quando ele está de férias, e fica aqui em casa uns 10 dias, até brinco com ele perguntando se ele não quer ir embora. [risos]

A gente acaba tendo mania diferentes e adquirindo rotinas distintas. A minha, por exemplo, é muito pesada com o trabalho e administração das crianças tudo sozinha. Quando meu marido vem pra minha casa durante a semana, bagunça tudo.

Como só nos vemos aos finais de semana, passamos a brigar muito menos. Não temos tempo para isso. Todos os nossos minutos são para aproveitar os momentos em família.

Claro que sentimos saudade um do outro e que gostaríamos de estar mais perto, mas nos vendo só dois dias somos obrigados a sair do óbvio e fazer programas diferentes e divertidos, transformando todos os momentos em especiais.

No começo essa distância foi bem difícil para os meus filhos. Tenho um de oito anos, que tinha três quando o pai se mudou, e sofreu muito. Ele precisou de tratamento psicológico, mas hoje está acostumado. Sentia muita falta do pai. O de cinco anos tinha meses quando o pai se mudou, ele nunca viveu essa configuração familiar de todo mundo na mesma casa. A tecnologia ajuda muito nessa distância. Eles se falam todos os dias, mas rola saudade." Louise Furtado, 32 anos, jornalista, casada com Bruno Aguiar, 36 anos, maquinista, há nove anos. Ele mora no Rio de Janeiro enquanto ela e os filhos moramos em Miguel Pereira, no interior do estado

Relacionamentos