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Ela driblou fracasso e fundou empresa que recebeu R$ 2 milhões de aporte

Aline Deparis, fundadora da Privacy Tools - Rodrigo W. Blum/Divulgação
Aline Deparis, fundadora da Privacy Tools Imagem: Rodrigo W. Blum/Divulgação

Caroline Marino

Colaboração para Universa, de São Paulo

28/03/2022 04h00

A gaúcha Aline Deparis, 37 anos, aprendeu cedo o que é responsabilidade. Entre os 11 e os 12 anos, ela ajudava os pais, italianos, a cuidar de uma pequena produção de soja e laranja em Viadutos, uma cidade com 4 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul. "Meu pai precisou deixar a escola cedo e, por isso, tinha dificuldade com o português. Eu o ajudava a preencher os cheques e a resolver as questões do banco", diz. Em pouco tempo, já estava auxiliando a família com o contrato de um financiamento agrícola, checando valores, condições de pagamento e hectares descritos.

A responsabilidade foi aumentando e Aline aprendeu muito sobre gestão e negócios, até fundar a própria empresa, que acaba de receber R$ 2 milhões em aporte. "Minha veia empreendedora e minha garra vieram do meu pai. Quando ele colhia uma safra que não era boa, dizia: ano que vem vai dar certo".

Já adulta, ela saiu do interior para fazer magistério e pedagogia e trabalhou um tempo na área. Ensinou, inclusive, seus pais a ler e a escrever. Mas, sempre inquieta, Aline foi em busca de novas oportunidades. Acabou fazendo administração com ênfase em análises de sistemas, e abriu sua primeira empresa, a Maven Inventing Solutions, especializada em publicação digital de conteúdo.

Com a experiência bem-sucedida, resolveu criar outro negócio, mas se deparou com o fracasso --que a ensinou a não desistir. "Tinha duas opções: voltar para a minha cidade ou aprender com meus erros e acertos e partir para uma nova jornada. Quando fracassei, deixei marcas e não queria que a última fosse negativa. Precisava provar para mim mesma que poderia dar certo", afirma.

Assim, ela fundou a Privacy Tools, plataforma de privacidade e proteção de dados, que recentemente recebeu investimento de R$ 2 milhões da Bossanova, micro venture capital especializada em aportes pré-seed para startups, além da gestora Domo Invest. Esse foi o segundo aporte do negócio que, anteriormente, recebeu R$ 775 mil.

A empresa atende hoje cerca de 600 companhias, como Grupo RBS e Pague Menos, e em 2021 cresceu 661%. Com a meta de chegar à liderança do setor, a perspectiva é quadruplicar de tamanho este ano. O bom desempenho fez com que Aline fosse indicada à premiação Women in Tech 2021, realizada pela ONG homônima. Além disso, ela é mentora do Distrito e Forbes Woman 2021, e participa ativamente na comunidade de startups, empreendedorismo, privacidade e mulheres na TI.

'Mercado brasileiro não estava preparado'

O sucesso de um empreendedor, segundo Aline, é composto por vários pilares, como ideia inovadora, tecnologia de ponta, time capacitado e líderes bem preparados. Além disso, é essencial pesquisar se o mercado realmente precisa do produto ou serviço. Ou seja, é necessário encontrar o time certo.

Aline Deparis, fundadora da Privacy Tools - Rodrigo W. Blum/Divulgação - Rodrigo W. Blum/Divulgação
A gaúcha Aline Deparis, 37 anos
Imagem: Rodrigo W. Blum/Divulgação

"Em minha segunda empresa, por exemplo, não tivemos sucesso, pois o mercado brasileiro ainda não estava preparado para uma solução com blockchain. Isso há mais de quatro anos, quando pouco se falava da tecnologia", conta. Mas ela reforça que essa experiência a ensinou muito. "Como meu pai sempre disse, a vida tem muitas provas e, ao cair, só precisamos nos recuperar e tentar novamente", afirma.

Por isso, para criar uma nova empresa, ela pesquisou a fundo as demandas do Brasil e foi atrás de tendências fora do país para resolvê-las. "Sempre acompanhei o Gartner, consultoria global, e durante um evento em Orlando, em 2018, vi várias tendências. Uma delas foi sobre segurança da informação, que já estava forte nos Estados Unidos e na Europa", afirma.

Ela e seu sócio, Marison Souza, criaram um MVP (Produto Mínimo Viável), no qual o investimento inicial é mais baixo —apenas referente aos recursos necessários para testar o projeto e adaptá-lo—, buscaram uma aceleradora e a empresa avançou. "É uma questão de sobrevivência saber cuidar dos dados dos clientes. Nós acertamos o momento de mergulhar nessa temática", diz.

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) foi aprovada em 2018 e entrou em vigor em 2020. E a proposta da Privacy Tools é auxiliar as empresas nesse processo de adequação. Há soluções de gerenciamento da privacidade com módulos pensados para o uso em diferentes segmentos do mercado e para cumprir com as obrigações das diferentes legislações, como LGPD e GDPR.

A importância da equipe

Aline faz questão de ressaltar a importância do time para um negócio avançar e conseguir um aporte. "Lembro de um investidor me falar: 'Aline, nós investimos no jóquei, não no cavalo'", afirma. Assim, além de ter um propósito bem claro e saber responder a todas as perguntas do investidor, com números bem embasados e entendimento amplo do mercado, é essencial contar com uma equipe de qualidade. "Não é apenas uma pessoa que faz uma empresa e, sim, um time". Aline usa como exemplo a Fórmula 1. "Posso estar no volante, mas se alguém apertar um parafuso errado, não ganho a corrida", afirma.

Aline Deparis, fundadora da Privacy Tools, conta que enfrentou machismo em sua trajetória profissional - Rodrigo W. Blum/Divulgação - Rodrigo W. Blum/Divulgação
Aline enfrentou situações de machismo em sua trajetória profissional
Imagem: Rodrigo W. Blum/Divulgação

Ela ressalta, ainda, que empreender exige coragem, ousadia e entendimento sobre todas as áreas da empresa —da tecnologia ao financeiro. E, no caso das mulheres, ela adiciona um ponto: não se abalar com situações de preconceito, muito menos baixar a cabeça. "Quando fui presidente da Assespro-RS e do CETI-RS (Conselho das Entidades de TI do RS), passei por muitas situações desagradáveis, como chegar a um almoço com vários dirigentes políticos, ir à mesa que sinaliza meu nome e ouvir: 'Este lugar está reservado para o presidente'. Sem me abater, respondi: 'prazer, a presidente'", conta.

Para Aline, as mulheres não podem desistir de ocupar a cadeira que querem, seja ela qual for. "Precisamos ter em mente que se conseguimos determinada posição, é porque merecemos", completa.

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