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'Não existe idade para amar alguém': mães contam histórias de adoção tardia

Cris Guterres e o filho Rafael: menino chegou na vida da mãe aos 14 anos. - Pryscilla K./UOL
Cris Guterres e o filho Rafael: menino chegou na vida da mãe aos 14 anos. Imagem: Pryscilla K./UOL

Rafaela Polo

de Universa

22/03/2022 04h00

Há quase 33 mil pessoas na lista de espera para adotar um filho no Brasil, enquanto o número de crianças disponível para adoção é um pouco maior do que 3 mil, de acordo com um levantamento feito em tempo real pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA).

A conta não fecha porque quanto mais velho, mais difícil de encontrar uma família. As famílias que buscam a adoção já chegam no cadastro com a imagem que querem de seus filhos. Na maioria das vezes, bebês brancos e recém-nascidos. Enquanto a busca por bebês é alta, outras crianças envelhecem sem perspectiva nos abrigos e orfanatos do país.

Ainda de acordo com dados oficiais do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, quase 10 mil crianças foram adotadas desde 2019: 3.412 entre zero e quatro anos e 2.218 entre 10 e 16 anos. Se focarmos em adolescentes com 16 anos, o número é de apenas 306. O levantamento do SNA mostra também que só 6% dos adotados desde 2019 são considerados da cor preta, enquanto o número para crianças brancas chega a 31%.

"Quando as pessoas procuram a adoção, elas querem um recém-nascido com uma série de características físicas para se adequar a esse sonho. A partir de dois ou três anos de idade, isso já muda. A criança já tem uma noção maior do outro e temos escalas distintas de desenvolvimento. Passamos a enfrentar a rejeição: muitos casais acabam desistindo", diz a advogada especializada em Direito de Família Karime Costalunga, de Porto Alegre.

Cris, Romina e Tereza, mulheres de diferentes cantos do Brasil e sem essas exigências, hoje são mães realizadas de crianças que chegaram em suas casas em idade mais avançada. As histórias de adoção, preconceito e luta destas três mulheres você lê a seguir.

"Ia ser tão bom se você fosse minha mãe"

Cris Guterres e Rafael. "O Rafa é o cara mais legal que eu conheço" - Acervo pessoal  - Acervo pessoal
Cris Guterres e o filho: "O Rafa é o cara mais legal que eu conheço"
Imagem: Acervo pessoal

"Eu conheci o Rafa quando ele tinha 14 anos e eu fazia um trabalho voluntário em um centro de acolhimento de crianças e adolescente. Fomos nos conectando aos poucos, mas fiquei desde o início bem encantada com ele e acabei me tornando madrinha afetiva do Rafael em agosto de 2019.

Começamos a construir uma história bacana, nos gostávamos bastante, ficávamos cada vez mais ligados um no outro. Naquela época, eu queria muito ser mãe, mas já tinha definido na minha vida que não queria ser mãe de um bebê ou alguém que tivesse que dedicar 100% do meu tempo.

Depois de nove meses, o Rafael me olhou fundo nos olhos e disse: 'Seria tão bom se você fosse minha mãe.'

E foi ali que eu percebi que não importava se estivesse estabilizada financeiramente ou não. Também não importava muito quanto tempo eu tinha do meu dia ou se a maternidade ia atrapalhar minha carreira. Naquele instante percebi que estava pronta e que ele já me enxergava como a mãe dele.

No amadrinhamento, o processo é feito pela justiça, mas a criança não mora comigo, vem só em situações específicas. Ele foi vindo cada vez mais. Entrei na justiça para pedir a guarda do Rafa e em setembro de 2021 chegou a guarda definitiva.

Hoje ele está com 17 anos e vem a angústia desse momento da idade dos nossos filhos. É um desafio, não é nada fácil. Tem momentos que eu tenho vontade que ele tivesse 2 anos para que eu pudesse ficar 100% do tempo com meu filho e sabendo onde ele está. Mas cada idade traz uma questão, uma delícia, uma dificuldade, uma dor...

No Brasil, temos um perfil de criança desejável para ser adotada e tem um grande desejo de quem quer adotar de que tenha um perfil de meninas, brancas e recém-nascidas. Isso dificulta muito.

Quando decidi adotar o Rafael, as pessoas me endeusavam muito, me colocavam no lugar de santa, diziam que eu ia transformar a vida de alguém porque eu estava adotando um menino negro, que era visto como o perdido da esquina. Precisamos quebrar essa ideia. Não existe idade para se amar alguém.

Fazemos muitas coisas juntos. O Rafa é uma das pessoas mais maravilhosas que existe no mundo. Minha maior admiração com ele é a capacidade que ele tem de se agarrar às oportunidades da vida." Cris Guterres, 40 anos, jornalista e colunista de Universa, mãe do Rafael, de 17 anos, de São Paulo.

"Quando ele chegou, tinha muito medo de ser abandonado"

Romina disse que sentou uma "conexão foi instantânea" com João Gustavo - Foto: Thay Baracho - Foto: Thay Baracho
Romina disse que sentiu uma "conexão instantânea" com João Gustavo
Imagem: Foto: Thay Baracho

"Se quisesse, poderia engravidar. Fui casada por 11 anos e meu ex-marido tinha problemas de fertilidade, mas mesmo antes de saber disso eu já tinha vontade de adotar. Sempre me via como uma mãe em fase escolar, nunca com um bebê. Mas durante o casamento, tinha que levar em consideração a vontade do outro. Fiz três fertilizações, mas nenhuma deu certo. Em 2019, me separei e no mesmo ano entrei no processo de adoção.

O perfil que eu buscava era mais fora do padrão: queria uma criança entre 3 e sete anos, sem preferência por sexo ou por etnia. Depois de tanta fertilização, eu já sentia esse amor maternal dentro de mim. Na minha cabeça, eu já era mãe. Então, queria destinar esse amor para alguém - e não precisava que esse alguém saísse da minha barriga para me sentir completa.

Estávamos no auge da pandemia, então não pudemos ter aquela etapa do estágio de convivência. Recebi uma ligação na sexta-feira ao meio-dia que tinham encontrado meu filho. Na segunda de manhã fiz uma chamada de vídeo com ele e segunda à tarde já fui buscá-lo para trazê-lo para casa.

Quando vi o João Gustavo, a conexão foi instantânea. O vídeo do nosso encontro foi publicado em vários perfis do Instagram nacionais e internacionais. Para mim, foi o meu parto. Meu filho estava nascendo.

Quando ele chegou, tinha muito medo de ser abandonado. Após um mês juntos, o levei para conhecer minha família em Pernambuco. Quando ia escurecendo, ele entrava dentro de casa e dizia que era para o conselho tutelar não pegá-lo de volta. Ele ficou muito grudado comigo. Eu não conseguia tomar banho nem ir ao banheiro. À noite, chorava muito. Mas, fora isso, foi uma adaptação relativamente tranquila. Não teve rejeição de nenhuma das partes e ele me chamou de mãe logo no primeiro dia.

Por ser uma adoção inter-racial, passei por várias situações de preconceito. Pessoas perguntam se ele é meu filho mesmo - João responde na hora que nasceu do meu coração. As pessoas ficam olhando quando chegamos aos lugares - geralmente nos tornamos o centro das atenções

Eu tinha expectativas em relação a uma criança de 7 anos e foi completamente diferente do que vivi. Achei que ele seria mais independente, mas não. Ele se comportava como uma criança de 3 anos, não era alfabetizado, não conhecia as letras e nem sabia contar até cinco. Com essa idade, tinha apenas 1,10 m e pesava 16 quilos. Hoje, ele tem 1,24m e 24kg. Em junho, fará 2 anos que estamos juntos. Hoje ele me surpreende mais a cada dia, é uma criança esperta, gosta da escola e é muito carinhoso. A alegria da minha vida." Romina Duque Porto, 42 anos, advogada, mãe do João Gustavo, de 8 anos., de Maceió.

"Não foi um amor que surgiu à primeira vista. Foi um processo, mas valeu cada minuto"

Eustácio, Gloria e Tereza comemorando o batismo da filha  - Arquivo pessoal  - Arquivo pessoal
Eustácio, Gloria e Tereza comemorando o batismo da filha
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu e meu marido optamos pela adoção em 2016. Ela seria necessária, principalmente, pela nossa idade. Eu já ia fazer 50 anos e o Eustácio tinha mais de 50 e já era avô. Eu não tinha intenção de ter uma gravidez biológica e não queria ser avó de criança, queria ser mãe.

Então, decidimos adotar uma menina com mais de 3 e até 11 anos - meu marido já tinha um filho menino. Nossa filha chegou até nós com 10 anos e 7 meses. Fizemos a primeira chamada de vídeo no meu aniversário de 50 anos, foi um grande presente e muito emocionante.

Mas não foi um amor que surgiu à primeira vista. Eu tinha muito medo e estava cautelosa. Fizemos uma aproximação de 4 meses, onde nos falávamos por telefone, vídeo chamada e íamos para Minas Gerais visitá-la - somos de Salvador.

Assim que o juiz nos deu a guarda para fim de adoção, eu entrei de licença a maternidade. Achei até que teria mais tempo livre nesse processo por ela já ter quase 11 anos, mas não foi bem assim.

Existiam diversas demandas de uma criança que não conhece bem os adultos com quem está vivendo, está em uma nova cidade, nova escola... No shopping, ela andava segurando nossa mão com tanta força que chegava a machucar, com medo que a deixássemos lá. Minha agenda se tornou totalmente dela. Mas foi importantíssimo para criar o nosso vínculo e ela ter confiança na gente.

Fiquei preocupada porque somos um casal negro com uma filha branca, o que nos fez passar por situações constrangedoras com a Glorinha. A primeira vez que a levei no pediatra, a médica perguntou porque a mãe não pode ir à consulta, por exemplo. Encontrei uma outra que acompanha minha filha até hoje.

Foi um processo, mas valeu cada minuto. Hoje a Glorinha está com 14 anos, se sentindo independente, descobrindo o novo mundo que é viver em família. Assim como ela aprendeu a ser filha, aprendemos a ser pais." Tereza Pereira Nascor, 53 anos, professora universitária, mãe da Glória, de 14 anos, de Salvador