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'Lutar pelo direito de festejar': uma noite com as fãs do Racionais

Ana Gabriela e a namorada, Gabriele Oliveira, em Guarulhos - Béa Lima
Ana Gabriela e a namorada, Gabriele Oliveira, em Guarulhos Imagem: Béa Lima

Beá Lima

Colaboração para Universa, em São Paulo

22/03/2022 04h00

São 22h50 do sábado (19) e estou em frente à Casa Grande, espaço de shows em Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Como um churrasquinho na calçada enquanto ouço duas meninas conversando. É a primeira vez que Larissa Costa, de 22 anos, vai a um show dos Racionais MCs, mesmo sendo fã desde criancinha.

"Nunca tinha ido a um show onde os artistas retratam parte de mim e das pessoas com quem convivi a vida inteira", reflete. Para a auditora contábil, que começou a vida no bairro do Pimentas, periferia de Guarulhos, o preço do ingresso dessa noite (R$ 25), diz muito. "Eles fizeram história, ganharam o mundo e mesmo assim estão aqui proporcionando um rolê que cabe no nosso bolso. Tem show de MPB que custa R$ 300", comenta.

As amigas Sara Brito, 23, e Larissa Costa, 22, em frente à casa de shows - Beá Lima - Beá Lima
As amigas Sara Brito e Larissa Costa em frente à casa de shows
Imagem: Beá Lima

No mesmo dia da apresentação, o Racionais anunciou turnê inédita que vai passar por cinco estados dos EUA.

Na periferia paulistana, poder estar em um show dos Racionais depois de dois anos de pandemia é sinônimo de vitória. E é nesse clima que Mano Brown abre o show: saudando a resistência das pessoas ali presentes e reforçando a importância do direito ao lazer para a periferia.

"Lutar pelo direito de festejar, festejar o direito de lutar", diz, antes de fazer o galpão com centenas de pessoas vibrar ao som de "Mil Faces de Um Homem Leal" —música escrita em homenagem ao guerrilheiro Carlos Marighella.

Para Rose da Costa, 48, é essa sensibilidade aliada a um senso crítico aguçado que torna Mano Brown o maior poeta vivo, nas palavras dela. Ela acompanha o grupo há mais de 20 anos. "Para mim nunca foi música de bandido, eles só falam o que ninguém tem coragem de falar", afirma.

Rose da Costa, 48, no show dos Racionais  - Beá Lima - Beá Lima
Rose da Costa, 48, no show dos Racionais em Guarulhos
Imagem: Beá Lima

Trilha sonora da vida

A Casa Grande estava lotada de pessoas como Rose, que reverenciam Mano Brown, KL Jay, Edi Rock, Ice Blue e as ideias que "os quatro pretos mais perigosos do Brasil" transmitem por meio da música.

Pessoas de todas as idades estão a postos para ouvir o sermão de Brown, momento durante os shows em que o músico dá sua visão sobre o cenário político, devaneios sobre astrologia ou quaisquer amenidades, como aconteceu no último sábado. Há quem diga que essa intimidade com a plateia só acontece quando eles se apresentam na periferia.

Ana Gabriela entre os irmãos Roberto e Cláudio  - Brenda Diniz - Brenda Diniz
Ana Gabriela entre os irmãos Roberto e Cláudio
Imagem: Brenda Diniz

Não é difícil encontrar famílias que foram em bando. É o caso de Ana Gabriela, 25. Quem apresentou o grupo a ela foram seus tios Roberto Gil, 36, e Cláudio, 35, que se orgulham de ter influenciado a nova geração. "Logo que começamos a ouvir, minha sobrinha perguntou o que era e eu disse: 'Isso aqui é a melhor coisa do mundo'", lembra Roberto. Hoje analista financeira, ela conta que a identificação foi imediata. "Cresci ouvindo com a minha família e me alfabetizei lendo o encarte do CD "1000 Trutas, 1000 Tretas". Racionais é a trilha sonora da minha vida".

Ana Gabriela também levou sua namorada ao show. Como a maioria do público, Gabriele Oliveira ouve Racionais desde que se entende por gente e conta que o quarteto fez parte da construção de sua identidade. "Eu sou preta e pobre, mas para mim também é possível. Eles me incentivaram e foi isso que fez eu correr atrás de uma bolsa na faculdade", afirma a atendente de 23 anos, que nunca tinha visto o grupo no palco.

Silvia Regina com a filha, Bianca Dias - Beá Lima - Beá Lima
Silvia Regina, 48, e Bianca Dias, 29. Mãe e filha no show em Guarulhos
Imagem: Beá Lima

Sobrevivendo no inferno

Na casa de Silvia Regina, 48, as letras dos Racionais foram passadas de geração a geração. Ela foi acompanhada de sua filha, Bianca Dias, 29, atendente de telemarketing, e juntas relembram várias apresentações que assistiram. Silvia conta que teve Bianca aos 20 anos, época em que era skatista, e a levava junto nos rolês pela cidade.

Uma vez, a mãe chegou a colocar a filha, na época com 4 anos, no palco para "tomar a benção". Parece que deu certo: hoje Bianca não só curte rap, como tem tatuado no braço esquerdo uma referência à capa do disco "Sobrevivendo no Inferno", um dos álbuns mais famosos do grupo e que ganhou notoriedade por retratar de forma crua a violência do sistema contra a população periférica de São Paulo na década de 1980.

Tatuagem de Bianca Dias em referência ao álbum "Sobrevivendo no Inferno" - Beá Lima - Beá Lima
Tatuagem de Bianca Dias em referência ao álbum "Sobrevivendo no Inferno"
Imagem: Beá Lima

Em 2020, este mesmo álbum se tornou leitura obrigatória no vestibular da Unicamp, ocupando de maneira controversa um lugar onde a população negra ainda é minoria no país.

Em 2017, Mano Brown declarou que a canção "Estilo Cachorro" do álbum "Nada Como Um Dia Após o Outro Dia" estava vetada do repertório —a música deixou de fazer sentido por apresentar conteúdo sexista e ofensivo a boa parte do público que lota seus shows.

Mesmo com uma plateia majoritariamente masculina, os shows de rap sempre atraíram mulheres. "A gente ia de bonde, um monte de mina, mas nem sempre éramos bem vistas", conta Silvia que hoje acredita que as mulheres estão se impondo mais na cena.

É o caso de Amanda Emily, 23, auxiliar de estoque, que estava indo vê-los pela primeira vez. Ela conta que sempre se enxergou nas letras. "Os Racionais retratam a realidade periférica da mulher, não só a do homem. Quando ele cita a Dona Ana, ele fala de uma mulher preta como eu, de uma mãe solteira como a minha. Isso me emociona', reflete.

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