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Quem é a diretora da Al Jazeera que luta por representação sem estereótipos

A indiana Zahra Rasool foi premiada em Sundance pelo seu projeto "Still Here" - Asiya Khaki
A indiana Zahra Rasool foi premiada em Sundance pelo seu projeto "Still Here" Imagem: Asiya Khaki

Nina Rahe

Colaboração para Universa, de São Paulo

17/03/2022 04h00

Quando Zahra Rasool era menina, se acostumou a acompanhar na televisão uma cobertura bastante redutora da comunidade muçulmana, na qual homens eram apontados como terroristas e mulheres tidas como sem voz. Foi esse retrato, no entanto, bastante diverso da realidade na qual estava inserida, com uma série de mulheres fortes e independentes, que despertou nela a vontade de se tornar jornalista.

Hioje, à frente do AJ Contrast, estúdio da rede Al Jazeera voltado para mídias imersivas, ela se tornou não só um exemplo de como a representação das mulheres muçulmanas é equivocada, como vem trabalhando para construir histórias sobre comunidades sub-representadas de forma a não estereotipá-las.

Still Here Jasmine - Divulgação - Divulgação
Cena do projeto "Still Here", ficção baseada na história de seis americanas egressas do sistema prisional
Imagem: Divulgação

Para "Still Here", projeto de realidade aumentada e realidade virtual sobre gentrificação e encarceramento, que agora ocupa a Galeria 78 —novo espaço no Rio de Janeiro dedicado às artes digitais—, Zahra buscou responder o que esperam as mulheres que saem das prisões a cada ano quando retornam a comunidades transformadas pela gentrificação e se deparam com bairros que mal reconhecem— grande parte delas acaba de volta à prisão.

A produção, que tem como base o fato de que a população carcerária feminina é a que mais cresce nos Estados Unidos, com um número que aumentou 750% desde 1980, encontrou ecos também no Brasil, onde mais de 80% das detentas são mães— no espaço da Galeria 78, a realidade brasileira é retratada por meio do primeiro episódio da série "Eu, Preso", da diretora Paula Sachetta, que mostra a situação das mulheres nos presídios do país.

"A grande parcela da população carcerária é composta por mulheres. Muitos filmes tratam sobre esse assunto, mas queríamos contar essa história de uma maneira que não tivesse sido contada ainda", explica Zahra. A forma encontrada por ela foi por meio da colaboração de seis egressas do sistema prisional cujas experiências inspiraram a construção de Jasmine, de 37 anos, personagem que retorna ao Harlem, bairro onde foi criada, após 15 anos na prisão.

Em sua exibição no Festival de Sundance, de onde saiu premiado, "Still Here" contou com a presença de duas participantes. "Saber que elas haviam considerado o trabalho uma boa representação da sua realidade foi o mais importante", explica Zahra.

Quando era jovem, assistia as notícias sem ser representada adequadamente e é algo que não quero que os outros sintam. Não quero que nenhuma mulher que passou tempo na prisão sinta que o que mostramos é inadequado.

Véu não é imposição

Em seus primeiros anos nos Estados Unidos, quando chegou a Columbia para cursar jornalismo na Universidade do Missouri, coube a própria Zahra desmontar os conceitos equivocados que estavam associados a ela. Além de precisar explicar que a utilização do véu não havia sido uma imposição, mas escolha, ela também se deparou com pessoas que não sabiam nem mesmo qual era o idioma de seu país e uma série de colegas que estavam pela primeira vez diante de um muçulmano.

Criada em uma família com trajetória no campo da arte —sua mãe é especialista em caligrafia e seu pai design de móveis —a jornalista conta que seu pai não a apoiou totalmente quando decidiu mudar de país. Por isso, nesse período que considera um dos mais desafiadores da sua vida, resistir foi uma forma de não dar o braço a torcer e assumir que ele poderia estar certo. "Eu idealizei o que seria a mudança, com a ideia de que os Estados Unidos eram como nos filmes: tudo perfeito, diverso e com pessoas de cabeça aberta", lembra Zahra. "Fiquei deprimida, mas depois de passar por isso, acho que posso lidar com qualquer coisa."

Zahra Rasool - Asiya Khaki - Asiya Khaki
Zahra Rasool
Imagem: Asiya Khaki

Na última década de carreira, ela escreveu, produziu e dirigiu dezenas de documentários em mídias imersivas, sempre com foco e com a colaboração de pessoas e comunidades marginalizadas. Conseguiu dissolver, assim, a impressão que havia ficado do seu primeiro contato com a Realidade Virtual, a de que a tecnologia era utilizada para levar os espectadores —geralmente ricos e brancos—para lugares onde provavelmente nunca poderiam estar.

O que me impressionou foram as causas sociais que ela abraça. É uma mulher jovem, indiana, muçulmana, cujo trabalho chama atenção pela mensagem que quer passar enquanto outros estúdios usam a tecnologia pela tecnologia

Liana Brazil, cofundadora da Galeria 78

Com "Yemen Skies of Terror", documentário que segue um menino de 15 anos que perdeu o amigo num bombardeio aéreo, e "Living in the Unkown", sobre a trajetória de muçulmanos uigures que escaparam da China, a jornalista foi indicada duas vezes ao Emmy. Apesar dessa experiência, no entanto, ela ainda se depara com a necessidade de provar sua competência a cada novo projeto como se este fosse o primeiro.

Não tenho a opção de não ser sempre a minha melhor versão

"Queria que eu pudesse trabalhar agora de forma menos árdua do que no início da minha carreira, mas não é o que acontece. As mudanças vêm devagar. A razão pela qual continuo fazendo o que faço é porque me coloca em posição de dar oportunidade a outras mulheres", conclui Zahra, cujo estúdio que dirige atualmente tem uma equipe predominantemente feminina.