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Bárbara Colen: 'O discurso do empoderamento não pode virar autoritarismo'

A atriz Bárbara Colen - Sher Santos
A atriz Bárbara Colen Imagem: Sher Santos

Nina Rahe

Colaboração para Universa, em São Paulo

16/03/2022 04h00

Quando a atriz Bárbara Colen recebeu as primeiras cenas do roteiro da novela "Quanto Mais Vida, Melhor!", na qual vive Rose, não conseguia entender como a personagem se submetia àquele tipo de relação. Casada com Guilherme [Mateus Solano], ela abandonou a carreira de modelo para se dedicar ao casamento com um médico bem-sucedido, porém extremamente ciumento.

Compreender a situação da personagem, sem julgar sua posição, no entanto, só foi possível por meio de uma reflexão sobre sua própria vida, acessando momentos que também foram de submissão. "Fico pensando que existe um discurso de empoderamento que é muito bom, sobre a sororidade, mas também há o outro lado da moeda, de quando o empoderamento vira autoritarismo e você tem que ser forte, brilhante, bonita", explica Bárbara. "Que tipo de feminismo é esse que diz que só servem as mulheres fortes?"

Bárbara Colen, estrela de Bacurau, vai interpretar Rose em Quanto Mais Vida, Melhor - REPRODUÇÃO/VITRINE FILMES - REPRODUÇÃO/VITRINE FILMES
Bárbara no longa-metragem "Bacurau"
Imagem: REPRODUÇÃO/VITRINE FILMES

A atriz, que começou a atuar aos 29 anos, foi criada em uma família que valorizava a independência profissional. Por isso, só conseguiu deixar seu cargo no Ministério Público de Minas Gerais para se dedicar à atuação quando tinha assegurada alguma reserva financeira. Sua aposta resultou logo na participação de filmes como "Aquarius" (2016) e "Bacurau" (2019), ambos de Kleber Mendonça Filho —com o último, recebeu indicação ao prêmio de Melhor Atriz pela Academia Brasileira de Cinema.

Agora, no ar em sua primeira novela, gênero que teve como principal referência durante sua formação, Bárbara segue procurando papéis que lhe permitam dizer o que acredita. "A construção de novos imaginários para nós, mulheres, já é de cara algo que mexe comigo", conta. "Me dá prazer quando sinto que estou trazendo o olhar para esse microuniverso das pessoas que não tem voz."

UNIVERSA: Você é formada em Direito e trabalhou no Ministério Público de Minas Gerais antes de seguir a carreira artística. O que a levou para esse caminho?
BÁRBARA COLEN: Pelo fato de eu não vir de uma família de artistas e tampouco de uma família rica, nem perto disso, desde sempre ganhar meu próprio dinheiro foi um valor e eu sentia que tinha que fazer isso logo. Tanto que só comecei a fazer teatro quando passei no concurso para o Ministério Público e pensei: "Agora tenho a minha renda, sou dona da minha vida". Acho que foram questões mais pragmáticas, mas também tive a sorte de ter uma vocação, algo que brilha o olho e que estava convencida que era isso que deveria fazer. Era uma certeza interna de que eu queria aquilo para a minha vida. E acho que demorou porque não dependia só de uma vontade, mas de toda uma estrutura de vida que me amparasse para eu poder seguir.

Você já disse que, desde pequena, via muita novela. Como foi para encarar a sua primeira?
Apesar de ter sido muito noveleira na infância, quando comecei a estudar o dia inteiro, aos 15, parei de assistir. Então, quando fui fazer agora [Quanto Mais Vida, Melhor!], foi uma surpresa perceber o quanto eu conhecia daquela linguagem, esse conhecimento acumulado que ainda era fresco em mim.

Foi bom porque ao mesmo tempo que entrei na Globo com muita admiração, entrei sem um vislumbre que me acuasse. Pude chegar nesse lugar mais madura, mais adulta, e ver tudo com mais tranquilidade.

Eu estou no triângulo amoroso com Vladimir Brichta e Mateus Solano, puta atores, com experiência, e me autorizei a aproveitar e tirar gosto daquilo. Se fosse mais nova, teria sido mais difícil.

Bárbara Colen em cena com Mateus Solano na novela "Quanto Mais Vida, Melhor!" - REPRODUÇÃO/TV GLOBO - REPRODUÇÃO/TV GLOBO
Bárbara Colen com Mateus Solano
Imagem: REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Na novela, você vive uma relação abusiva com o personagem de Mateus Solano. Como foi dar vida a essa mulher?
Foi difícil porque minha primeira abordagem com a personagem foi de crítica. Eu lia e pensava: "Por que ela aceita? Por que ela não reage?" E de repente percebi que não podia entrar nessa postura de que sou mais forte, mais inteligente, mas que tinha que entender o que dentro da vida dela a levou a fazer escolhas que a mantém presa a esse casamento.

Para isso tive que acessar lugares em mim que não eram nobres, mas de submissão, carência, vulnerabilidade. E aí foi uma grande descoberta porque, quando ia acessando esses lugares, revisando o meu passado, ia lendo situações que já tinha vivido como abusivas.

E quais foram as situações que você acessou?
Já aconteceu de um namorado falar para mim que ficou a fim de outra menina por causa do jeito que eu estava vestida e me senti culpada por estar feia e não ser atraente o suficiente para ele. São abusos psicológicos difíceis de a gente identificar quando está vivendo e por isso, quando vejo críticas à Rose, fico pensando que existe um discurso de empoderamento que é bom e está em voga, sobre a sororidade, mas também há o outro lado da moeda, de quando o empoderamento vira autoritarismo e você tem que ser forte, brilhante, bonita.

Esse "tem que" é muito complicado para as mulheres que estão em relacionamentos abusivos porque elas não são o modelo de mulher forte e empoderada que gostariam de ser e você tem esse ideal de "modern woman" que não consegue atingir.

Bárbara Colen - Sher Santos - Sher Santos
Bárbara Colen
Imagem: Sher Santos

O fato de você ter vivido essa personagem fez com que mudasse a forma com que enxerga outras mulheres?
Acho que estou tentando não ser tão crítica. O que acontece é que a gente pega a régua da culpa e o outro lado da coisa é a acusação.

O nosso grande desafio, como mulher, é entender como esse feminismo irá abranger a todas nós, de diferentes classes e cores. Que tipo de feminismo é esse que fala que só servem as mulheres fortes? Só servem para quê? Para serem reconhecidas como ser humano, como indivíduo? É muito complicado.

E se essa compreensão não partir de nós, irá partir de quem? Eu, como mulher heterossexual, que sempre me relacionei com homens, preciso lidar com eles e aprender a construir pontes com esses caras porque tirá-los da minha vida significa renunciar ao meu desejo. Mas até que ponto? Porque até hoje fico me monitorando para não ser uma ameaça para quem está comigo. É como se você pudesse crescer, mas nem tanto. Então, que tipo de relações são essas?

Você já disse que nasceu feminista porque não consegue pensar em um mundo em que precise se sentir inferior. Como foi sua criação?
Quando eu era pequenininha, disse para minha mãe que iria casar com um homem rico. Lembro muito dela ter dito que não, que uma mulher precisava trabalhar e ter sua vida sem depender de ninguém. Isso foi o que mais ouvi na minha infância. E em relação ao meu pai, tenho que reconhecer que ele não me tratava como mulher. Sua criação me mostrava que eu podia ser o que quisesse na vida. Ele me ensinou a jogar sinuca quando eu tinha 12, 13 anos e lembro muito da sensação de chegar em um bar e não me sentir intimidada naquele ambiente.

Eu não tinha essa referência do homem branco como universal. O padrão universal para mim era eu e demorei até reconhecer quando era oprimida pelo machismo porque não me via como mulher.

O audiovisual é uma área que se encaixa nesse "padrão universal", já que é predominantemente masculina. Como você se impõe?
Eu tive muita sorte porque nunca enfrentei uma situação de assédio, mas os sets ainda são ambientes masculinos e minhas maiores dificuldades foram de identificar e me colocar quando não concordava com a forma como uma personagem estava sendo apresentada. Lembro de uma cena no filme "Breve Miragem de Sol" em que a menstruação da personagem atrasava e o casal marcava uma conversa. A cena partia do pressuposto de que a mulher queria ter o filho. Então, eu e Juuar, primeirx assistente, apresentamos a questão para o Eryk [Rocha, diretor] e ele foi muito aberto nessa escuta, de modo que conseguimos mudar a cena e colocar a personagem em uma posição de mais autonomia. Mas uma coisa que precisa ser pontuada é o protagonismo das mulheres nas histórias.

A minha frustração é não encontrar personagens interessantes porque você tem uma estrutura de homens escrevendo e enquanto a gente não tiver mulheres roteiristas, diretoras, não vai ter como. Só nós conseguiremos, de fato, falar das nossas questões.

Bárbara Colen, uma das protagonistas da novela das Quanto Mais Vida, Melhor!" - Sher Santos - Sher Santos
Bárbara Colen está na novela da Globo "Quanto Mais Vida, Melhor!"
Imagem: Sher Santos

Você é negra de pele clara, filha de mãe negra, mas já comentou sobre o fato do colorismo ter feito muita gente acreditar que não era negra. De que forma a discussão racial era abordada na sua família?
Não era abordada. Minha mãe também é negra de pele clara e tem cabelo liso e a questão do cabelo é algo muito definidor.

Fui me definir em termos de identidade racial quando eu fui morar em Barcelona e, de fora, vendo aquela sociedade extremamente homogênea e racista, dei um basta nessa história de ficar bancando a morena. Não sou morena, eu sou negra, e preciso me colocar como negra para entender o racismo que sofro e ter consciência do que represento.

Na novela, a questão do cabelo está sendo uma loucura, porque nunca imaginei que fosse receber um feedback tão grande de meninas que estão deixando de fazer química por causa da personagem. Eu cresci com essa ditadura de cabelo, então sei o tanto que isso é delicado em termos de autoaceitação e construção de identidade.

Você teve influência na caracterização da personagem e na escolha por manter o cabelo natural?
A chefe de caracterização falou desde o início para deixar o mais natural possível. Foi muito importante porque a sala de caracterização é um dos ambientes mais difíceis dentro do audiovisual, com muitos profissionais que não sabem lidar com o seu cabelo e te olham como se você fosse um E.T: "Meu Deus, como vou arrumar isso?" E "isso" é o seu cabelo. São momentos de desconforto e às vezes você sabe mexer no seu cabelo melhor do que qualquer um ali, mas tem que bater o pé porque se sente inferior com todos olhando como se você fosse a mais feia.

É muito doido como as pessoas têm pudor em falar que seu cabelo é crespo e quando você vê alguém com muito pudor em dizer isso, com dificuldade de te chamar de negra, aí está o racismo, porque já há um julgamento de que é ruim.

Você mencionou que é no cinema que encontra personagens que te permitem dizer o que quer. Quais são os papéis que te dão essa possibilidade?
Eu me entrego muito nesse processo, principalmente no cinema, que é um curto espaço de tempo, então realmente precisa ser algo que me faz vibrar o coração. E acho que tudo que fala sobre a condição das mulheres, ou construção de novos imaginários para nós, mulheres, já é de cara algo que mexe comigo. Também me interesso por trabalhos que falem das estruturas sociais. Gosto muito quando, por meio de um filme, consigo evidenciar histórias de pessoas invisibilizadas e que não chegam na narrativa oficial. Me dá muito prazer quando sinto que estou trazendo o olhar para esse microuniverso das pessoas que não tem voz. Isso me emociona bastante.