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Por que cidade no interior de SC é polo de atração de prostitutas no sul

Segurança e maior possibilidade de deixar a prostituição atraem profissionais do seXo para São João Batista (SC) - Getty Images
Segurança e maior possibilidade de deixar a prostituição atraem profissionais do seXo para São João Batista (SC) Imagem: Getty Images

Gabriele Oliveira

Colaboração para Universa, de São João Batista (SC)

12/02/2022 04h00

Prostituta desde os 15 anos de idade, Josiane*, 41, sonhava com um emprego que não a machucasse — física e emocionalmente. Direitos trabalhistas, como férias e 13º salário, eram muito distantes da realidade da moradora de Ponta Grossa (PR). O caminho para transformar seu destino veio em 2005, por meio de uma colega de trabalho, que a convidou para conhecer São João Batista, no interior de Santa Catarina.

O mercado de prostituição da cidade é conhecido entre profissionais do sexo do sul do país por ser mais seguro e lucrativo. Além disso, há mais possibilidades para mulheres que querem deixar a prostituição do que os maiores centros urbanos da região. Por isso, vem gente de Ponta Grossa, Curitiba, Florianópolis, Joinville (SC) e Blumenau (SC), todas entre 300 mil habitantes e um milhão de habitantes, entre outros locais.

A fama fez São João Batista, conhecida como capital catarinense do calçado por ser um ramo em expansão, ter uma segunda indústria que opera silenciosamente: o mercado do sexo. As casas noturnas, na beira de rodovias, nas entranhas dos bairros periféricos ou escondidas entre morros, fazem parte da arquitetura local.

Mas é a fonte renda oficial da cidade, o ramo calçadista, que dá novas possibilidades às trabalhadoras que se mudam para lá. Apesar do estigma, muitas prostitutas conseguem mudar de emprego, como aconteceu com Josiane. Dois anos após chegar à cidade, começou a trabalhar como sapateira, área em que atua até hoje. Casada e com renda fixa, pôde, finalmente, buscar sua filha, que havia ficado com a avó materna em Ponta Grossa.

Na sala da casa alugada onde vive há uma década, Josiane conversa com Universa e se recorda da primeira vez em que recebeu o 13º terceiro salário, aos 27 anos. Na frente de seu chefe, que sabia de sua origem, chorava sem parar ao perceber que realizou um sonho distante. "Nunca me esqueço desse dia. Eu chorava, e ele dizia: 'Calma, menina. É o primeiro de muitos'."


Negócio de família

Enquanto Lurdes* conta sua história sentada em uma cadeira na parte externa da casa noturna que comanda, seu filho Robson* fica em pé ao seu lado, com os braços cruzados. Presta atenção em cada pergunta feita e se antecipa para responder quando tem medo de que a mãe fale mais do que deveria.

A prostituição é o negócio da família há quase duas décadas e, desde que compraram a primeira boate juntos, mãe e filho, um cuida do outro. "Comecei nisso porque meu filho queria tocar um bar. Fiquei com medo de deixar ele vir sozinho, de se envolver em alguma briga. Aí eu disse: 'Vou contigo'", relembra ela, que tem 55 anos.

Hoje, Lurdes cuida de um bar, e Robson, de outro, em lados opostos da cidade. Para os proprietários, além do lucro, a preocupação é manter os locais seguros, confortáveis e lucrativos para as mulheres que os frequentam -- afinal, são um atrativo para obter mais clientes.

Apesar dos visíveis quartos que integram o salão da boate, e de todos saberem como o esquema funciona, a mãe, sob a vigilância cuidadosa do filho, reforça que as prostitutas não fazem os programas no local. "Se tiver quarto, nós vamos presos. Elas fazem o programa fora", explica. "Não existe alvará para boate. O alvará é para bar, e a gente paga imposto", complementa Robson.


Dona da zona

Sentada em uma cadeira na cozinha de sua casa, Suzana* se perde nas próprias lembranças. Aos 45 anos, a hoje faxineira diz ser difícil contar sua história de maneira linear. Aos 10, perdeu a mãe e, para fugir das violências do pai, saiu de casa. Morava na cidade de Blumenau.

Aos 15, trabalhava como diarista quando conheceu as "gurias da vida", como ela mesma diz. Começou a frequentar as boates e, em pouco tempo, seduzida pelos altos valores que suas amigas ganhavam, começou a se prostituir.

Deixou sua cidade natal e se mudou para São João Batista, onde vive hoje. Nas duas décadas que se passaram desde então, foi prostituta e gerente de casas noturnas por alguns anos. Saiu e entrou no ramo várias vezes, abriu suas próprias boates e depois as vendeu.

Em uma busca sem fim pela estabilidade, Suzana passava períodos na prostituição e outros como empregada doméstica. Morou em diferentes cidades, incluindo a capital catarinense, Florianópolis. Mas sempre voltava para a pequena cidade do interior.

Uma das boates em que trabalhou, localizada em um dos bairros mais afastados de São João Batista, chegou a ser fechada pelo fórum da cidade após um abaixo-assinado dos vizinhos enquanto Suzana era a gerente.

"Fizeram da minha vida um inferno. Diziam que as mulheres iam para a rua mostrar a bunda, mostrar os peitos. Sendo que eu não as deixava sair. Mas foi minha palavra contra a deles. Palavra da 'dona da zona' contra os santos."

Dentro da casa, o ambiente alternava entre tranquilidade e caos — gerado, muitas vezes, pelo excesso de bebida alcoólica. Clientes fixos e amigos das mulheres eram presença frequente, o que ajudava a acalmar ou expulsar possíveis valentões que ameaçassem ou humilhassem as trabalhadoras.

A visita inesperada de esposas à procura de seus maridos também era rotina semanal. Mas, geralmente, cientes de quem não tinham culpa na história, as trabalhadoras não eram o alvo de ira.

100% de lucro

Lucrar com a prostituição de outra pessoa é crime de rufianismo, segundo o Código Penal, e tem pena de um a quatro anos de reclusão, além de multa. Conhecida como cafetinagem, a prática não é comum nas boates de São João Batista. O dinheiro do programa é todo da mulher. Para evitar golpes, é pago no balcão, antes da saída do cliente.

Além dos programas, o álcool define a renda de cada prostituta, que ganha uma parcela do valor obtido com a venda das bebidas. A garrafa de cerveja, que no mercado custa R$ 5, na boate custa R$ 30. Por cada uma consumida pelo homem que a acompanha, a profissional recebe R$ 10, e a casa, R$ 20. As vendas mais lucrativas são as garrafas de espumante, que custam R$ 130 e garantem R$ 30 de comissão para a mulher.

Vida fácil?

Silmara*, hoje com 46 anos, já trabalhou em casas noturnas em diferentes cidades do sul do país. Mas prefere as do interior porque, diz, se sentia mais protegida, principalmente quando homens violentos cruzavam seu caminho.

"Pelo fato de a gente estar na zona, achavam que tínhamos obrigação de ficar com eles e de deixar fazer tudo que quisessem. Não é assim".

Diz ter começado na prostituição ainda adolescente, ao ser vendida pela mãe — com quem tem contato até hoje — para uma cafetina. "Ela fala que não sabia o que tinha acontecido. Só que aceitou o dinheiro, eu vi ela pegando R$ 200 da mão da mulher."

Aos 26, se casou com um dos clientes e deixou a prostituição. Depois, entrou na indústria calçadista, onde trabalhou por duas décadas. Hoje, é divorciada, mãe de cinco filhos, diarista e cuidadora de idosos.


Seguindo o fluxo

As cidades que integram o Vale do Rio Tijucas, do qual São João Batista faz parte, são centros comerciais onde há grande circulação de homens trabalhando em diversas áreas de diferentes indústrias, de produção à logística. Para a pesquisadora Marlene de Fáveri, professora da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), é esse fluxo constante de clientes que atrai o mercado da prostituição e, consequentemente, as prostitutas.

Organizadora do livro "Prostituição em Áreas Urbanas: Histórias do Tempo Presente" (ed. Udesc), Fáveri acredita que, além da grande clientela disponível, a violência crescente dos centros urbanos também afasta as trabalhadoras do sexo e as impele para o interior.

Doutora em História, a professora explica que a crise econômica e o empobrecimento da população levam cada vez mais pessoas para as casas noturnas, seja se prostituindo para sobreviver ou buscando suprir demandas de afeto. "Quanto mais miséria, mais prostituição tem. Mais mulheres precisam ganhar dinheiro, e mais homens se desafogam no sexo por causa dos seus problemas", diz.

*os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

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