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Minha história

'Faço reparos domésticos e, assim, ajudo mulheres a evitar assédios'

Maria Júlia Doria, a "Maria de Aluguel" - Arquivo Pessoal
Maria Júlia Doria, a "Maria de Aluguel" Imagem: Arquivo Pessoal

Maria Júlia Doria, em depoimento a Ed Rodrigues

Colaboração para Universa

23/01/2022 04h00

"Eu sempre fui uma menina muito curiosa. Adoro observar as coisas e entender como elas funcionam, e do que são feitas. Isso acontece desde muito pequena. Por aprender facilmente por observação, era algo que muitas vezes eu nem percebia o quanto as coisas me interessavam, por ser algo tão natural para mim. Meu pai sempre gostou de reparar as coisas e tinha uma sala de ferramentas em casa, mesmo não sendo seu trabalho.

Adorava ver meu pai fazendo as coisas e fuçava em todas as ferramentas e máquinas que ele tinha. Conforme fui crescendo e adquirindo minha individualidade, os interesses foram se consolidando.

Com 19 anos (hoje tenho 28), me mudei de cidade para morar sozinha e fui aprendendo a me virar em todos os aspectos da vida.

Comprei minha primeira caixa de ferramentas com um pouquinho de tudo e comecei a consertar as coisas em casa e para amigos. Com isso, o interesse por aprender sempre mais em reparos e manutenção sobre tudo que pudesse sanar minha curiosidade foi cada vez mais aumentando.

Após a caixa de ferramentas, aos poucos o 'tudo' foi se tornando absolutamente tudo mesmo. Hoje em dia até os móveis da minha casa eu mesmo montei e alguns eu fiz, além de todos os reparos. Depois de alguns anos decidi comprar mais ferramentas (como por exemplo uma furadeira que eu ainda não tinha), e a partir daí meu leque de serviços cresceu.

Vendo as reclamações de amigas e pessoas que contrataram algum serviço doméstico oferecido por homens, que se arrependeram seja por ineficiência ou por algum tipo de assédio, vi que poderia ser uma alternativa segura e confiável. E criei o Maria de Aluguel.

Atualmente, ofereço serviços de manutenção, reparos de elétrica e hidráulica e instalações em geral, como por exemplo instalar prateleiras e cortinas, assim como montagem de móveis.

Gostar do serviço é minha maior motivação, além de trabalhar principalmente com mulheres, o que traz uma satisfação pessoal muito grande, principalmente por ser feminista e saber a importância da conexão entre mulheres e de se sentir segura dentro de sua própria casa.

No começo, minha família tinha um pouco de dificuldades em aceitar, mas hoje em dia não recebo mais críticas, e quanto a pessoas de fora, felizmente nunca chegaram críticas a mim, muito pelo contrário, sempre recebo muitos elogios.

Feedbacks

A grande maioria das minhas clientes relata se sentir segura e classifica o serviço como bem-feito e detalhista, o que muitas vezes homens não costumam fazer. Isso particularmente me deixa muito feliz e satisfeita. É um retorno que envolve o bem-estar de poder contratar outra mulher.

O serviço de montagem de móveis muito grandes é sempre muito trabalhoso. Já peguei alguns que levei uns dias para me recuperar fisicamente. Muitas vezes acontecem imprevistos na rotina de trabalho e coisas simples acabam dando muita dor de cabeça para resolver e levando muitas horas.

Eu ofereço profissionalismo e segurança a quem me contrata. Já ouvi de clientes que levaram calotes de trabalhadores homens contratados, que sumiram com o dinheiro sem entregar o trabalho. Algumas clientes também já me contaram que foram assediadas sexualmente, com comentários e olhares completamente desrespeitosos por trabalhadores que elas chamaram para resolverem problemas em suas casas.

Nascer mulher não é algo que nos limita, não somos aptas apenas a algumas coisas porque as outras são 'coisas de homens'. Nascer mulher é nascer com uma carta branca para escolher fazer e vivenciar tudo aquilo que seus sonhos e vontades alcancem.

E esses sonhos nunca devem ser podados por estigmas sociais e padrões heteronormativos de uma sociedade que se baseia em preceitos sem fundamentos, apenas por 'ser costume'.

É isso que eu reflito a minha vida toda e tento ser exemplo. Espero realmente poder inspirar alguém a tomar as rédeas de suas ideias e posturas. Porque o lugar da mulher não é só um, são todos. E é nosso direito e dever ocupá-los."

Maria Júlia Doria criou o Maria de Aluguel, que atua em Botucatu-SP. Ela também é professora formada em ciências biológicas e mestre em botânica com ênfase em ecologia e polinização.

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