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Vereadora eleita para 'embelezar' mesa rebate machismo: 'Tem de fincar pé'

A vereadora Iasmin Roloff Rutz (PT), de Canguçu (RS) - Reprodução/Instagram
A vereadora Iasmin Roloff Rutz (PT), de Canguçu (RS) Imagem: Reprodução/Instagram

Camila Brandalise

De Universa

30/12/2021 04h00

Única mulher entre os 15 vereadores da cidade gaúcha de Canguçu, a cerca de 300 km de Porto Alegre e com 56 mil habitantes, a vereadora Iasmin Roloff Rutz (PT) diz ter ficado "nervosa e indignada" ao ouvir de colegas que votariam nela para a segunda vice-presidência da Câmara de Vereadores, em sessão no dia 22 de dezembro, para "embelezar a mesa" diretora.

"Não podia deixar quieto. Tinha que me posicionar. Disse que não queria ser julgada pela aparência, mas pelo meu trabalho. Nós mulheres passamos por isso constantemente, muitas vezes optamos por ignorar para continuarmos na luta, mas a gente não pode ignorar essas situações, temos que fincar o pé e mostrar a que viemos", diz Roloff, a quarta mulher eleita em toda a história da casa na cidade.

Em entrevista a Universa, ela fala sobre sua indignação com o ocorrido e sobre os trabalhos que já realizou até aqui — e como eles são invisibilizados com comentários machistas desde que iniciou o mandato, em janeiro de 2021.

Leia trechos da conversa abaixo.


UNIVERSA O que aconteceu na sessão do dia 22 de dezembro?
IASMIN ROLOFF RUTZ Seria votada a composição da mesa diretora da Câmara de Vereadores da cidade. Eu me coloquei à disposição para disputar a presidência. A base governista da casa me colocou para concorrer como primeira vice-presidente, recebi sete votos mas não fui eleita. Em um deles, ouvi de um colega que votaria em mim para embelezar a mesa.

Depois disso, fui indicada como segunda vice-presidente, recebI oito votos, e em pelo menos dois deles disseram o mesmo: 'Voto na vereadora Iasmin para embelezar a mesa'. Ouvi isso três vezes consecutivas e fiquei incomodada.

Rebati. Disse: 'Senhores vereadores, quando forem votar em mim, que seja pela minha capacidade intelectual e não pela beleza'. Fiquei tão nervosa que nem consegui raciocinar direito, mas mesmo assim não podia deixar quieto, precisava me posicionar. Senti uma mistura de sentimentos naquele momento em que fui julgada pela aparência e não pela minha competência.

O que te motivou a rebater os comentários?
Fiquei indignada com a tranquilidade dos homens achando que podem falar o que quiserem e quando quiserem, sem se intimidarem pelas câmeras, em espaço público, legislativo, de poder. Nós mulheres passamos por isso constantemente, muitas vezes optamos por ignorar para continuar fazendo nosso trabalho. Mas a gente não pode mais ignorar, tem que fincar o pé e mostrar a que veio: para trabalhar, e não ser julgada pela aparência. É uma ideia muito retrógrada.

Pensa em tomar alguma atitude legal? Vai assumir a segunda vice-presidência?
Tomarei esta decisão junto ao partido assim que passar os feriados.

O que esse episódio representa em relação a como mulheres são tratadas na política?
Se olharmos nacionalmente, não foi só minha questão que repercutiu neste ano. É um contexto político nacional e não só aqui da minha região. Agora está se falando muito no meu nome, mas em outros momentos já se falou de outros, outras mulheres que foram desrespeitadas no parlamento, vereadoras também.

Quando surgem essas questões, a gente precisa se reafirmar, falar sobre, para que parem de acontecer situações como essa e para e que mais mulheres sintam-se encorajadas a estar no parlamento.

O caso teve repercussão nacional. Vê algo de positivo nisso?
Estou assustada com tanta repercussão. Mas acho que se deu porque esse tipo de comportamento não é mais aceitável. Por mais que para algumas pessoas estejam considerado normal, e para muita gente é vitimismo meu, a gente precisa falar sobre isso.

Já sofri, mas hoje estou contente em ver que tudo isso está acontecendo para que mudanças no senso comum possam ocorrer.

Já passou por outros constrangimentos na casa?
No início do ano sim. Me tratavam como 'a nossa vereadora', 'lá vem a bonita', a 'guriazinha'. Mas teve um momento em que demonstrei meu descontentamento e falei na tribuna que me sentia desrespeitada naquele espaço.

A partir daí, os vereadores mudaram suas posturas. Mas o comportamento machista está enraizado na nossa sociedade e propício a brotar a qualquer momento.

Quais trabalhos realizou nesse primeiro de mandato que destacaria?
Ajudei a reativar o Conselho Municipal da Mulher, que combate a violência doméstica e estava desativado há mais de dez anos. Também conseguimos implantar a chamada Sala das Margaridas dentro de delegacias, um espaço de acolhimento e encaminhamento de vítimas de violência. Criei outras quatro propostas, uma aprovada e uma sancionada, que exige a fixação de cartazes para informar sobre a Lei do Acompanhante, que garante à gestante estar acompanhada na hora do parto. Aqui no município ela nem sempre era colocada em prática.

Estou muito feliz com o trabalho que desenvolvi ao longo de um ano. E aí, no momento em que falam, normalizam isso de que vão votar em mim para 'embelezar a mesa', me deixou triste. É como se tivesse ali só para isso e não fosse capaz de construir políticas públicas e legislar como os homens.

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