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Valentina Herszage: 'Na análise, comecei a perceber os abusos que sofri'

Valentina Herszage, de "Quanto Mais Vida, Melhor!" - Larissa Kreili/ Divulgação
Valentina Herszage, de 'Quanto Mais Vida, Melhor!' Imagem: Larissa Kreili/ Divulgação

Laís Rissato

Colaboração para Universa

18/12/2021 04h00

Após um ano de exercícios físicos intensos online, estudos e preparação corporal em meio às dificuldades da pandemia, a atriz Valentina Herszage, 23 anos, tem celebrado não apenas sua primeira protagonista em uma novela da TV Globo, como também a própria sensualidade. Ela aflorou e se intensificou graças à dançarina Flávia, da trama "Quanto Mais Vida, Melhor!". "As mulheres não são estimuladas a liberar seu lado sensual, e isso é uma coisa milenar, a gente sempre teve de guardar essa nossa preciosidade. Nesse processo, fui encontrar a minha sensualidade", diz ela, que tem papéis um tanto quanto opostos no currículo, como a adolescente Bebeth, da novela "Pega Pega", reexibida recentemente na emissora; a sonhadora Hebe, na primeira fase da série homônima global de 2019; e Bia, uma garota de 15 anos que lida com questões profundas e inerentes à idade no filme "Mate-me por favor", pelo qual recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio, em 2015.

Com desenvoltura e maturidade que impressionam pela pouca idade, Valentina, solteira há três meses, fala sobre o período em que morou com o ex-namorado, o músico Ravel Andrade, na casa dele, em São Paulo, durante o auge do isolamento social, o quanto adora estar apaixonada, seu posicionamento político nas redes sociais e a importância da análise, descoberta muito cedo, já que sua mãe, Mônica Coutinho Herszage, é psicanalista. A atriz, aliás, tem na terapia uma de suas maiores aliadas para o autoconhecimento e entendimento de processos difíceis, como reconhecer o machismo enfrentado no dia a dia e possíveis situações de assédio. "Eu tenho experiências cotidianas de não ser escutada, de achar que não ia dar conta de algo... De homem que passa mão aqui, ali. Com a análise, você se escuta e começa a perceber os abusos que sofreu".

UNIVERSA - Como é viver tão jovem uma das protagonistas da novela das 7?
VALENTINA HERSZAGE - Sempre desejei trabalhar como atriz e desde criança fiz aulas de canto, teatro, circo, sapateado e dança. Mas, na infância, isso não era uma pretensão minha ou da minha família, foi se revelando aos poucos, principalmente quando fiz o filme "Mate-me por favor". Eu tinha 15 anos e foi o primeiro trabalho no qual me entendi como atriz, ganhando dinheiro, entendendo as câmeras e me relacionando com as pessoas. Então, estar nesta novela é uma grata surpresa.

Sua personagem faz pole dance. Como foi a experiência para aprender a prática?
Eu comecei a malhar, porque sempre fui das artes, mas nunca fiz academia ou exercícios com personal trainer, e para o pole, para se sustentar, você precisa ter força no corpo, nas costas, no abdômen. Fiz exercícios online no ano passado, ganhando condicionamento físico, para enfrentar a barra quando chegasse o momento. Durante um mês e meio, tive aulas presenciais além da preparação da personagem, com a preparadora Juliana Natal. Ela foi imprescindível nesse processo, me ajudando a encontrar esse empoderamento da Flávia, essa mulher sensual que ela é.

Você acha que tem essa sensualidade? Foi natural trazê-la em cena?
Na verdade, todas nós temos, todes têm essa sensualidade. O que é legal e uma joia da nossa profissão é justamente essa descoberta, que talvez por milhões de questões, não pudemos deixar aflorar. As mulheres não são estimuladas a liberar seu lado sensual, e isso é uma coisa milenar, a gente sempre teve que guardar essa nossa preciosidade. Então, nesse processo, fui encontrar a minha sensualidade. Fui pensando em atrizes, personagens que poderia estudar, e acho que bebemos sempre um pouco uma da outra. A Natalie Portman, no filme "Closer", foi uma super referência, eu ouvia muito Rita Lee também.

A busca por um corpo e uma beleza padrão, coisas que socialmente ainda são cobradas das mulheres de alguma forma, principalmente na TV, em algum momento te afetou?
Eu nunca tive essa vaidade, porque sempre consegui enxergar vários tipos de beleza nas pessoas e desconstruir esse padrão. Em casa, nunca tive nenhum tipo de pressão estética para emagrecer ou fazer dieta, meus pais sempre foram muito livres. E eu, de fato, sou uma mulher dentro do padrão, não posso dizer que sofri esse tipo de ataque ou pressão comigo mesma. Para mim, o mais importante, como falei antes, é bebermos umas das outras, nos fortalecendo enquanto grupo.

Você já disse em entrevista que acredita em outras vidas. Tem alguma religião?
Não tenho. Eu acredito na psicanálise, minha mãe é psicanalista... E também no afeto e na fé, no sentido de ser positiva e desejar coisas boas. Temos que ter essa positividade de que as coisas vão melhorar, senão, o que a gente está fazendo aqui? Sobre acreditar em outras vidas, é algo da minha cabeça, eu acho que de fato a gente morre e renasce vivendo uma outra coisa, em outro momento. Eu sinto que não estou na minha primeira vida, mas isso é baseado na minha imaginação e cabeça criativa (risos).

Pelo fato da sua mãe ser psicanalista, o quanto a análise é importante para você?
Faço análise há uns cinco anos e acho incrível. É importante porque tem a ver com um trabalho de escuta, de a gente aprender a se escutar e, livremente, falar sobre as nossas angústias e desejos. Quando colocamos isso em voz alta, nos entendemos melhor. Gostaria que todo mundo pudesse ter acesso, cada um vai fazendo o seu e vamos caminhando melhor juntos. Sei que existem lugares que disponibilizam esse tipo de atendimento de forma gratuita, mas falta uma divulgação mais extensa desses projetos e também de educar as pessoas sobre a importância da análise. Muita gente tem esse preconceito, de que quem faz é maluco ou tem algum distúrbio psicológico. Se eu não fosse atriz e tivesse de escolher um curso, seria psicologia. Acho muito interessante, além de contribuir 100% para a construção dos personagens.

Recentemente, a atriz Samara Felippo falou que algumas amigas perderam papéis por não terem transado com o diretor, e hoje consegue ver os abusos e machismo que sofreu. Você já sofreu algum tipo de assédio sexual?
Já estive em conversas com amigas que falaram "ah, eu queria fazer um negócio, tentei dar a minha ideia, mas não me ouviram e não rolou". Eu tenho experiências cotidianas de não ser escutada, de achar que não ia dar conta de algo... De homem que passa mão aqui, ali, você fica desconfortável... É difícil existir como mulher. Sobre assédio sexual, talvez por estar fazendo personagens grandes, as coisas não cheguem até mim dessa forma, mas você escuta camareiras, figurinistas, atrizes que vão fazer uma participação em um trabalho, enfim, pessoas que são colocadas num lugar terrível e precisam de proteção. Por isso acho que fazer análise é muito legal, porque é quando você se escuta e começa a perceber os abusos que sofreu.

O autor da novela, Mauro Wilson, já declarou que os personagens da trama também estão em busca do amor. Você é uma pessoa intensa, que ama e se joga de peito aberto nas relações?
Agora eu estou solteira, mas amo me apaixonar, acho o melhor sentimento do mundo e sempre gostei de namorar. Vivo intensamente, sou pisciana, né? Eu e o Ravel ficamos quatro anos juntos, e logo que a pandemia começou, ele morava numa casa em São Paulo e fui para lá ficar com ele. Ele é musico, então, a gente cantava o dia inteiro, tocava, eu aprendi a bordar, fazer tapete, nós cozinhamos. Ficamos tentando nos alimentar de tudo isso e nos cuidando. Até hoje eu me cuido e me preocupo também, porque sei que temos um governo aí que não dá o suporte que as pessoas precisam.

Então foi uma espécie de casamento, né?
Sim, totalmente, e foi uma experiência muito boa porque a gente se dá muito bem, somos dois artistas, curiosos. A gente levou tudo com muita leveza, sem nenhum tipo de rótulo, pressão ou obrigação; a gente simplesmente ultrapassou esse momento sabendo respeitar o espaço um do outro. Fizemos, inclusive, uma participação num filme do Daniel Belmonte, chamado "Álbum em Família", baseado em uma peça do Nelson Rodrigues, tudo filmado dentro de casa. Nós fizemos o figurino, eu tinha a câmera, ele o microfone. Eu fui aprendendo a parte técnica meio que na marra, e o filme foi exibido no Festival de Gramado esse ano. Conseguimos desovar um pouco nossos sentimentos de angústia, medo e tristeza.

O quanto a política é importante para você?
Muito! Outro dia eu estava lendo um texto da Hannah Arendt (filósofa e escritora alemã) e ela fala uma coisa incrível que é: a política acontece no "entre"; entre eu e você. É a ligação entre as pessoas. Então, tudo é político, a nossa existência no mundo, sabe? A gente não pode se retirar das questões políticas, temos que fazer parte, querer escutar, principalmente quando não é nosso lugar de fala. A arte também é uma expressão política, e eu tenho muita certeza do lado que assumi nessa história: um lado a favor da cultura, da educação, do respeito e da diversidade. Não tenho nenhuma dúvida sobre as pessoas com quem quero estar e como eu gostaria que o Brasil avançasse.

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