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Ela criou edtech que captou R$ 1 milhão para formar mecânicos

A empreendedora Sandra Nalli, 41 anos, criou a edtech Escola do Mecânico com sede em Campinas, interior de SP. A empresa conta possui 37 unidades em nove Estados brasileiros - Arquivo pessoal
A empreendedora Sandra Nalli, 41 anos, criou a edtech Escola do Mecânico com sede em Campinas, interior de SP. A empresa conta possui 37 unidades em nove Estados brasileiros Imagem: Arquivo pessoal

Caroline Marino

Colaboração para Universa

18/12/2021 04h00

A paixão pela mecânica começou cedo na vida da empreendedora paulista Sandra Nalli, de 41 anos. Nascida em Mogi Mirim, aos 14, ela já era menor aprendiz em uma rede de centros automotivos na área administrativa e de vendas. Assim que surgiu a oportunidade de atuar na oficina, ela se candidatou. Para isso, fez cursos de treinamento em suspensão automotiva, freio, alinhamento, balanceamento e ajuste de pneu. Com o tempo e a facilidade de mexer com carros, se tornou gerente de oficina.

"A empresa ficou relutante em me colocar na parte prática, pois não existiam mulheres fazendo isso. Na cabeça deles, não seria interessante ter uma mulher reparando carros e cuidando da oficina mecânica", diz. Segundo Sandra, o começo foi difícil e ela passou por situações desagradáveis, ouvindo frases discriminatórias do tipo: "Não tem um homem para vistoriar o meu carro?" ou "Esse lugar não é para mulher".

Por muito tempo, ela precisou provar que era capaz de realizar o trabalho da mesma forma que um homem. Sandra lembra, por exemplo, que quando um cliente chegava logo perguntava: "É você quem vai realizar o serviço? Mas você tem carta de motorista?". Muitas vezes, ela precisava levar outro mecânico com ela para dar uma volta no carro e comprovar que estava tudo certo. Mas ela não desistiu.

'Esse lugar não é para mulher', ouvia Sandra Nalli quando começou a trabalhar em oficina mecânica - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
'Esse lugar não é para mulher', ouvia Sandra Nalli quando começou a trabalhar em oficina mecânica
Imagem: Arquivo pessoal

Escola do Mecânico

Em 2010, quando começou a dar palestras na Fundação Casa, em Campinas (SP), Sandra viu sua vida mudar. "Um dia me deu um start de montar um curso básico de mecânica dentro da fundação para ajudar os adolescentes a ingressar no mercado de trabalho. Minha ideia era formar aquelas pessoas, empregá-las e dar novas oportunidades a elas", conta.

Com o passar do tempo, o trabalho, que começou como um negócio social, ganhou novas proporções. "Algumas pessoas começaram a me procurar para comprar o curso. Foi aí que fui ao Sebrae e fiz o primeiro plano de negócio", diz. Assim nasceu, oficialmente, a edtech Escola do Mecânico. Com sede em Campinas, no interior de São Paulo, a empresa conta hoje com 37 unidades, sendo 10 escolas próprias e 27 franquias espalhadas em nove Estados brasileiros, como São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. O curso de formação de base dura cerca de seis meses e é voltado, inclusive, para quem não sabe nada de mecânica.

Tendo como foco os públicos C, D e E, o negócio abrange, além da escola, soluções para o mercado de funilaria, pintura e estética automotiva, além de um app que auxilia na contratação de mecânicos. "Queremos mais do que apenas vender cursos. A ideia é mudar a vida das pessoas para que tenham um emprego. Lembro que no início pegava a lista telefônica e ligava para as oficinas da região para ofertar meus alunos como auxiliares — era um jeito de mudar a vida deles. A partir disso, criamos um aplicativo que faz a conexão de alunos e ex-alunos com vagas nesse mercado".

Na mira de investidores

O negócio chamou a atenção do banqueiro e economista bengali Muhammad Yunus, vencedor do Prêmio Nobel da Paz e criador de um fundo de impacto social no mundo, a Yunus Corporate. Ele aportou recentemente R$ 1 milhão na edtech, valor que será usado em marketing, canais de aquisição, pessoas, novos cursos e tecnologia.

Até agora, a empresa já formou mais de 38 mil alunos e o plano é crescer ainda mais. Até o final de 2021, a previsão é aumentar a receita em 55% em relação a 2020. Entre os planos de crescimento estão o desenvolvimento de novos cursos para o setor de reparação automotiva e a expansão do modelo de negócios para outras regiões. "Quero replicar o modelo para países desassistidos e carentes desse tipo de serviço na América Latina", afirma a empreendedora.

Segredo é ter propósito claro

Ter um propósito claro é fundamental para o negócio dar certo. "O que eu quero? Por que minha empresa existe? É essencial refletir sobre esses pontos para a negócio deslanchar", afirma Sandra. De acordo com ela, é isso que norteia qualquer empreendedor. "Às vezes, a pessoa cria uma empresa sem saber muito bem o propósito. Aí fica difícil dar certo. Quando você tem clareza, tudo flui", diz. Outro ponto essencial é enfrentar o medo inerente a qualquer novo negócio. "O medo está ali - sempre vai estar. Mas quando você olha para ele de um jeito diferente, você quebra esse sentimento. Por mais que me dissessem que não ia dar certo, se eu me deixasse levar por isso, jamais teria construído essa empresa e impactado a vida de tanta gente."

É essencial buscar manter esses valores vivos no dia a dia da empresa. Em um negócio social, o principal desafio é conciliar o lucro com o impacto. "Não posso deixar de gerar impacto, mas a minha empresa precisa ser lucrativa", afirma. Uma das apostas da edtech é estabelecer um contrato com todos os franqueados para que ofereçam bolsas para pessoas em situação de risco. "No mínimo, 5% do total de matrículas precisam ser convertidas em bolsas para quem não tem condições de pagar", afirma.

Olhar sempre para o futuro é outro pilar crucial. "É preciso se antecipar às tendências. Agora estamos desenvolvendo cursos para carros híbridos e elétricos, por exemplo", diz. Segundo ela, existe um gap muito grande entre as inovações trazidas pela indústria automobilística e o conhecimento do mecânico do bairro. Muitas vezes este não consegue acompanhar uma tecnologia avançada introduzida nos veículos. "Queremos tornar isso mais acessível. Já temos dois pilotos dos cursos rodando em Campinas, para validar e lançar para toda rede em 2022."

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