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Dulce Maria fala sobre música com Marília Mendonça: 'Conectadas pra sempre'

Ex-RBD, a mexicana Dulce Maria lança a música "Amigos con derechos", com participação de Marília Mendonça, na quinta-feira (16) - Divulgação
Ex-RBD, a mexicana Dulce Maria lança a música "Amigos con derechos", com participação de Marília Mendonça, na quinta-feira (16) Imagem: Divulgação

Ana Bardella

De Universa

14/12/2021 14h00

"Nunca nos vimos, nem chegamos a nos falar diretamente, mas estamos para sempre conectadas". É assim que a mexicana Dulce Maria se refere à cantora Marília Mendonça, que faleceu em um acidente de avião em novembro deste ano.

A ex-integrante da banda RBD estava na etapa final de produção da música "Amigos con derechos", que será lançada na próxima quinta-feira (16) às 21h, quando soube da tragédia. A canção já faz parte do álbum "Origens", mas foi regravada com a participação de Marília. Pela primeira vez a cantora sertaneja, que almejava uma carreira internacional, gravou em espanhol — um idioma que estava estudando.

Um dia antes do acidente, Dulce avaliava em conjunto com a equipe da cantora os ajustes finais da gravação. E conta que, assim como os brasileiros, entrou em choque ao saber de sua morte.

Em entrevista por telefone à Universa, a artista tenta resumir os sentimentos conflitantes com relação ao trabalho, que foi autorizado pela equipe de Marília a ser lançado. "Sei que ela não está mais neste plano, mas me sinto agradecida pelo presente que deixou, através de mim, para as pessoas a amavam". Confira a seguir.

UNIVERSA - Como foi o seu primeiro contato com o trabalho de Marília?

DULCE MARIA - Comecei a fazer colaborações com alguns artistas brasileiros e minha equipe apresentou. Não vou para o Brasil há quase quatro anos. Antes eu ia sempre, estava mais atualizada da música brasileira. Mas disseram que existia essa menina, que era a número 1 do Brasil, muito querida, que cantava para empoderar as mulheres.

Assim cheguei à música dela e vi o quanto era querida também pelos meus fãs. Nunca tive contato direto com ela, mas entre julho e agosto propusemos uma parceria na música "Amigos con derechos" e, em questão de dois ou três dias, já tínhamos as vozes gravadas. Para mim foi impressionante, porque ela estava no seu melhor momento e não tinha necessidade de fazer essa colaboração comigo, nem com meu projeto independente, mas logo mandou as vozes.

Por falta de tempo, não nos falamos. Ela me seguia nas redes sociais e eu desejava segui-la, mas não podia porque nossa parceria era uma surpresa. Mas o tempo passa, deixamos as coisas para depois e o depois nunca chega. Durante bastante tempo, escutei sua voz na minha música. Ela gostava mais da versão que tinha gravado em espanhol, porque queria começar uma carreira internacional e estava fazendo aulas.

Quando tudo aconteceu, foi muito chocante. Um dia antes eu estava escutando as versões. Foi, para todo mundo, uma tragédia.

Você é mãe de Maria Paula, que acaba de fazer 1 ano. Se identificava com Marília?

Eu também sou mãe, sou cantora. Havia uma conexão muito grande entre nós. O acidente me impactou, não pude acreditar. Principalmente porque, posteriormente, procuramos a equipe dela, cientes de que era um tema muito delicado. Já tínhamos a colaboração, mas queríamos respeitar completamente esse momento. Então nos disseram que sim, era um desejo dela, que o projeto já estava em andamento.

Com a resposta positiva, decidi voltar para o estúdio para regravar a música. Ela cantou com uma potência, com uma energia única e a canção precisava que eu desse o mesmo. Foi uma experiência muito forte. Eu estive cantando com ela, depois que ela já não estava mais entre nós, por várias horas. Foi uma conexão de agora que se estenderá para sempre. Espero que todos que a amam se sintam mais próximos quando ouvirem a música.

Você sabia que ela era fã de RBD?

Sim, me contaram. Sabia que ela era fã de RBD, que saiu um dia com o cabelo vermelho, que dizia que gostava de Roberta.

Por isso digo que, quando penso nela, sinto esse amor genuíno de admirar alguém, que vai além. Por isso entendi porque ela é tão querida. É uma pessoa generosa, humilde: estava no melhor momento de sua carreira e deu prioridade ao seu coração, prioridade de cantar comigo, que havia sido uma parte importante de sua adolescência ou infância. Fez isso pelo seu coração, não por fama, por interesse.

Como você escolheu a música para ser regravada?

Sabendo do que ela cantava e do que queria transmitir, conversei com a minha equipe e chegamos à conclusão de que "Amigos con derechos" conversa bem com as mensagens que ela também passava para as mulheres: você não vai ser um plano B, você vale mais e não vai se deixar manipular por alguém.

Quando a Marília começou, o cenário da música sertaneja era dominado por homens. O que você mais admira nela enquanto mulher?

Generosidade, sensibilidade, autenticidade, transparência. Admiro por tudo o que a vi fazer, de compartilhar e de se entregar ao público. Vi como estava fazendo ligações para os fãs, que fez um vídeo para eles, uma música. Ser ela mesma sem ter que caber em um estereótipo: ela brilhava assim. E admiro por usar sua voz, seu carisma e seu talento para empoderar as mulheres, dar mensagens e dizer: "ei, você vale!".

Ela cantava suas histórias e se conectava ao coração, por isso se tornou a "rainha da sofrência". Levava as mulheres a se sentirem acompanhadas, compreendidas, como se uma amiga estivesse falando com elas.

Quando você escuta a música hoje, o que sente?

Sinto algo muito forte, uma vontade de sentar e conversar com ela, dar um abraço, de conversarmos e rirmos juntas. Me sinto agradecida pelo presente que deixou, de cantar comigo, em espanhol, com toda sua alma. São sentimentos desencontrados: sei que ela não está aqui neste plano, mas é lindo escutar a nós duas juntas. Penso nela com amor e vejo a música como um presente que deixou através de mim para as pessoas que a amavam.