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Nany People, Carol Marra e A Maia: atrizes trans levam diversidade à novela

A atriz A Maia faz o papel da Morte na nova novela das 7, 'Quanto Mais Vida, Melhor!', da TV Globo Imagem: João Miguel Jr./TV Globo/Divulgação

Laís Rissato

Colaboração para Universa

01/12/2021 04h00

Com uma trama leve, recheada de histórias de apelo cômico - tradição do horário das 7 da TV Globo - a novela "Quanto Mais Vida, Melhor!", que estreou no dia 22/11, aposta na diversidade do elenco sem precisar debater abertamente as questões de gênero e sexualidade. Parte importante desse processo está na presença das atrizes Nany People, Carol Marra e A Maia, mulheres transexuais que interpretam mulheres cisgêneras (que se identificam com o sexo de nascimento).

"Estou cansada de falar sobre gênero e acredito que meu trabalho fala por si. Nada me diferencia de uma mulher cis, somos todas mulheres. Ocupar lugares de representatividade e protagonismo é um ato político. Quando eu sonhava em ser atriz, não tinha em quem me inspirar. Hoje a gente tem", conta a estreante em novelas A Maia.

Aos 30 anos, ela interpreta a Morte, uma espécie de divindade que orienta os protagonistas e dá a eles uma segunda chance para viver após todos morrerem em um acidente aéreo. Um renascimento, aliás, é como ela define a sua vida após passar pela cirurgia de redesignação sexual na Tailândia, há 11 anos. "Além disso, eu também nasci de sete meses, faltou oxigênio e precisei ser ressuscitada. Sempre dancei com a morte, então não tenho medo dela".

Mineira de Juiz de Fora, a atriz já fez trabalhos importantes fora do Brasil, como uma participação no filme "Mulher-Maravilha", protagonizado por Gal Gadot, e no clipe Like "It Ain't Nuttin'", da cantora Fergie. Orgulhosa de suas origens, ela se define como uma artista periférica que ainda está lutando por independência financeira. "Não sou herdeira. O caminho que trilhei foi por meio da arte, dos filmes e, como artista, sei que estamos sempre na corda bamba."

Apesar de estar feliz em voltar ao país após anos vivendo na Europa, ela afirma ter medo do Brasil, classificado como o lugar onde mais matam transexuais no mundo. "Tenho pânico de sair na rua porque a minha vida já esteve em risco várias vezes. Apesar do medo, existe a resiliência e o amor ao meu trabalho e à arte. Só por meio da arte, da cultura e da educação que a gente vai salvar esse país."

'Fui uma das precursoras'

Nany People é a recepcionista do motel Arriba Karakas, em 'Quanto Mais Vida, Melhor!' Imagem: Fabio Rocha/TV Globo/Divulgação

Considerada uma das precursoras a abrir caminhos para outras mulheres transexuais no mundo das artes, Nany People, de 56 anos, volta à telinha com duas personagens: Lourdes, recepcionista do motel Arriba Karakas, e a cartomante picareta Madame Lu. "Seria uma falsa modéstia se não falasse que fui uma precursora, até por uma questão cronológica (risos). Mas tenho consciência de que sou privilegiada: tive uma família que me acolheu, apoiou e encorajou para eu ser quem sou. Minha mãe foi fora do seu tempo e, há mais de 50 anos, me aceitou, mesmo sem saber o nome da minha natureza", afirma.

Assim como A Maia, Nany afirma que reafirmar sua condição publicamente não é mais necessário. "Não tiro a importância de quem faz, mas isso é um posicionamento pessoal. Eu escolhi responder aos desaforos da vida com muito trabalho e talento. O teatro me endossa desde 1998. Eu faço personagens, não importa se são trans ou cisgêneros", explica Nany, trabalhando pela segunda vez com o diretor artístico Allan Fitterman.

Fitterman aponta que formar um elenco diverso é um dos objetivos do seu trabalho. "Não somos perfeitos, ainda estamos avançando, mas tanto nessa novela como em outros trabalhos meus, busco essa diversidade".

Com uma longa carreira nos palcos e na TV - que incluem alguns anos como repórter dos programas de Hebe Camargo e Goulart de Andrade, e uma participação na trama de 2018 no horário nobre, "O Sétimo Guardião" -, Nany reforça que é uma sobrevivente.

A expectativa de vida de travestis e transexuais não passa dos 35 anos, muitas são dizimadas quando mostram suas naturezas. Eu me descobri trans aos 23 anos, trabalhei na noite, em festas, passei pelo período crítico do HIV. Então, entendo que viver é um ato de risco.

Nany não realizou cirurgia de redesignação sexual a pedido de sua mãe, morta há 17 anos. Arrependimento? Nenhum. "Teve um tempo que eu achei que isso era o pino que faltava, mas a vida me mostrou que uma neovagina não me fez mais ou menos mulher. O que importa são minhas posturas, atitudes e escolhas".

Sem abaixar a cabeça

Carol Marra faz Alice, diretora jurídica da empresa da protagonista interpretada por Giovanna Antonelli Imagem: João Miguel Jr./TV Globo/Divulgação

Coube a Carol Marra, 44 anos, dar vida à Alice Fernandes Junqueira, diretora jurídica da Terrare, empresa de cosméticos dirigida por Paula, personagem de Giovanna Antonelli. "É um papel pequeno, mas sou muito grata, veio no momento certo. Acho que o importante é a gente retratar a vida aqui fora, o mundo é diverso. Ao mesmo tempo que é necessário levantar esse assunto e discuti-lo à exaustão para ser normalizado, porque muito do preconceito vem da falta de informação."

Eu não quero ser reconhecida pela minha condição, mas, sim, pelo meu talento. Fico chateada quando me creditam como uma atriz trans, porque ninguém coloca 'cantor gay', 'cantora lésbica'. Ser transexual não é adjetivo.

Bastante ativa nas redes sociais, Carol, nomeada como nova embaixadora de uma multinacional brasileira de produtos cosméticos, recebe inúmeras mensagens de meninas trans que veem nela uma inspiração e desejam uma oportunidade para trabalhar de forma decente. "Procuro sempre ajudar e dou uma palavra de carinho e atenção. Muitas se prostituem por um prato de comida porque não têm oportunidade de trabalho. Um caso me marcou muito foi de uma menina da Zona Franca de Manaus. Ela se prostituía por 15 reais e usava o saquinho plástico do sacolé como preservativo. Por causa disso, estava com a região genital toda ferida. Essa é a realidade de muitas meninas, que são tratadas como objetos. Ainda temos um caminho longo a percorrer" desabafa.

Além da sua persistência e talento, Carol credita seu sucesso à base familiar. "Eles pagaram meus estudos, eu fiz duas faculdades. Também batalhei muito e não desisti. Isso faz parte do nosso respeito próprio. Eu não aceito menos do que eu mereço e não abaixo a cabeça".

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