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Mulher com deficiência visual vira empreendedora e ajuda outras a estudar

Formatura de 22 mulheres do projeto, em 12 de novembro  - Projeto Mulheres de Visão/Divulgação
Formatura de 22 mulheres do projeto, em 12 de novembro Imagem: Projeto Mulheres de Visão/Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa, em Maceió

30/11/2021 04h00

A estudante do oitavo período de pedagogia Gilnara Oliveira, 47 anos, está no mercado de trabalho oferecendo serviços profissionais para tornar materiais didáticos de escolas e faculdades mais acessíveis.

Ela é uma das 22 mulheres que se formaram, no último dia 12 de novembro, na primeira turma do projeto Mulheres de Visão, que busca capacitá-las para que empreendam e sejam empregadoras, em vez de empregadas. Uma nova turma de 30 mulheres vai começar a estudar no início de 2022.

Gilnara tem a doença de Stargardt, uma patologia progressiva e sem cura que vai reduzindo a visão. Entre as iniciativas que realiza, além de tornar materiais didáticos acessíveis, ela também dá palestras e faz consultorias. "O curso foi um marco na minha vida", diz.

Hoje tenho uma percepção completamente diferente de todas as áreas, principalmente dos meus direitos como pessoa com deficiência, como pessoa que faz parte de uma sociedade. Melhorou minha vida em vários aspectos: minha autoestima, meu desenvolvimento, minhas atividades acadêmicas.

Gilnara Oliveira, estudante de pedagogia

Gilnara (de azul, 3ª da esquerda para direita ) recebe o certificado do curso  - Projeto Mulheres de Visão/Divulgação - Projeto Mulheres de Visão/Divulgação
Gilnara (de azul, 3ª da esquerda para direita ) recebe o certificado do curso
Imagem: Projeto Mulheres de Visão/Divulgação

Na primeira turma, foram formadas 22 mulheres. Em 2022, uma nova turma deve capacitar outras 30 mulheres.

As primeiras formadas estão iniciando agora um mapeamento da acessibilidade nas companhias no Piauí por meio de uma pesquisa intitulada "O mundo do trabalho e a acessibilidade nas empresas".

"Esse é um levantamento que ainda não havia sido realizado aqui. Nós descobrimos que muitas empresas não sabem onde encontrar esses profissionais, então a pesquisa vai ajudá-las a contratar essas pessoas", conta Gilnara.

Para auxiliar na conexão entre as profissionais e as oportunidades de emprego, foi lançada, em setembro, a plataforma "Acesso MDV". Nela, qualquer pessoa pode fazer um cadastro para que empresas e outras organizações acessem a base de dados em busca de pessoas para um trabalho.

Ana Claúdio Silva foi uma das participantes do curso - Projeto Mulheres de Visão/Divulgação - Projeto Mulheres de Visão/Divulgação
Ana Claúdia foi uma das participantes do curso
Imagem: Projeto Mulheres de Visão/Divulgação

"Esse é um site acessível e o mais importante: é o seu currículo que é visualizado em primeiro lugar. Ele destaca a qualificação da pessoa, e não o seu laudo médico informando que é deficiente. Isso é muito importante e gratificante para cada uma de nós", conta outra mulher formada no projeto, Ana Cláudia do Carmo, 36 anos, que tem baixa visão.

Ela atua hoje na área de audiodescrição e se diz gratificada. "Quando a gente faz a audiodescrição de um documentário, de imagem para um site ou para uma rede social, proporciona a mesma situação que uma pessoa que enxerga. Isso é muito gratificante", explica.

Já passei pela situação de, muitas vezes, não saber o que está acontecendo ao redor. Agora a gente está tendo a oportunidade de dar a condição para que outras pessoas não passem pelo mesmo.

Ana Cláudio do Carmo

'Projeto nasceu de um conversa no corredor'

O projeto Mulheres de Visão começou em 2019 como uma iniciativa do Instituo Ileve, em parceria com a Escola Comradio do Brasil e financiamento da Fundação InterAmericana.

"A ideia de desenvolver um projeto voltado para mulheres deficientes visuais surgiu de uma conversa de corredor na escola [Comradio], quando uma mulher cega comentava que se tivesse a oportunidade faria coisas grandiosas", conta Iraildon Mota, coordenador do projeto.

Certificado do curso para mulheres ceghas ou com baixa visão - Projeto Mulheres de Visão/Divulgação - Projeto Mulheres de Visão/Divulgação
Certificado do curso para mulheres cegas ou com baixa visão
Imagem: Projeto Mulheres de Visão/Divulgação

A iniciativa conta hoje com apoios de órgãos públicos e da sociedade civil organizada, como a Secretaria de Estado para Inclusão da Pessoa com Deficiência, Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Piauí, Rede Nacional de Leitura Inclusiva e Núcleo de Acessibilidade da UFPI (Universidade Federal do Piauí).

No projeto, as mulheres têm aulas de autoconhecimento, política pública de inclusão, comunicação inclusiva, oratória, negociação, criatividade, empreendedorismo e gestão de negócios. "Durante todo o processo elas são acompanhadas por mentores especializados na criação e desenvolvimento de negócios", diz.

Esse projeto quebra um paradigma histórico: em vez de colocar a mulher com deficiência visual no mercado, a gente assumiu o desafio de fazer com que elas sejam empreendedoras, sejam empregadoras, em vez de se empregar. E isso já está acontecendo.

Iraildon Mota, coordenador do Mulheres de Visão

Para ele, o projeto também tenta corrigir uma prática de preconceito que atinge duramente mulheres cegas ou de baixa visão. "A mulher cega é duplamente violentada em vários níveis no seu direito", afirma, citando que essa inclusão pode gerar oportunidade de negócios para elas mesmas.

"A gente tem a lei de audiodescrição, que prevê que 20% da programação local das TVs tenham audiodescrição. No Brasil isso não chega a 0,2%, e aqui no Piauí é zero. Então elas vêm com esse negócio estruturado, no formato de startup, oferecendo consultorias para as TVs e outras áreas, como a moda e a educação. A nossa missão no projeto é tornar as empresas mais acessíveis a baixo custo", finaliza.

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