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Tiê: 'Na pandemia, fiquei instável, mas precisava alimentar minhas filhas'

Natália Eiras

Colaboração para Universa

25/11/2021 04h00Atualizada em 30/11/2021 14h06

O último show com público de Tiê antes da pandemia foi no dia 26 de fevereiro. "A gente já falava sobre coronavírus, mas não sabíamos o que nos esperava", fala a cantora em entrevista a Universa. Nos 22 meses seguintes, em isolamento social, ela dividiu a casa com duas filhas pré-adolescentes, suas noias e uma montanha-russa de emoções por não poder fazer apresentações. "Fiquei instável, mas precisava resolver as coisas, alimentar as minhas filhas". Para isso, retornou às origens: voltou a fazer locuções para peças publicitárias e jingles. "Foi o tipo de trabalho que pagou a produção toda do meu primeiro álbum". Também adentrou um novo mundo: o dos audiobooks. "Ler para os outros é como acarinhar." Lançou um álbum, cinco singles e tentou dar um pouco de colo para quem pudesse ouvi-la. "Descobri que o meu talento é o acolhimento." Ufa.

Quase dois anos depois daquele último show, mais de 60% da população brasileira está completamente vacinada contra covid-19 e o mundo parece voltar ao normal. É hora de Tiê voltar aos palcos. Na última terça (23), ela brilhou na Casa Natura Musical, durante o evento que revelou as vencedoras do Prêmio Inspiradoras 2021, uma parceria entre Universa e o Instituto Avon.

No dia 3 dezembro, ela canta novamente para uma plateia no Studio SP, em São Paulo (SP), mesmo lugar em que, em 2009, ela se destacava no projeto Cedo e Sentado. Desta vez, com o single "Pacto", e acompanhada por um artista que Tiê amadrinhou, Valmir Lins. "Vai ser lindo, mas sei que vou ficar pensando que sou velha e acabada", fala, abertamente. "Porém, cantar naquele lugar, com um novo artista como o Val, vai ser uma boa maneira de acabar 2021."

UNIVERSA - Você lançou a música "Pacto" no começo do mês. Qual foi o processo de criação do single?
TIÊ - "Pacto" foi uma música bem diferente do que costumo fazer. Ela saiu de uma amizade de internet na pandemia. Acabei conhecendo um cara de Fortaleza, o Valmir Lins, que era um fã que tinha feito um vídeo maravilhoso sobre o meu primeiro disco em que ele o dilacerava da mesma forma que eu entendia o álbum. Um dia, ele disse que ia em São Paulo e perguntou se a gente podia fazer fotos juntos. As imagens ficaram muito potentes. Eu estava ovulando, estava bem êxtase, bem alegre e a gente brincou que a capa do single a gente já tinha, só faltava a música. Falei entào: "Valmir, escreve algo pra gente". Ele trouxe uma letra que achei linda. Chamei o Adriano Cintra, contei a história da música, das fotos, e ele fez a harmonia. Foi uma equipe muito envolvida, uma amizade que veio da internet, mas muito real e verdadeira.

Em um post do Instagram sobre "Pacto", você diz que essa música é "de folhas de diário que você quis rasgar, mas que o vento traz até o nosso colo". Essa música fala de você e de sua experiência?
A letra é do Valmir, mas ela fala de mim também. As músicas, quando são autobiográficas, quando são de verdade, tocam o outro porque temos uma história parecida. A gente acaba se identificando. E "Pacto", tendo nascido desse impulso meu de pedir pra Valmir escrever algo, sinto que me transformou em madrinha. "Ontem eu descumpri o nosso pacto/ Bebi, fiz descer goela abaixo" é uma coisa muito minha também. Eu fico realmente arrepiada quando eu a canto.

Você vai cantar para o público pela primeira vez no dia 3 de dezembro, no Studio SP, em São Paulo (SP). É o seu retorno para um show com público. Como foi ficar tanto tempo longe dos palcos?
O último show que fiz foi no Sesc, em fevereiro do ano passado, um pouco antes da pandemia. Tinha a história da pandemia, ninguém sabia o que viria, com muitos altos e baixos. Então estou todo esse tempo sem público. De certa maneira, aprendi isso com a minha mãe, uma mulher muito forte, matriarca, feminista sem saber, sempre me ensinou a ter essa humildade e clareza para resolver. Sou mãe de duas meninas, então teve dias em que fui forte, outros em que fiquei fraca, mas, ainda assim, tive de arranjar outros trabalhos porque precisava alimentá-las.

Como tenho um estúdio em casa, consegui fazer algumas coisas de modo remoto. Voltei a fazer locução para jingles e peças publicitárias, o tipo de trabalho que pagou a produção de todo o meu primeiro álbum. Não tive o orgulho de falar que não poderia mais fazer isso porque não é "coisa de artista".

E entrei para o mundo do audiolivro. É um trabalho muito sensível, porque acarinha quem não pode ouvir. Mas senti muita falta do palco. Minhas filhas adolesceram mais rápido nessa pandemia, mas tivemos comida, saúde, nesse país que está tão miserável.

O isolamento social e a pandemia impactaram a vida das pessoas de diversas formas. No caso de um artista, houve, também, um impacto na sensibilidade. Como foi este período para você do ponto de vista criativo?
Na pandemia, eu não parei, criei o disco chamado "Kudra", com uma intenção de acolher. O isolamento social escancarou que cada artista tem um talento, não apenas musical. Para que serve esse artista? Para entreter? Para politizar? Há quem veio para nos fazer dançar, e quem veio para ensinar, levantar debate. O meu lugar, eu percebi, era o colo.

Tiê e Valmir Lins criaram a música "Pacto", que será apresentada no Studio SP, em dezembro - Alle Manzano - Alle Manzano
Tiê e Valmir Lins criaram a música "Pacto", que será apresentada no Studio SP, em dezembro
Imagem: Alle Manzano

Sentiu que ficou mais ou menos produtiva?
Existe sempre a pressão da produção e essa ferramenta tóxica de que a gente depende que são as redes sociais. Elas podem ser ótimas, mas às vezes me sinto doente. Eu, com as meninas, tive crises de choro e TPMs mais fortes, falei que a gente está mais sensível, porque vivemos em um mundo caótico, com um Brasil que só tem notícias tristes. O artista é uma pessoa normal. Ela tem conta, tem família. A gente tem que lidar com essa vida real e com essa cobrança. Mas, no fim das contas, eu fui produtiva: mudei de casa de novo, consegui lançar um álbum e cinco singles.

Quando me sinto para baixo, sem carreira, sem fãs, fico pensando como vou fazer planejamento se nem sei como vai ser o mundo.

Tem tanta gente passando fome, temos que ajudar alguém em cada esquina, como vou fazer um clipe que vai custar uma fortuna? A grande tentativa é manter essa saúde mental para estar presente para as pessoas que você ama. Tentar fazer esse balanço, é um exercício.

E você vai retornar aos palcos, depois de um ano e oito meses muito intensos que mudaram as pessoas intimamente, no Studio SP, um lugar onde você começou a apresentar seu trabalho autoral. É um recomeço?
É sempre um recomeço, tentar zerar sempre, não trazer as bagagens cheias. Sinto como eu era em 2009, quando tocava no "Cedo e Sentado": fico super insegura, que o show vai ficar vazio. Chega na hora, eu vejo fãs, me emociono.

Dentro dessa loucura da cidade grande, tento me conectar com o meu interior e com essa presença. Isso vai ser lindo. Do mesmo jeito que é lindo e maravilhoso, eu sei que vai passar pela minha cabeça que sou velha e acabada.

É muito emocionante pensar em tudo o que já vivi ali, mas entro na crise da idade, porque vou fazer 42 anos, fico pensando se vou conseguir fazer tudo o que quero. Mas voltar para lá, onde comecei, trazendo um novo artista como o Val comigo, é uma ótima forma de terminar 2021.

A cultura é um instrumento de transformação. Como você acredita que a música pode transformar a vida das mulheres?
Ela pode fortalecer, trazer coragem, trazer a tal da sororidade que a gente fala tanto, mas que a gente tem que colocar em prática. A música salvou muita gente na pandemia. Mesmo a minha filha, que descobriu muita música e a fez sonhar e pensar. Ela tem o poder de engrandecer, criar imagens para isso. Imagina se a gente não pudesse ouvir música nessa pandemia? A gente estava dentro das casas, a cultura levou a gente para fora, de certa maneira. Foi o jeito da gente passear, viajar e descobrir novas coisas.

Tiê: "Descobri que o meu talento é o acolhimento." - Dani Botelho - Dani Botelho
Tiê: "Descobri que o meu talento é o acolhimento."
Imagem: Dani Botelho

Como a arte transformou a sua vida?
A arte meio que me salvou, porque a minha família é de artistas. Mas eu tinha muita insegurança, muito medo. Tive que ficar bem doente para que eu pudesse compor. Descobri um tumor infeccioso no pulmão, ninguém sabia muito o que estava acontecendo, e foi nesse momento de reclusão que comecei a compor. Porque eu era muito crítica, muito perfeccionista. Eu achava que tinha de fazer tudo sozinha, o que era ótimo, mas muito duro.

Quando fiquei doente, eu peguei os quatro acordes que eu sabia tocar e decidi colocar para fora. Eu tive que fazer, se não não teria passado de fase. Minha carreira foi uma carreira tardia, mas a música veio para me tirar desse lugar.

Quais são as mulheres que te inspiraram ao longo da sua trajetória?
Foi muito minha avó, Vida Alves, e minha mãe, Thais Alves. Musicalmente falando, mas a minha base de mãe e vó, sempre foi elas. Eu não tive pai, que foi embora antes de eu ir embora. A Rita Wainer, que é uma grande amiga, há 12 anos, é uma mulher que me inspira muito. Essa sororidade na prática, que é parar, ouvir e trocar. Tento me fortalecer com essas mulheres. Acho importante demais, a gente tem que lutar por isso.

O Prêmio Inspiradoras procura exaltar e promover as conquistas e a atuação de mulheres em diversos campos, seja da ciência, da política ou da cultura. Por que acha que seja importante nós celebrarmos os trabalhos dessas profissionais?
É sempre importante a gente lembrar, trazer, explicar o trabalho de mulheres.

Quantas não tiveram os nomes falados porque os homens passaram na frente e roubaram seus trabalhos? Temos que lembrar, fortalecer.

Até pela lembrança dessas mulheres do passado que não tiveram reconhecimento. É isso que temos de fazer para as nossas filhas ficarem sabendo, as nossas avós. Temos que exaltar, e com muito afinco.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado na versão anterior deste texto, o nome do álbum lançado por Tiê é "Kudra", e não "Cuida".

A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.