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Mulheres inspiradoras

Professoras com deficiência visual têm mais desafios e carga na pandemia

Ana Cristina Hildebrand, de 51 anos, leciona no Instituto Benjamin Constant, tradicional escola federal de ensino para cegos na Urca, zona sul carioca. - Maya Sangawa
Ana Cristina Hildebrand, de 51 anos, leciona no Instituto Benjamin Constant, tradicional escola federal de ensino para cegos na Urca, zona sul carioca. Imagem: Maya Sangawa

Coletivo Pupilas (texto: Cristiana Felippe, Maria Ligia Pagenotto, Maya Sangawa. Fotos: Marcia Minillo))

Colaboração para Universa

22/11/2021 11h34

Enquanto a visão traz a percepção das cores do mundo, o toque é a primeira forma de comunicação humana e de cuidado. Privadas de usar o tato em ambientes públicos durante a pandemia, as professoras com deficiência visual tiveram uma de suas principais formas de se orientar comprometida. Pelos dedos, elas leem livros, embalagens, localizam produtos no mercado e sentem as teclas da maquininha do cartão. Também por meio do tato, locomovem-se com bengala e dependem do braço de outra pessoa para atravessar as ruas.

Mesmo com tantas privações, somadas à sobrecarga de trabalho e à falta de apoio, as professoras cegas não deixaram de realizar suas tarefas e ainda se tornaram arrimo de família, cuidando de seus lares e alunos. Narradoras invisíveis de uma sociedade onde o próprio Ministro da Educação, Milton Ribeiro, declarou que pessoas com deficiência (PCD) atrapalham, elas desafiam o capacitismo e reivindicam acessibilidade e inclusão.

Deficiente visual, a professora Regina Célia Ribeiro da Silva trabalha numa escola na Vila Gustavo, zona norte de São Paulo - Marcia Minillo - Marcia Minillo
Deficiente visual, a professora Regina Célia Ribeiro da Silva trabalha numa escola na Vila Gustavo, zona norte de São Paulo
Imagem: Marcia Minillo

Os inúmeros obstáculos diários não apagam o sorrisão da professora Regina Célia Silva, de 54 anos. Começam no sobe e desce da ladeira íngreme de calçada irregular, estreita, esburacada e cheia de postes para chegar à escola onde trabalha, na Vila Gustavo, zona norte de São Paulo. Algumas vezes, precisou atravessar a rua sozinha, guiando-se somente pelo som dos carros, pois depende da boa vontade de quem passa, algo ainda mais difícil na pandemia. Não existem semáforos sonoros no bairro onde mora.

Regina é uma das 17,3 milhões de PCDs que vivem no país (8,4% da população com 2 anos ou mais, segundo o IBGE), sendo a falta de visão a mais recorrente (3,4%). Ela faz parte dos 8.366 educadores brasileiros com alguma deficiência (Inepe).

No Estado de São Paulo, há 798 professores com deficiência, 41,3% cegos ou com visão subnormal. As dificuldades para se locomover e fazer compras somaram-se ao aumento das tarefas domésticas e à preocupação financeira. Enquanto passa roupa, tarefa que gosta de fazer, Regina aproveita para ouvir os e-mails e mensagens que chegam no computador ou celular. Seu salário foi o único da casa durante cerca de um ano e meio. O marido, Geons Galdino, de 54 anos, também cego, perdeu o trabalho com laborterapia em empresas, durante o isolamento social.

Capacitismo

Esses não foram os maiores desafios de Regina. Na pandemia, em abril do ano passado, ela descobriu que o pai, de 89 anos, estava com câncer de pulmão. E se desdobrou para cuidar dele, mesmo sem parar o trabalho remoto na escola. Buscou tratamento, cadeira de rodas, medicamentos, fraldas, doação de cama especial e equipamentos. Foi acompanhante nas internações e, com muita delicadeza, conseguiu fazer o pai se alimentar, mesmo quando ele já estava com dificuldade de engolir: o café com leite era de canudinho e colocava pedacinhos de pão em sua boca, tomando cuidado para ele não engasgar. Neste período, ouviu de uma enfermeira que o hospital não era lugar para ela e, de uma cuidadora, que não deveria fazer tanta pergunta ao médico.

"Fiquei com ele no Pronto-Socorro do hospital, e Cristian, meu sobrinho, era meus olhos. Me guiava e dizia: 'tia, vamos pra esquerda, vamos pra direita, vamos pra frente, me ajuda a achar um enfermeiro. Aí, lá no Pronto-Socorro, tinha uma infeliz de uma enfermeira que me viu de braço dado com o Cristian e diz 'Por quê que você não deixa sua tia em casa descansando e fica aqui, você, com seu vô?'. Sabe por quê? Porque eu sou cega", conta Regina.

Em agosto, com a madrasta também hospitalizada para uma cirurgia de câncer de tireoide, o pai precisou ir para um lar de idosos para receber cuidados mais específicos. Semanas depois, ele voltou para casa, mas já era a despedida. Regina acompanhou os detalhes do enterro de seu pai pela descrição de uma amiga: "Estão colocando as cordas, o caixão está descendo? Você está ouvindo o barulho? Agora, está encostando lá na pedra onde ele vai ficar".

A educadora chora ao falar do pai militar, que a levava e buscava na escola e também lia e gravava os livros do Magistério e da faculdade de Psicologia para ela. Mas, no início, não queria que a filha trabalhasse. O jeito foi prestar concurso público escondida. "Um dia, eu cheguei e fui recebida com um abraço dele, dizendo 'parabéns, professora!'. Ele havia aberto a minha carta", diz. "Não posso ver a foto do meu pai quando fico com saudade, mas guardo os bons momentos, do orgulho de me levar ao altar da igreja e por eu ser educadora".

As mulheres com deficiência passam por um processo de invisibilização histórica, na avaliação da psicóloga Karla Garcia, membro do Núcleo de Estudos sobre Deficiência da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e colaboradora do Coletivo Feminista Helen Keller. Pesquisadora do tema há anos, vivencia na pele o desafio da deficiência física.

Segundo ela, ao assumir o papel de cuidadoras, elas têm a oportunidade de mostrar que são capazes, mas se tornam também reflexo da carência na implementação de políticas públicas. "O cuidado não pode ser relegado somente às mulheres, todos somos responsáveis e dependemos uns dos outros em alguma medida. O mito do sujeito independente é uma falácia do regime capitalista, que nos exige autossuficiência, como se tudo dependesse do nosso mérito e força de vontade", frisa Karla. "Temos que trabalhar com a interdependência e o cuidado deve ser visto como responsabilidade coletiva, inclusive, do Estado", afirma.

A professora Ana Cristina Hildebrandt  - Maya Sangawa - Maya Sangawa
A professora Ana Cristina Hildebrandt ficou sem diarista e faxineira durante o isolamento na pandemia e teve que cuidar sozinha da casa e do pai de 82 anos
Imagem: Maya Sangawa

Não ser capaz de cuidar da casa e do pai, Hercen, de 82 anos, também cego, foi o maior medo da professora Ana Cristina Hildebrandt durante a pandemia. No isolamento, ficaram sem a diarista e a faxineira e sobraram para ela os afazeres da casa onde moram, no Méier, zona norte do Rio. Ana, de 51 anos, leciona no Instituto Benjamin Constant (IBC), tradicional escola federal de ensino para cegos, na Urca, zona sul carioca. O Estado possui 520.688 pessoas com deficiência visual (IBGE).

Antes da pandemia, ela quase não parava em casa: saía às 6h30 para trabalhar, frequentava um centro espírita e viajava com frequência para o sítio de amigos e casas de familiares em Minas. Hoje, além de se dividir entre aulas online, reuniões, correção de trabalhos e tarefas domésticas, também sente o pai mais dependente. "Ele toma 5 medicamentos por dia para hipertensão, bronquite e colesterol. Quando eu trabalhava fora, ele se virava mais, lavava a louça, fazia café. Depois, passou a delegar tudo para mim. Acho que é cultural", diz.

A educadora é um exemplo de uma realidade frequente para as brasileiras. Segundo pesquisa da Gênero e Número/Sempre Viva, com 2641 participantes, metade das mulheres passou a cuidar de alguém durante a pandemia, sendo 3,5% delas responsáveis por pessoas com alguma deficiência. Os efeitos da sobrecarga na pandemia desencadearam em Ana, por exemplo, crises de ansiedade, alergia respiratória e conjuntivite pela higienização compulsiva.

Criatividade para se reiventar e superar o medo

"Tive uma crise de ansiedade e cheguei a ir no hospital. Me deram lá umas gotinhas de Rivotril, me deixaram lá um tempinho, deitada lá, pra descansar e me mandaram de volta pra casa. Deu aquele pane na cabeça, né? 'O negócio é sério mesmo, vai morrer todo mundo e como é que eu vou fazer? E se a minha casa ficar muito suja? Se meu pai morrer? Como é que eu vou comer?'", lembra Ana Cristina.

O celular foi um consolo para ouvir músicas, vídeos e conversar em grupos de WhatsApp, mas também foi fonte de ansiedade: precisou aprender rápido novos recursos para aulas à distância. Como alfabetizar em braile, quando o toque é fundamental no processo? A saída foi passar as lições em áudio por aplicativo.

Além disso, uma vez por mês, os alunos buscam os exercícios impressos em braile no IBC, preenchem e depois devolvem à professora para a correção. No local, todos os outros 157 professores do Ensino Básico precisaram se reinventar para atender os 311 alunos com deficiência.

Com criatividade, Ana consegue estimular os alunos, oferecendo cuidado e afeto. Um exemplo foi um piquenique virtual realizado durante uma aula de Ciências: os estudantes de 10 anos prepararam, sob supervisão das mães, biscoitos e bolos para debater as propriedades da matéria. Foi um sucesso!

Passo a passo, as educadoras cegas continuam trilhando seus sonhos, apesar dos obstáculos. Regina escreve um livro para orientar as famílias de pessoas com deficiência. Quer voltar a desfilar com o marido em escolas de samba no Carnaval e ser terapeuta quando se aposentar. Ana Cristina não vê a hora de viajar de novo. No caminho dessas professoras, têm pedra, buraco, poste e preconceito, mas elas fazem da travessia esperança.

*Esta reportagem foi feita com o apoio do Laboratório de Histórias Poderosas Brasil, uma iniciativa de Chicas Poderosas, comunidade internacional e organização sem fins lucrativos que busca fomentar o desenvolvimento de mulheres e pessoas LGBTQI+ em meios de comunicação e criar oportunidades para que todas as vozes sejam ouvidas. O Laboratório recebeu apoio da Open Society Foundations.

Créditos
Texto: Cristiana Felippe, Maria Ligia Pagenotto, Maya Sangawa (Coletivo Pupilas)
Fotos: Márcia Minillo e Maya Sangawa (Coletivo Pupilas)
Edição: Bruna Escaleira Checagem: Alessandra Monnerat
Acompanhamento de segurança: Helena Bertho
Coordenação de projeto: Equipe Chicas Poderosas

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