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Curso ensina a criar bio ideal em app de namoro: 'foto boa, piada e emoji'

Angelina encontrou o "match perfeito" depois de seguir as dicas de "como criar a bio perfeita em apps de paquera" - Arquivo pessoal
Angelina encontrou o "match perfeito" depois de seguir as dicas de "como criar a bio perfeita em apps de paquera" Imagem: Arquivo pessoal

Júlia Flores

De Universa

10/11/2021 04h00

"Deus está vendo você receber esse superlike e dizer que não está encontrando ninguém legal :)" era o que dizia a biografia do publicitário Rafael Bornacina em um aplicativo de namoro. Se você achou a cantada "fraca", saiba que ela deu certo e o redator de 33 anos não está mais disponível no catálogo humano de paqueras do app, porque já encontrou um match perfeito para chamar de seu.

Ainda assim, Rafael continua ajudando as pessoas que têm dificuldade de encontrar a alma gêmea no Tinder, Bumble, Inner Circle ou qualquer outro aplicativo de paquera com um curso que ensina "Como fazer a bio perfeita para os apps de encontro".

"Não existe a bio perfeita para todo mundo, mas existe a bio perfeita para você", diz Rafael. "A primeira coisa que você precisa informar é o que está fazendo ali no aplicativo; se quer encontrar um 'mozão para chamar de seu' ou se está só no tédio, procurando uma companhia casual". E acrescenta: "Definido o seu objetivo, é hora de deixar claro o que e quem você está procurando por ali".

Mas será que os conselhos de Rafael funcionam? Existe uma fórmula para a biografia perfeita? A reportagem de Universa testou as dicas, encontrou uma aluna que se deu bem ao aplicar os ensinamentos e conversou com especialistas sobre o tema. Leia a seguir.

Um match de qualidade

A publicitária Angelina Furtado conta que voltou para os aplicativos de paquera no começo da pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A publicitária Angelina Furtado conta que voltou para os aplicativos de paquera no começo da pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Os aplicativos de relacionamento se tornaram uma das principais fontes de paquera durante a pandemia. Só no Tinder, de acordo com a assessoria de imprensa da plataforma, em 29 de março de 2020, os swipes do app atingiram seu pico: foram 3 bilhões em um único dia. Depois disso, a quebra de recordes continuou, impulsionada por gente como a publicitária Angelina Furtado, 29 anos, que ingressou no app durante o isolamento social.

Ela, que já tinha usado o aplicativo antes —a primeira vez em 2013—, conta que vivia criando e apagando o perfil por não dar "matches certeiros". Depois de seguir as dicas de Rafael, porém, as coisas mudaram. "Passei a trocar mensagens com pessoas que queriam realmente conversar comigo, e não ficavam só no 'oi, tudo bem?'. Passaram a interagir mais comigo, dizer o que gostavam de fazer... Foi um sucesso."

Em agosto de 2021, enfim, Angelina apagou novamente o aplicativo depois de ter encontrado o seu match perfeito. "Encontrei um Rafael para chamar de meu", brinca a publicitária, que agora está namorando.

Sempre que falava que tinha um filho, o cara saía correndo. Deixei isso claro na minha biografia e as coisas mudaram. Angelina Furtado, publicitária que seguiu as dicas de Rafael

Angelina revela o que mudou: "Coloquei de forma leve e descontraída quem eu sou, o que eu gosto de fazer, que eu tenho um filho e em quais lugares já morei", relembra. "Não lembro exatamente que assunto o Rafael puxou, mas foi sobre algo da bio. Conversamos por um dia inteiro, ele me chamou para sair e dali em diante não paramos de nos falar."

'Você é uma marca, e não um produto'

Mas, afinal de contas, quais são as dicas e o passo a passo para uma bio perfeita no app de namoro?

Rafael começa o curso frisando que "somos uma marca, e não um produto". "Nós não somos descartáveis, nós somos uma marca e precisamos pincelar nossas principais qualidades no momento em que estamos vendendo nossa imagem para outra pessoa", explica.

Na opinião de Rafael, o importante é dar "personalidade" à sua marca e, para isso, ele aconselha a utilização de um "conteúdo nugget" na descrição do perfil. O termo (muito utilizado pelo marketing digital) se refere a assuntos pegajosos, armadilhas que atraem a curiosidade do outro, seja uma foto sem camisa ou texto sobre o seu signo.

Cada aplicativo exige uma bio diferente. O Bumble, por exemplo, te ajuda a personificar sua marca com perguntas, já o Inner Circle dispõe de perguntas que você pode fazer para a pessoa Rafael Bornacina, publicitário

"Na bio, o ideal é que se pincelem os melhores atributos que você tem, e não escreva um textão, porque para isso existe a terapia... Briefing é briefing, terapia é terapia; entende?", brinca. Em resumo: seja curto e claro.

No decorrer do curso, Rafael faz mais relações entre a bio perfeita e o marketing digital: "Devemos investir em divulgar nosso maior asset (característica) logo de cara. Você tem que definir o que quer comunicar, qual 'serviço' está oferecendo e para quem. Já definiu seu público-alvo? Tem que escolher qual pessoa é o seu número e com quem você quer se relacionar".

Deixe claro na bio quem é você, se você é mais caseira ou se gosta de dar rolê. Mostre os diferenciais da sua marca: inteligência, bom humor, principal hobby, etc. Ah, e não se esqueça de usar um emoji! Isso faz toda a diferença. Rafael Bornacina

A bio perfeita existe?

As sugestões de Rafael não ficam muito distantes das dicas que o próprio Tinder oferece aos seus usuários de como construir "a bio perfeita": nada de foto com óculos escuros, use imagens sorrindo (isso aumenta em até 10% a chance de ganhar um like), cite hobbies e o que você gosta de fazer —mas sem compartilhar informações pessoais, como número de telefone, por exemplo— e, principalmente, esteja aberto a conhecer novas pessoas.

Sobre informações pessoais, Rafael alerta para o risco de disponibilizar dados como o usuário do Instagram na descrição do app. "Além de perigoso, dá a impressão de que você só quer ganhar seguidor nas redes sociais. Esse foi um dos principais sustos que tomei quando voltei a usar app de namoro: encontrei um monte de gente que não estava ali procurando alguém para conversar, mas sim em busca de mais seguidores."

Ele conta que a ideia de criar o curso surgiu daí. "Comecei a me irritar com a quantidade de pessoas emocionalmente irresponsáveis que existiam no app", diz o publicitário, que se cadastrou nos aplicativos de namoro em abril de 2019, depois de passar cinco anos em um relacionamento sério. "Quando entrei no app, fiquei chocado. Encontrei tanta gente que não responde, que some do nada, etc. Digo que o Tinder é composto por algumas pirâmides; a base é o match, se a pessoa manda um oi já avançamos um degrau, a terceira fase é a troca de perfis em redes sociais e a quarta é quando o match evolui para um relacionamento."

Rafael cita até o filosofo Zygmunt Bauman na hora de divulgar seu curso:

Você pode enxergar o aplicativo como um catálogo de pessoas, e resumir o Tinder como o ponto máximo do amor liquido; ou você pode ver o app de outro jeito, como uma maneira legal e assertiva de conhecer pessoas novas.

Como lidar com a rejeição

O publicitário alerta, no entanto, que a bio perfeita não garante que você dê matches com todos os parceiros que quiser. E, para isso, é importante saber lidar com a rejeição: "Você não pode levar a rejeição do aplicativo a sério, assim como levaria a do mundo real. Você não sabe se a pessoa do outro lado do telefone é ela mesma, se ela está em um momento ruim, se a pessoa entrou para ajudar uma amiga. Você tem que entrar de cabeça aberta, sem a pretensão de que você vai achar o amor da sua vida".

É o que explica a psicanalista e expert em comportamento Marcia Tolotti: "Para estar em um aplicativo de relacionamento, é preciso estar bem com a ideia de ser rejeitada. Preciso saber o que eu sou, quais são minhas principais características e qualidades, independente da rejeição do outro".

Ela avalia que a insegurança de ser rejeitada é maior entre as mulheres. "Infelizmente as mulheres continuam mais submissas ao reconhecimento do outro em relação a ela; elas esperam que o homem decida se elas são desejadas ou não. É uma questão social", frisa.

'Aplicativo é mais cruel com as mulheres'

"Tenho a impressão de que os homens não estão nem aí para o julgamento alheio. Li algumas bios em que as meninas estavam quase se desculpando por ter um perfil no app, 'ai, quarentena né. Era isso ou nada'. As mulheres sofrem mais pressão e isso tem a ver com o machismo; elas ficam com medo de dar a impressão de que estão encalhadas", opina o publicitário.

A reportagem de Universa testou, por duas semanas, as dicas de Rafael. Na minha "bio perfeita", adicionei qualidades, hobbies, meu signo e alguns emoticons. Dei uma repaginada nas fotos, adicionei imagens de biquíni, com bicho de estimação e praticando esportes. Por azar ou sorte, o match certeiro não apareceu.

A gente tem de cortar a ideia de que existe um match perfeito, uma biografia perfeita. O amor perfeito não existe. A perfeição não existe. A idealização dos outros é muito forte, até nos aplicativos de relacionamento. Isso prejudica nossa performance na paquera. O importante é ir com calma. Marcia Tolotti, psicanalista

Na Netflix, um filme de comédia romântica sobre o "Um Match Surpresa" está entre os mais vistos desta segunda semana de novembro. Pelo visto, na vida real ou na ficção, está todo mundo em busca de um match para chamar de seu.

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