PUBLICIDADE

Topo

Minha história

'Após descobrir depressão, escrevi trabalho de mestrado sobre o tema'

A jornalista Mariana Batista fala sobre diagnóstico de transtornos mentais e criou site no mestrado para ajudar outras pessoas a se informarem sobre saúde mental - Arquivo pessoal
A jornalista Mariana Batista fala sobre diagnóstico de transtornos mentais e criou site no mestrado para ajudar outras pessoas a se informarem sobre saúde mental Imagem: Arquivo pessoal

Mariana Batista em depoimento a Nathália Geraldo

De Universa

05/11/2021 04h00

"Sou a primeira a falar de saúde mental quando estou em uma mesa de bar com pessoas de 20, 30 anos. Muitos têm vergonha de falar sobre isso, mas vivem fazendo meme e figurinha no WhatsApp —tem uma que é um cachorrinho tomando Rivotril de canudinho. Rivotril é um medicamento que pode fazer mal e vicia. Fui dependente dele por muito tempo. Então, faço isso para cutucar mesmo.

Há seis anos, tive uma primeira crise de pânico, entrando em um shopping para comprar um presente para o meu então namorado. Na hora, peguei um táxi e fui para casa. Pensamentos suicidas começaram a ser recorrentes e me via com baixa autoestima.

Em locais comuns e seguros, como churrascos em família, passava mal. Com 23 anos, tive o diagnóstico de depressão severa. Recentemente, também recebi o diagnóstico de agorafobia [transtorno ansioso em que a pessoa sente medo desproporcional dentro de lugares].

Na adolescência, tinha feito terapia. Mas, foi ouvindo um podcast em que um psiquiatra era convidado, que resolvi procurá-lo. Hoje sei que o transtorno mental que tenho tem fatores genéticos. Com 6 anos, já tinha depressão.

Passei por fase de automutilação, por um monte de remédio, e alguns me davam tontura, piriri, vômito. Não desisto de medicamento, porque quando 'acertamos' fico muito bem. É com ele que consigo entender muita coisa.

Ainda no tratamento com o psiquiatra, eu oscilava. Tinha dias em que eu estava eufórica demais, de um jeito não saudável. Ele me passou remédios e disse: "Mariana, acho que você também é bipolar".

Peguei os remédios, mas sumi do consultório dele. Entre a depressão e a euforia, era muito difícil entender quem eu era.

No começo de 2019, decidi ir estudar em Portugal. Lá, tive a percepção de que nasci para falar de saúde mental. Como jornalista, sempre escrevi textos em primeira pessoa sobre depressão. Me procuravam para dividir sobre isso. Foi quando criei uma conta no Instagram— a @ai.naoseiexplicar — para entrevistar pessoas que sofrem com os transtornos mentais e gerar um conteúdo afetivo para todos.

Entre recaídas e medo da morte, o autocuidado

mariana - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Na mesa do bar, a gente fala sobre saúde mental em tom de piada. Quase nunca é para ser solidário", comenta a jornalista
Imagem: Arquivo pessoal

Sempre fui muito independente para marcar minhas coisas, tomar meus remédios. Estive muitas vezes muito perto da morte e sabia que se não me cuidasse, isso poderia me matar em algum momento.

Em Portugal, a quarentena foi muito pesada. Morando com pessoas que não me conheciam, mas me ajudavam, tive muitas recaídas da depressão. Ficava três dias no quarto sem tomar banho. Tomava o remédio, e não fazia mais efeito.

Até que vi um episódio da série "Modern Love", no ano passado, em que a personagem da Anne Hathaway tem bipolaridade. Vi quatro vezes. "Isso é muito parecido comigo", eu pensava. E desabei de um jeito que nunca tinha desabado assistindo algo.

Voltei no começo deste ano para o Brasil e passei a me consultar com uma nova psicóloga. Retomei com meu psiquiatra. E comecei a tomar remédio para o transtorno bipolar. Foi uma das adaptações mais difíceis, fiquei uns três meses como um vegetal, mas agora está certo. O que tomo é um estabilizador de humor, e nunca mais tive as fases da mania e da depressão.

Fiz uma dissertação de mestrado para falar com quem tem depressão

Na mesa do bar, a gente fala disso em tom de piada. Quase nunca é para ser solidário. Parece que normalizamos o fato de que nossa geração tem transtornos... Então, apresentei como assunto para a minha dissertação de mestrado em Ciências da Comunicação, na Universidade do Porto. Meu orientador, que é psicólogo, topou.

Criamos um site, o Portal da Depressão, para mapear e atender três grupos: os que procuram "acho que tenho depressão" na internet, os que querem ajudar alguém que tenha a doença e os que escrevem "tenho depressão". O conteúdo do site vem de entrevistas que fiz com profissionais e com pessoas com depressão.

E, a partir de uma campanha para aumentar os acessos, em Portugal e no Brasil, consegui identificar a "pegada digital" de quem chega ao conteúdo: a maioria é mulher, jovem e de centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e das cidades maiores portuguesas. Uma curiosidade é que, em Portugal, também há um acesso maior entre os idosos.

Batalha solitária, mas com caminhos para o diálogo sensível

mariana batista - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Em Porto, Mariana realizou dissertação de mestrado sobre saúde mental com foco na ajuda a pessoas que têm depressão
Imagem: Arquivo pessoal

Vivo uma batalha muito solitária, mas, se escrevo sobre o que tenho, sempre recebo feedbacks bonitos. Isso mostra o quanto somos carentes de informação sobre saúde mental. Vou defender minha dissertação e quero partir para um doutorado, em que eu possa criar uma plataforma com chat de profissionais.

Quero me tornar uma jornalista especialista em saúde mental. E estou desenvolvendo com amigos um aplicativo que se chama "Conte comigo", com um guia para as pessoas usarem, marcarem horário de remédio, colocarem contatos de urgência.

Entendo que a 'cura' pode estar na fala, e a gente precisa dialogar sobre saúde mental de forma humana, saudável, sem sensacionalismo. É para quebrar o tabu e encontrar um lugar de apoio entre nós."

Mariana Batista, 30 anos, jornalista e mestranda em Comunicação

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado no título e na reportagem, o termo correto para o trabalho realizado no mestrado é dissertação.

Minha história