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Tania Khalill: 'Aos 40, mulheres são donas de si, mas se sentem perdidas'

Tania Khalill lançou o projeto Meu Tempo, sobre mulheres e longevidade  - Paschoal Rodriguez
Tania Khalill lançou o projeto Meu Tempo, sobre mulheres e longevidade Imagem: Paschoal Rodriguez

Laís Rissato

Colaboração para Universa

01/11/2021 04h00

Fazer 40 anos foi uma espécie de chamado para Tania Khalill. A atriz e criadora do projeto infantil "Grandes Pequeninos" - idealizado por ela e o marido, o músico Jair Oliveira - se sentia realizada profissionalmente e com a maternidade. Mas a mãe de Isabella, de 14 anos, e Laura de 10, começou uma busca por um novo sentido na vida: a ressignificação de sua própria história.

Na época, a atriz, hoje com 44 anos, passou a se questionar sobre com o que gastava seu tempo. "Olhei pra Isabella, na época com 10 anos, e vi o quanto ela estava enorme e o tempo voou", conta em entrevista a Universa. "Me vi, de repente, em um lugar de dor, percebi que só trabalhei, fiquei muito pouco com elas e logo mais elas estarão pelo mundo. Eu não me arrependo de nada, mesmo com muita culpa, porque esta é uma das emoções mais traiçoeiras. Mas talvez seja a hora de fazer essa licença-maternidade pra mim", conta atriz que mora desde 2017 nos Estados Unidos, com o marido e as filhas.

As reflexões pessoais foram apenas o ponto de partida para algo muito maior, que tomou forma e ganhou nome: o projeto Meu Tempo, sobre longevidade e o feminino em toda a sua diversidade. Com a pesquisadora da TV Globo Cinthia D'Auria, ela abriu espaço para ouvir mulheres com mais de 40 anos sobre suas conquistas, trajetórias, amores, dores e de que forma elas gostariam e poderiam se reinventar e se sentir representadas.

Foi quando nasceu, também, o workshop Palco da Vida, em que Tania trabalha maneiras de colocar em prática esse protagonismo na vida delas. "Como a mulher pode utilizar de todas as suas potências de um lugar menos corrido? A questão do tempo é muito louca, vivemos em uma sociedade ansiosa, temos que fazer e acontecer. Somos uma geração em que as mulheres estão se sentindo enfraquecidas. Elas são mais donas de si, mas se sentem perdidas. Esse feminino maduro exausto, sabe? Essa correria começa a não fazer sentido, a gente não tem o mesmo pique", reflete ela.

Tania mora nos EUA e investe na carreira internacional de atriz. Em 2019, fez uma participação especial na série Mrs. Fletcher, da HBO. -  Paschoal Rodriguez -  Paschoal Rodriguez
Tania mora nos EUA e investe na carreira internacional de atriz. Em 2019, fez uma participação especial na série Mrs. Fletcher, da HBO.
Imagem: Paschoal Rodriguez

Morando atualmente em Miami e sem planos de atuar quando chegou ao país, Tania acabou se rendendo aos estudos e audições em Nova York, onde morou no início. Mas não sem antes viver a síndrome da Impostora e até tentar se boicotar. "É difícil estar numa cidade onde tem o melhor do mundo na área que você mais ama. Tentei pensar que isso não era pra mim, mas as coisas acabaram se encontrando de alguma maneira".

E elas aconteceram melhor do que ela imaginava, rendendo uma participação especial, em 2019, na série Mrs. Fletcher, da HBO, em que aparece em uma cena de sexo com a protagonista, uma mulher divorciada na faixa dos 40, vivida pela atriz Kathryn Hahn. "A sexualidade também faz parte desse questionamento das mulheres mais maduras. Tenho amigas solteiras que falam que, hoje, um relacionamento com uma mulher, algo que elas nunca haviam pensado, é uma possibilidade".

UNIVERSA - A ideia do projeto Meu Tempo surge de uma necessidade de reinvenção das mulheres de 40+. O que essa idade representou pra você?
TANIA KHALILL - Foi como um chamado. O meio da vida tem esse olhar para o tempo e a existência, a meu ver, mais sábia. As mulheres se sentem mais donas de si, menos preocupadas com o olhar alheio, com muitas transformações emocionais, hormonais, mas com uma percepção mais aflorada da existência. Observamos que é um momento de reavaliação e ressignificação intensos.

Me dei conta quando olhei pra Isabella, na época com 10 anos, e vi o quanto ela estava enorme e o tempo voou. Me vi, de repente, em um lugar de dor, percebi que só trabalhei, fiquei muito pouco com elas e logo mais elas estarão pelo mundo.

Isso bateu como um sentimento de arrependimento ou culpa?

Após os 40 anos, Tania começou a repensar a relação com a idade e com tempo e lançou o projeto Meu Tempo, sobre longevidade e o feminino em toda a sua diversidade. - Paschoal Rodriguez - Paschoal Rodriguez
Após os 40 anos, Tania começou a repensar a relação com a idade e com tempo e lançou o projeto Meu Tempo, sobre longevidade e o feminino em toda a sua diversidade.
Imagem: Paschoal Rodriguez

Eu tenho e tive muita culpa, mas não me arrependo de nada do que fiz. Acho que a culpa é inerente ao fato de ser mãe, e há um trabalho constante para não se perder nisso, porque essa é uma das emoções mais traiçoeiras. Outras emoções, positivas ou negativas, trazem algum benefício, mas a culpa só serve para remoer algo que já passou.

Qual a principal queixa das mulheres após os 40? Algum relato te tocou mais?
Conheci uma mulher que teve câncer de mama, uma grande executiva, que me disse: "precisei de um chamado desse nível, pra ver o que estava acontecendo. Eu queria o que me foi ensinado, que era fazer mil coisas ao mesmo tempo, ser alguém, no sentido de ser para o outro, e não para mim. O câncer foi como um chamado da minha alma pra dizer, 'você não veio aqui pra isso né?'". Então, as mulheres se sentem mais donas de si, mas se sentem perdidas. Elas querem uma história em que se sintam inteiras. Minha vida é sobre o que? Não tem a resposta, mas o questionamento vem.

Algumas mulheres na faixa dos 40 já entram na menopausa, assunto importante e que influencia diretamente em vários aspectos na vida das mulheres. Já está preparada para quando ela chegar?
Não estou, e acho que precisamos falar mais sobre isso, inclusive, da pré-menopausa. A mulher, lá pelos 42, começa a ter sintomas, sentir um cansaço... sete ou oito anos antes já estamos passando por um transtorno hormonal gigante. Do que entendo das minhas pesquisas, se você se cuidar durante esse tempo, entender o que te favorece, a menopausa vai ser menos "dolorida". Será um tumulto, mas não um caos.

Em 2019, você participou de um episódio do seriado Mrs. Fletcher, fazendo uma cena de sexo com a protagonista, que redescobre a sexualidade após os 40. Acredita que as mulheres nesta faixa etária estão mais abertas a viver a sexualidade de outras formas?
Isso é algo individual, mas há uma liberdade de se poder pensar nisso, sem achar que não é possível. Ou que só é possível com homem. A atriz me falou que essa cena era muito importante pra personagem, porque era a primeira vez na vida que ela pensava em ter algo com uma mulher. E depois disso, muitas possibilidades afetivas ganham espaço. Tenho amigas solteiras que falam que, hoje, um relacionamento com uma mulher, algo que elas nunca haviam pensado, é uma possibilidade.

Sentiu ou ainda sente preconceito para conseguir trabalho por ser latina e ter sotaque?
Sim, tem muito preconceito e menos oportunidades. O americano não quer nem saber qual o seu background, o que é Globo, o que é Televisa (maior rede de televisão do México), nada, você só é alguma coisa se estudou e se formou aqui. Se o meu sotaque fosse inglês com espanhol, por exemplo, talvez tivesse mais identificação, mais oportunidades, já que há uma comunidade hispânica enorme. E no Brasil, por mais gigante que seja, não falamos espanhol, então ele é esquecido.

Você é mãe de duas meninas negras. De que forma tenta empoderá-las sobre a questão racial?
Tem uma frase em inglês muito bonita, que é: "stand up for others", ou seja, se levantar e se manifestar na defesa dos outros. Eu falo para elas se levantarem e, juntas, inspirarem outras meninas. A Isa tem o cabelo cacheado maravilhoso cacheado. Quando ela quer fazer escova, ela faz, mas quantos anos esses cabelos foram escovados? Agora, ela ama o cabelo dela, e esse é um código. Tento enaltecer tudo que elas têm de incrível, porque mundo sempre está dizendo não, e as oportunidades para as meninas negras são infinitamente menores.

Vivemos um momento em que tudo é debatido nas redes sociais, de política aos direitos da mulher, passando por assédio. Você já sofreu assédio em algum momento?
A minha experiência pessoal é muito mais no sentido de ver um diretor que faz uma brincadeirinha em cena com uma atriz. A mulher sendo alvo de uma gracinha, uma risadinha... se fosse homem, isso ia acontecer? Mas, não posso dizer que fui vítima. Nunca me senti invadida em nenhum momento.

Como você entende e lida com as questões feministas?
Acho que é um movimento universal, que se dá pela força da mulher, no sentido mais global possível. Mas não vejo necessidade, por exemplo, de bater na figura masculina para me sobressair. Vejo dessa forma no meu casamento, na minha família, cada um com suas potências, que se somam. Acredito que as possibilidades são ampliadas quando a gente junta forças do masculino e feminino, sem odiar ou rechaçar.

Tem vontade de voltar para o Brasil definitivamente?
A nossa vontade de voltar é sempre gigante, sinto que agora estou muito bem aqui, mas como boa canceriana, tem dia que quero voltar, em outros quero ficar. Amo meu país, mas eu, que nunca tive ambição de morar fora, estou me rendendo, principalmente por todo esse processo de autoconhecimento que desenvolvi.

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