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Minha história

'Descobri que sou intersexo, removi testículos e me casarei com uma mulher'

 Isabella (à esq) é primeira funcionária intersexo da CPTM e se casará nesse sábado com colega de trabalho - Divulgação/CPTM
Isabella (à esq) é primeira funcionária intersexo da CPTM e se casará nesse sábado com colega de trabalho Imagem: Divulgação/CPTM

Isabella Melo, em depoimento a Luiza Souto

De Universa

30/10/2021 04h00

"Tenho 37 anos e há quatro anos descobri que sou intersexo —tenho a genitália ambígua, e passei a me identificar como mulher, que é como me reconheço desde pequena.

Até saber quem eu realmente sou foi um processo árduo. Mas no final deu tudo certo. Me casarei neste sábado (30) com minha companheira e agora só falta fazer a minha cirurgia de redesignação sexual. Os testículos eu já retirei.

Nasci em São Paulo, mas cresci em Campo Limpo Paulista, no interior, e fui registrada com o nome masculino. Mas nunca me vi como um menino. Era um sentimento de não pertencimento, mas nunca falei sobre isso em casa.

Quando você não sabe o que é, não tem nem o que procurar ou como pedir ajuda, então você fica a ver navios.

E na adolescência meu corpo começou a se desenvolver de forma feminina. Isso foi muito complexo, porque eu queria aquilo, mas ao mesmo tempo passei por situações de assédio e bullying na escola.

Aos 13, sofri um estupro, e foi a primeira vez que tentei me matar. Uma professora notou que tinha algo de errado comigo, mas a vergonha era muita e não contei nada. Foi um período bem conturbado. Contei anos depois para os meus pais. Eles ficaram perplexos, mas não fizeram nada.

Tive depressão, e para ter um pouco de paz focava no meu mundinho, mergulhava na leitura para esquecer os problemas.

Carreira na CPTM

Meu pai era bombeiro, e minha mãe, dona de casa. Eles sempre falavam que os filhos deveriam terminar os estudos para somente depois trabalhar, mas fiz o contrário. Queria ser independente e aos 16 anos fiz uma prova para ser aluna aprendiz na CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e fiz o primeiro curso da América Latina de sistemas mecânicos de transportes sobre trilhos. Passei em 29º lugar entre 30 vagas.

Estudei por dois anos e pelo menos ali, naquele ambiente, não passei por situações de preconceito. Em 2000, um amigo morreu no acidente de Perus [na noite de 28 de julho, dois trens da CPTM colidiram, deixando nove mortos e 115 feridos], e pensei que poderia investir para evitar que aquele tipo de acidente ocorresse, então decidi ser maquinista e consegui uma vaga cinco anos depois. Hoje sou operadora de console de circulação e quero chegar à supervisão.

Isabella é primeira funcionária intersexo da CPTM e se casará nesse sábado com colega de trabalho - Divulgação/CPTM - Divulgação/CPTM
Isabella é primeira funcionária intersexo da CPTM e se casará nesse sábado com colega de trabalho
Imagem: Divulgação/CPTM

De cálculo renal a aparelho urinário feminino

Há quatro anos senti muitas dores na altura dos rins e achei que fosse cálculo renal. Mas, ao fazer ultrassom, as imagens mostraram um aparelho urinário feminino.

A partir desse momento passei por poucas e boas. Fui a vários especialistas, como endócrino, ginecologista e urologista, e ouvi muita coisa desumana. Um urologista disse, por exemplo, que era incrível ter passado mais de 30 anos sem procurar ajuda.

E uma endocrinologista confundiu intersexo com transgênero, e me dispensou sem que eu fizesse exames.

Quando um urologista me explicou que eu tinha a genitália ambígua, comecei a pesquisar sobre o tema e achei um grupo de pessoas intersexo no Facebook. Foi por meio dele que cheguei, há dois anos, ao Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Ali tudo ficou mais claro para mim. Fiz todos os exames necessários e entendi minha condição. Como eu já me identificava como menina desde criança, escolhi alterar a minha identidade, e comecei a tomar hormônio feminino. Precisei também fazer gonadectomia, que é a retirada dos testículos.

Quando olhei a Isabella pela primeira vez no espelho, falei 'sou eu de verdade'. Era um fim de semana e eu e minha companheira fomos a um restaurante celebrar.

Comentei com os meus pais sobre essas descobertas, mas eles não falaram nada. Minha família até hoje não respeita minha decisão, mesmo conversando. Meu pai até me chama pelo meu nome correto, mas minha mãe, não. Meu irmão, esses dias, me chamou pelo pronome masculino.

No trabalho foi bem mais sossegado, até porque lá tem um código de conduta e integridade. São processos e procedimentos sobre como os funcionários devem agir e como alguém pode ser punido por discriminação.

O que aconteceu é que eles ficaram em dúvida de como chamar, sobre o que fazer, e eu expliquei que o que mudou foi o nome, não a pessoa.

Isabella é primeira funcionária intersexo da CPTM e se casará nesse sábado com colega de trabalho - Divulgação/CPTM - Divulgação/CPTM
Isabella e Beatriz se conheceram no trabalho e estão juntas há 8 anos
Imagem: Divulgação/CPTM

Companheira namorou um homem e se casará com uma mulher

Sempre me interessei por mulheres. Mas tive muitos relacionamentos em que senti que elas ficavam comigo mais por curiosidade de saber o que eu era, já que tinha um corpo feminino mas me chamava Marlon.

Conheci a minha companheira, a Beatriz, no trabalho e estamos juntas há oito anos. Ela acompanhou todo esse processo. Foi um choque, porque nos conhecemos enquanto me identificava como homem, mas ela lidou bem com a situação.

Imaginei várias vezes que nosso relacionamento não ia durar. Ainda hoje fico meio incrédula com o casamento. A transformação pela qual eu passei parece que nem de longe foi a transformação pela qual a Bia passou. E, por mais que ela ainda dê umas escorregadas nos pronomes, sei que não é de propósito e que ela está se esforçando.

Neste sábado vamos nos casar no civil. Vamos fazer um churrasquinho numa chácara. Casamento mesmo, com direito a vestido de noiva, será no dia 30 de abril do ano que vem. E uma vai usar o sobrenome da outra.

O pedido foi meio interessante porque a gente simplesmente decidiu se casar. Nos olhamos e falamos: 'vamos casar?'.

Recentemente participei de uma websérie em que mais de 30 profissionais da empresa contam suas histórias, e hoje ele concorre ao prêmio de voto popular do Rio Web Fest 2021, considerado um dos principais festivais de webvídeos do mundo.

Foi tranquilo falar da minha trajetória porque tenho orgulho dela, e de quem eu sou. E entendo que não externalizar o que sentimos pode virar uma depressão."

Isabella Melo, 37 anos, é operadora de console de circulação da CPTM, em São Paulo (SP).

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