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Líder indígena combate desigualdade de gênero dentro das aldeias

Watatakalu Yawalapiti é finalista na categoria Equidade e Cidadania, do Prêmio Inspiradoras - Marcus Leoni / Folhapress, MONICA BERGAMO
Watatakalu Yawalapiti é finalista na categoria Equidade e Cidadania, do Prêmio Inspiradoras Imagem: Marcus Leoni / Folhapress, MONICA BERGAMO

Simone Costa

colaboração para Universa

27/10/2021 04h00

A luta por igualdade de direitos e oportunidades entre os gêneros extrapola limites culturais. Até mesmo as regras de comunidades muito tradicionais acabam sendo colocadas em xeque. É o que têm feito alguns grupos de mulheres indígenas. A ideia delas é se manter fiel à cultura de seus povos, sem se submeter ao poder masculino.

Nesse cenário, uma mulher se destaca: a artesã Watatakalu Yawalapiti, de 41 anos. Coordenadora-geral do Departamento de Mulheres da Associação Terra Indígena Xingu (Atix-Mulher), ela é uma das principais lideranças indígenas do país e concorre ao Prêmio Inspiradoras, na categoria Equidade e Cidadania.

Entre suas conquistas recentes, está a inauguração da Casa das Mulheres, no último dia 8 de outubro. Erguida no centro da aldeia do povo Kisêdje, no Parque Indígena do Xingu (MT), a construção é uma antiga demanda feminina na região. Os homens, afinal, sempre tiveram a deles.

Considerado sagrado, o espaço deles é tradicionalmente usado para fazer rituais e guardar objetos secretos. E é vedado à entrada das mulheres. Infringir a regra significa correr risco de sofrer punições. Há alguns anos, elas eram muito severas e incluíam até estupro coletivo.

Ainda há homens que cobram da gente, dizendo que inventamos coisas que não têm a ver com a cultura indígena. Mas todos os nossos projetos são voltados para preservar as tradições.
Watatakalu Yawalapiti

Em 2019, Watatakalu foi uma das organizadoras da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, realizada em Brasília. Marco importante na luta dos povos originários, o ato evidenciou o protagonismo das mulheres indígenas.

Mas a experiência política de Watatakalu não começou ali. Ela vem de um longo aprendizado, até porque descende de importantes líderes xinguanos. Naquele momento, à frente das mulheres do Xingu, ela despontou como uma liderança nacional.
Bruna Franchetto, linguista e antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Desde cedo, forjada para liderar

Filha mais velha de duas lideranças: o cacique Pirakumã, dos Yawalapiti, e a pajé Yamoni, dos Mehinaku, Watatakalu foi preparada desde criança para seguir o exemplo dos pais. Isso, no entanto, incluía algumas condições às quais ela não estava disposta a se dobrar.

Aos 15 anos, a garota foi obrigada a se casar, o que deflagrou sua indignação.

"Ali começava a luta pela liberdade, pelo direito de escolha e por um dia em que nossas filhas não precisassem passar por isso", afirma.

Nessa época, Watatakalu já falava cinco línguas indígenas e queria aprender melhor o português. Mas ir à escola era um direito reservado apenas aos homens da comunidade. O irmão dela, então, a matriculou em um colégio fora da aldeia, em Canarana (MT), cidade que fica na borda do Xingu e onde o rapaz morava.

"Minha mãe não gostou, mas cedeu porque acreditou que, se eu ficasse feliz com algo, aceitaria o casamento arranjando", diz Watatakalu.

Isso, no entanto, não aconteceu e, aos 18 anos, sem que o casamento se consumasse de fato, Watatakalu foi devolvida pelo marido à família. Quatro anos mais tarde, a garota decidiu adotar uma criança rejeitada pela comunidade por ser filha de mãe solteira. "Eu queria mostrar que poderia ter um filho sem me casar", explica.

Entre indígenas, a adoção não é algo natural e bem visto. Por isso, a família resistiu, mas os pais de Watatakalu até acabaram assumindo a criação do menino. A postura, tomada por um casal de líderes tão influentes, fez mudar os costumes no Xingu. "Eu não fiz isso sozinha, mas contribui um pouquinho para que outros bebês fossem acolhidos", afirma.

Pouco depois, Watatakalu casou-se novamente para satisfazer a vontade da família, mas a relação não durou. Ainda grávida, ela se separou do segundo marido. Há 16 anos, casou-se novamente, com Ianukulá Kaiabi Suiá, seu atual marido e presidente da Atix, com quem tem dois filhos. "Esse é o casamento que eu escolhi", afirma.

Em busca de autonomia para as mulheres indígenas

Por quebrar regras de sua comunidade, Watatakalu enfrentou muitos julgamentos. "Eu não me importava com o que falavam. E nunca aceitei que fizessem comigo algo que fosse contra a minha vontade", garante.

Aos poucos, passou a acompanhar as reuniões que aconteciam nas aldeias. Em um episódio, conta que uma antropóloga foi autorizada pelos homens a realizar um estudo sobre os corpos das mulheres Yawalapiti. Em troca, propôs dar sabonetes a elas, que não aceitaram a oferta. "Os homens da comunidade permitiam aquilo que era importante para eles. Só que não podiam decidir por nós! Precisávamos dizer o que queríamos", afirma.

Watatakalu começou, então, a reivindicar, junto com outras mulheres, que elas pudessem tomar as próprias decisões. Até que em 2013, Ana Terra, irmã de Watatakalu, teve a ideia de erguer a Casa das Mulheres.

Dois anos depois, elas começaram a construção numa aldeia dos Yawalapiti com o desejo de que fosse uma espécie de minimuseu de preservação da cultura, além de ponto de encontro.

A casa contou com a aprovação do cacique Pirakumã, pai de Watatakalu. E, aos poucos, outros homens passaram a apoiar o projeto, incluindo outro importante líder, o também cacique Aritana, tio da artesã.

As mulheres, então, limparam o terreno, buscaram madeiras na floresta e começaram a obra, mas o trabalho teve de ser interrompido por causa da morte de Pirakumã.

Depois de um período de luto, as mulheres chegaram a retomar a construção, mas logo os planos foram por água abaixo. O novo cacique, que também é irmão de Watatakalu, era contra a casa. Além de paralisar o projeto, expulsou a mãe e a irmã da aldeia. Junto delas, Watatakalu também se mudou.

"Ele dizia que as pessoas tinham mais respeito pelas duas do que por ele e que isso era inadmissível!", lembra.

O episódio doloroso para Watatakalu não foi motivo para que ela desistisse de fazer as mulheres indígenas serem ouvidas. Em 2019, depois de 24 anos da existência da Associação Terra Indígena Xingu (Atix), ela conseguiu articular a criação do Departamento de Mulheres ligado à instituição. A Atix-Mulher nasceu com autonomia e estatuto próprio. Só mulheres votaram para escolher a coordenadora-geral.

À frente do departamento, ela ouviu o que as indígenas de cada etnia esperavam. Assim, conseguiu ampliar parcerias com outras instituições, como a embaixada da Noruega no Brasil, para apoiar a produção de artigos como pimenta, sal de aguapé, farinha e polvilho. "Também estamos investindo na formação de outras mulheres para prepará-las para assumir o lugar conquistado dentro da Atix", afirma.

"Watatakalu é reconhecida como liderança pelas mulheres de outras etnias porque veem que ela tem experiência de articulação e conhece muita gente. Isso tornou possível o desenvolvimento dos projetos", explica Amaire Kaiabi, coordenadora de campo da Atix-Mulher.

"Antes, as mulheres não tinham o direito de falar sobre o que as afetava. Watatakalu nos inspira a estar nesse movimento de mulheres, que mostrou aos homens que nós estamos nessa luta para somar, para garantir nossos direitos e território", afirma.

A mobilização da Atix-Mulher foi importante ainda durante a pandemia. Para a Covid-19, Watatakalu perdeu membros da família, como a mãe e o tio Aritana. "Nós, da Atix-Mulher, nos encarregamos da arrecadação de fundos para comprar cestas básicas para nosso povo", conta.

Passado esse período difícil para os indígenas do Xingu, Watatakalu e sua irmã Ana Terra voltaram a trabalhar para concretizar a Casa das Mulheres. Além de um espaço de convivência, o local também está sendo utilizado pelas mulheres da etnia Kisêdje para a produção de óleo de pequi e castanha. "Antes elas trabalhavam sob uma tenda de lona", conta Watatakalu. Outras casas estão nos planos. "Eu fico muito emocionada! É lindo ver nascer esse espaço, agora com o apoio de mulheres e homens", afirma.

Sobre o Prêmio Inspiradoras

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. São 21 finalistas, divididas em sete categorias. Além de Equidade e Cidadania, tem também: Esporte e Cultura, Inovação em Câncer de Mama, Informação para Vida, Conscientização e Acolhimento, Acesso à Justiça, e Representantes Avon.

Para escolher suas favoritas, basta clicar na votação a seguir. Está difícil se decidir? Não tem problema: você pode votar quantas vezes quiser. Também vale fazer campanha, enviando este e os outros conteúdos da premiação para quem você quiser. Para saber mais detalhes sobre a votação, é só consultar o Regulamento.

No mês que vem, durante dos 21 dias de enfrentamento à violência, uma série de lives com as finalistas de todas as categorias vai debater este e outros temas relacionados ao universo feminino. Dá para acompanhar as novidades no portal Universa e em nossas redes sociais.

A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.