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'Peitos caídos são lindos': como elas mudaram a visão sobre o próprio corpo

Bianca Barroca - Reprodução / Instagram
Bianca Barroca Imagem: Reprodução / Instagram

Ana Bardella

De Universa

22/10/2021 04h00

"Peitos caídos são lindos, mas vocês não estão preparados para essa conversa": foi com essa frase, acompanhada de uma foto usando um vestido decotado, que a influenciadora e ativista Bianca Barroca, 27 anos, viralizou no Instagram. Seu post original teve 10 mil curtidas e 150 comentários, mas foi replicado por diversas outras páginas que falam sobre aceitação na rede social.

Os números mostram que a provocação de Bianca tem um fundo de verdade: dados mais recentes divulgados pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica apontam que, em 2019, foram realizadas mais de 211 mil operações para aumento de seio no país —e uma das motivações do procedimento é deixar a mama menos flácida.

Além disso, se buscarmos pela hashtag #SaggyBoobs (que pode ser traduzida como "seios flácidos") no Instagram, encontramos mais de 14,2 mil posts de mulheres incentivando a aceitação do corpo ao redor do mundo.

Já uma busca pelo que seriam as versões brasileiras da hashtag, como #PeitoCaído ou #SeiosFlácidos, mostra uma quantidade bem menor de posts —e a maioria deles é de cirurgiões plásticos ou clínicas, oferecendo uma solução para o que muitos consideram ser um defeito estético.

Como resultado dessa pressão, muitas mulheres deixam de usar roupas de que gostam ou se apegam ao uso de sutiãs com bojo, arames e outros artifícios que reforçam a sustentação dos seios. É o caso de Bianca, Taynah e Dalila: elas já se incomodaram muito com essa característica do corpo, mas hoje enxergam beleza nela.

'Sutiãs com bojo se tornaram extremamente desconfortáveis para mim'

Bianca, autora do post que levantou a discussão, relembra que sempre teve seios grandes. "Com o tempo e a gravidade, eles foram caindo, algo que é muito natural. Mas, antigamente, não conseguia enxergar isso com tranquilidade e tinha muita vergonha. Usava sutiãs que me apertavam e cheguei a cogitar uma redução de mamas", conta.

Bianca Barroca já pensou em reduzir as mamas, mas acabou desistindo - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
Bianca Barroca já pensou em reduzir as mamas, mas acabou desistindo
Imagem: Reprodução / Instagram

Ela desistiu depois de se consultar com o profissional que realizaria a cirurgia. "Eu estava com 18 anos. Na época, estava pesando 80 kg e tenho 1,70 m de altura. Durante a avaliação, ele disse que eu precisaria perder 15 kg antes de me submeter ao procedimento. Aquilo não fez sentido para mim, eu estava saudável e não via motivos para me forçar a emagrecer. Não senti confiança na recomendação e acabei desistindo", relembra.

O passar do tempo foi esclarecedor para a influencer: ela percebeu que suas motivações para buscar a redução de mama eram externas. "Eu não estava insatisfeita com meu corpo, mas achava que os outros poderiam estar. No final, entendi que era algo muito complexo e invasivo para me submeter em razão de terceiros", avalia.

De lá para cá, Bianca passou por mais alterações no corpo. Ela ganhou peso e hoje se define como uma mulher gorda. "Como toda mulher, já tive momentos de desconforto em usar biquíni, mostrar a barriga. Mas a partir do momento em que me tornei gorda, vi que esses atos têm um significado maior, de reafirmar perante a sociedade que a minha imagem é válida", opina.

Com a militância e o autoconhecimento, ela abriu mão do bojo, que hoje considera desconfortável, e usa as redes para discutir sobre imagem e padrões de beleza.

'A maternidade deu um empurrãozinho para que eu me aceitasse'

Taynah Silva tem 32 anos, é designer e mora na cidade de Setúbal, em Portugal. Ela, que tem três filhos, conta que seus seios ficaram mais flácidos à medida que amamentou os bebês. "No entanto, mesmo antes de ser mãe, eles já eram grandes, por isso estou sempre de sutiã. Me sinto desprotegida sem ele, então não tiro nem na hora de dormir", conta.

Taynah Silva gosta do corpo, mas não se sente a vontade de sair sem sutiã - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Taynah Silva gosta do corpo, mas não se sente a vontade de sair sem sutiã
Imagem: Acervo pessoal

Uma das suas dificuldades atualmente são as roupas: ela já deixou de comprar diversas peças por achar que o caimento não seria adequado. Apesar da insegurança, ela considera que a relação com o próprio corpo mudou com o passar dos anos. "Nunca pensei, por exemplo, em me submeter a um procedimento estético. Gosto dos meus seios e vivo bem com eles, só não estou totalmente imune à pressão que a sociedade faz", reflete.

Ao mesmo tempo em que a maternidade foi um fator que desencadeou as mudanças, Taynah também considera que se tornou menos crítica depois da experiência. "Meu desejo é que a nova geração não reproduza os preconceitos que vemos por aí e se aceite como é. Isso me fez ser menos dura com relação à minha imagem", pondera.

'Preferia ficar de sutiã até durante as relações sexuais'

Dalila Belo tem 26 anos, é psicóloga e mora em Jundiaí (SP). Ela se orgulha da relação de afeto que tem construído com o espelho. "Há dois anos, eu usava tops apertados e biquínis com as alças muito esticadas, a fim de deixar meus seios com um formato que eles não tinham. Era um sofrimento até na hora de dormir, já que sempre ouvi dizer que usar sutiã à noite fazia com que os seios ficassem menos caídos", conta.

Dalila levou anos até conseguir enxergar beleza no próprio corpo - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Dalila levou anos até conseguir enxergar beleza no próprio corpo
Imagem: Acervo pessoal

A questão era tão impactante na sua autoestima que chegava a afetar a vida sexual. "Passei a vida me escondendo. Pensava que se alguém visse o formato real dos meus seios não me acharia atraente, ia querer me trocar por outra. Foi libertador deixar esses pensamentos para trás", afirma. Se antes o seu maior sonho era colocar silicone, hoje ela não tem mais essa vontade.

"Foi um processo de autoconhecimento e conseguir falar abertamente sobre isso é muito gratificante. Percebo que se levarmos a vida de acordo com o que as outras pessoas querem, acabamos nos esquecendo da nossa própria essência. Hoje entendo que ter o formato do peito caído não é algo errado e nem feio", conclui.

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