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Ciberatleta cria associação de apoio às mulheres nos jogos eletrônicos

Danielle Andrade, a Cherna, é finalista do Prêmio Inspiradoras na categoria Esporte e Cultura - Júlia Rodrigues/UOL
Danielle Andrade, a Cherna, é finalista do Prêmio Inspiradoras na categoria Esporte e Cultura Imagem: Júlia Rodrigues/UOL

Simone Costa

colaboração para Universa

22/10/2021 04h00

O Prêmio eSports Brasil é considerado a maior premiação de jogos eletrônicos da América Latina. Acontece todo ano desde 2017 e ser indicado para concorrer a uma das categorias é motivo de comemoração para os ciberatletas. Com a jogadora profissional Danielle Andrade, de 21 anos, não foi diferente.

Conhecida como Cherna no mundo dos games, ela foi a única mulher indicada como melhor atleta de Rainbow Six: Siege, um jogo de tiro competitivo, em 2018. Mas logo que o nome dela foi anunciado, em novembro daquele ano, Cherna passou a sofrer uma série de ataques virtuais.

Apesar do baque, Cherna conseguiu transformar o trauma em algo positivo, com impacto para outras meninas como ela. Criou recentemente a Associação Feminina de Gaming Brasil (AFGB), que tem a finalidade de apoiar outras mulheres gamers e não tem fins lucrativos. Cherna é uma das finalistas do Prêmio Inspiradoras na categoria Esporte e Cultura.

Recebi inúmeras mensagens de ódio, racistas, homofóbicas e machistas. Eles diziam que eu estava tirando o lugar de um jogador de verdade, que minha indicação era apenas para preencher cota. Por um mês, eu não quis falar com ninguém, deletei as redes sociais e fiquei muito abalada
Cherna

Para formar a associação, reuniu sete voluntárias de várias expertises, como advogada, nutricionista, psicóloga, fisioterapeuta e psiquiatra. A ideia é dar suporte para mulheres jogadoras que passam por situações como a que ela viveu. E vai além. "Para quem passa muito tempo no computador, é importante os cuidados com a alimentação e com a postura. Queremos oferecer esse suporte também. E eu quero auxiliar, trazendo informações sobre como ser uma jogadora profissional", diz.

A associação ainda está saindo do papel, mas a criação já é comemorada por outras mulheres no universo de gamers.

É uma felicidade ver como a Cherna conseguiu transformar algo negativo em uma iniciativa tão positiva. Os ataques que ela sofreu foram muito severos. Com a associação, acredito que ela possa ajudar as mulheres a realmente se profissionalizar nesse cenário que ainda não é tão organizado e é bastante hostil a elas
Branca Galdino, da N9NE, empresa de relações públicas especializada em games e esporte eletrônico

Meninas gamers existem, sim

Os jogos de futebol em um PlayStation foram os primeiros que chamaram a atenção de Cherna, aos 12 anos. Dois anos depois, ganhou do pai um computador e um novo mundo se abriu. "Eu sempre fui fascinada pelo universo das armas e de estratégias de guerra. Por isso, gosto tanto de jogos de tiro", conta.

Durante um bom tempo, ela não dizia para os demais jogadores que conhecia online que era uma garota. Só em 2017 isso mudou. Naquele ano, ela conheceu virtualmente um jogador de nickname Retalha. Ele ficou impressionado com a sua habilidade. Retalha, é Otávio Ceschi, jornalista e atualmente narrador oficial de Rainbow Six: Siege no Brasil. Foi ele quem incentivou Cherna a criar um novo nickname e a jogar profissionalmente. "Eu gostava muito de um jogo de zumbis chamado DayZ. Nele há uma cidade chamada Chernarus. Me inspirei nesse nome para criar Cherna", conta.

Não há, no Brasil, uma federação que reúna todos os jogadores profissionais, o que dificulta saber o número de homens e mulheres que são ciberatletas. Mas a última Pesquisa Game Brasil (PGB), divulgada em abril deste ano, mostrou que 51,5% do público de jogos eletrônicos no país é formado por mulheres.

Ainda assim, elas não são bem acolhidas nas competições. "Equalizar essa questão no mundo profissional ainda é difícil. Os jogadores profissionais querem treinar com alguém competitivo. E eles não consideram as mulheres competitivas", diz Branca Galdino. "Há pouco tempo vazaram prints de conversas de jogadores de Rainbow Six dizendo que não queriam treinar com meninas. Esse é ainda um ambiente muito discriminatório", diz ela.

O lado obscuro dos jogos eletrônicos

Quando Cherna assumiu a identidade feminina nas disputas, sentiu a força dos comentários machistas dos jogadores. "Chegavam mensagens do tipo: 'vai lavar louça', 'vai brincar de boneca', 'jogo de tiro é para homens'".

Apesar disso, em pouco tempo ela despontou como uma jogadora habilidosa. Em 2018, a indicação ao Prêmio eSports Brasil veio por causa de seu desempenho no primeiro circuito feminino de Rainbow Six, que aconteceu no Rio de Janeiro. "Minha equipe não ganhou, ficamos em segundo lugar. Mas foi uma alegria, pela primeira vez, estar com um time feminino numa disputa", conta.

Os preparativos para essa disputa, no entanto, também deixaram lembranças ruins. Em janeiro de 2021, Cherna tomou coragem de revelar os assédios sexuais que sofreu do treinador da equipe. Na internet, divulgou prints de conversas e vídeos. E recebeu mensagens de outras jogadoras contando que também viveram a mesma situação com o treinador.

O preparo dos ciberatletas acontece de forma remota. Os treinadores e os jogadores só se encontram quando os grupos se concentram antes de alguma competição, como a do circuito feminino Rainbow Six da qual Cherna participou em 2018. Durante a preparação para essa competição, ela diz que o treinador a assediou virtualmente e também no período de duas semanas em que a equipe esteve junta, em São Paulo. Na casa, ela e mais uma garota se hospedaram com a equipe masculina. "Esse assédio foi físico e verbal. Ele dizia que eu era lésbica porque não o havia conhecido antes", revela.

Uma nova Cherna

Depois dos episódios de assédio e das mensagens de ódio que recebeu ao ser indicada ao prêmio, Cherna diz que amadureceu. "Posso dizer que, a partir de 2019, surgiu a Cherna que as pessoas almejavam. Eu vejo o carinho das pessoas por mim e acho que é porque eu não brigo, eu tento dialogar com quem vem me agredir", afirma.

Cherna chegou a processar três pessoas que a ameaçaram de agressão, caso ela comparecesse na cerimônia do Prêmio eSports Brasil. E para sua surpresa, eram crianças. "Eu conversei com os pais, que se comprometeram a conversar com os filhos. E por serem menores, decidi não continuar com o processo", diz.

Atualmente, Cherna divide o tempo entre os jogos e o trabalho como assistente de enfermagem numa clínica de terapia ocupacional. Até às 15 horas, é lá que ela dá expediente. A partir das 17 horas, ela se dedica aos treinamentos, de segunda a quinta-feira. "Isso me fez conhecer outras pessoas, outros ares e melhorou minha disposição, além do lado psicológico. Também me ajudou a manter o prazer de jogar", afirma.

Para o futuro próximo, o principal objetivo é colocar a associação para atuar. "Recebi ataques também em relação à associação, gente dizendo que é só marketing. Se fosse isso, eu ia em busca de patrocínio ou publicidade. Eu quero mesmo é ajudar", finaliza.

Sobre o Prêmio Inspiradoras

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. São 21 finalistas, divididas em sete categorias. Além de Esporte e Cultura, tem também: Inovação em Câncer de Mama, Informação para vida, Conscientização e Acolhimento, Acesso à Justiça, Equidade e Cidadania e Representantes Avon.

Para escolher suas favoritas, basta clicar na votação a seguir. Está difícil se decidir? Não tem problema: você pode votar quantas vezes quiser. Também vale fazer campanha, enviando este e os outros conteúdos da premiação para quem você quiser. Para saber mais detalhes sobre a votação, é só consultar o Regulamento.

No mês que vem, durante dos 21 dias de enfrentamento à violência, uma série de lives com as finalistas de todas as categorias vai debater este e outros temas relacionados ao universo feminino. Dá para acompanhar as novidades no portal Universa e em nossas redes sociais.

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A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.