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Rio de Janeiro: 75% dos feminicídios em 2020 ocorreram dentro de casa

Leandro Alves Siqueira foi preso em flagrante em setembro de 2020, suspeito de ter atirado na mulher, Priscilla Freitas, dentro de casa - Getty Images
Leandro Alves Siqueira foi preso em flagrante em setembro de 2020, suspeito de ter atirado na mulher, Priscilla Freitas, dentro de casa Imagem: Getty Images

Camila Brandalise

De Universa

18/10/2021 11h17

"Se foi tão nova e cheia de vida", disse Veronica da Veiga sobre a sobrinha, Priscilla da Veiga Freitas, de 26 anos, após encontrá-la morta em casa, em setembro de 2020. O marido, o cabo da Polícia Militar Leandro Alves Siqueira, foi preso como principal suspeito de ter cometido o crime.

O nome de Priscilla se junta ao de outras 77 mulheres mortas pela condição de gênero no ano passado no Rio de Janeiro, Em média, houve uma vítima de feminicídio a cada cinco dias no estado. Em 75% dos casos, foram assassinadas dentro da própria casa e, em 78% das vezes, o autor do crime era o companheiro ou ex. Em 20 dos crimes, os filhos presenciaram a violência.

Os dados fazem parte do Dossiê Mulher 2021, do ISP (Instituto de Segurança Pública), um mapeamento da violência doméstica cometida no estado no último ano.

Menos de 10% das vítimas tinham medidas protetivas contra os agressores. Mais da metade delas tinha sofrido algum tipo de violência, mas não registrou ocorrência. A maioria tinha entre 30 e 59 anos (58%) e era negra (55%). Segundo os autores, os crimes foram cometidos após uma briga, em 27 casos e, em outros 20, após o término do relacionamento. "Mostra como o machismo está enraizado na sociedade. Se fosse o homem terminando, ele teria sido morto? Com certeza não. É como se a mulher não tivesse direito de terminar relacionamento", explicou a presidente do ISP, Marcela Ortiz.

11 vítimas de violência doméstica por hora

O levantamento traz mais números alarmantes: no ano passado, 98 mil mulheres registraram ocorrência por violência doméstica em território fluminense, o que significa que 11 pessoas foram agredidas a cada hora.

Assim como nos casos de feminicídio, a maioria das vítimas tinha entre 30 e 59 anos.

No evento do lançamento da pesquisa, Ortiz ressaltou que os registros de violência doméstica e de feminicídio caíram durante a pandemia. "Apesar de haver a possibilidade de subnotificação por causa da pandemia, da impossibilidade de a vítima sair da própria residência, pela presença e controle do agressor, podemos destacar o aumento das medidas que dão mais proteção às vítimas, assim como a implementação de programas com o mesmo intuito, como a Patrulha Maria da Penha", afirmou.

"A violência contra a mulher é uma escada e dá sinais. É importante que no primeiro sinal que o relacionamento se mostra abusivo, é importante que a mulher denuncie para não chegar no último degrau, que culmina no fim da vida dela", disse Ortiz.

Sete meninas com até 14 anos foram estupradas por dia no estado

Em relação à violência sexual, houve 11 registros de estupro por dia, uma queda de cerca de 15% em relação a 2019. Mas, em contrapartida, houve aumento dos casos de estupro de vulnerável, quando a vítima tem menos de 14 anos ou não tem condição de manifestar resistência.

Esse tipo de crime teve mais do que o dobro dos registros na comparação com o ano anterior. Foram sete meninas de até 14 anos estupradas por dia.

Como procurar ajuda

Se você está sofrendo violência doméstica ou conhece alguém que esteja passando por isso, pode ligar para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. O contato também pode ser feito pelo WhatsApp no número (61) 99656-5008.

Para denunciar, procure a delegacia próxima de sua casa — preferencialmente, da mulher — ou então faça o boletim de ocorrência eletrônico, pela internet. O pedido de proteção é enviado imediatamente ao juiz, que tem até 48 horas para atender a solicitação. Em alguns casos, a medida é concedida pela própria autoridade policial.

Caso tenha receio de ir a uma delegacia, é possível procurar o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) da sua cidade. Em alguns deles, há núcleos específicos para identificar que tipo de ajuda a mulher agredida pelo marido precisa, psicológica ou financeira, por exemplo, e dar o encaminhamento necessário.

Também é possível realizar denúncias de violência contra a mulher pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil ou no site do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.