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Educadora social cria roda de conversas para acolher mães

Bruna Rafaella Santos é finalista do Prêmio Inspiradoras na categoria Representantes Avon  - Júlia Rodrigues
Bruna Rafaella Santos é finalista do Prêmio Inspiradoras na categoria Representantes Avon Imagem: Júlia Rodrigues

Patrícia Junqueira

Colaboração para Universa

11/10/2021 04h00

A educadora social Bruna Rafaella Santos, 37, não para. Está sempre envolvida em algum projeto novo. São cursos, eventos, estudos e o trabalho social, praticamente em tempo integral. "Eu não sei como alguém pode ser pouco", responde ao marido, quando ele pergunta como ela pode "ser tanta coisa". A pernambucana também é finalista na categoria Representantes Avon do Prêmio Inspiradoras 2021.

Formada em História, não foi na sala de aula que encontrou a realização profissional. Diz que gosta mesmo de estar com as pessoas, com os jovens, na rua.

O contato comunitário e a vivência do dia a dia me inspiram a ajudar as pessoas pensarem que pode ser diferente, que elas podem transformar suas vidas.
Bruna Rafaella Santos

A educadora trabalha na Casa Herbert de Souza, na região metropolitana de Recife. A Ong que leva o nome de Betinho, o sociólogo conhecido pela atuação contra a fome, atende 82 crianças. Todas obrigatoriamente precisam estar matriculadas em uma escola para participar das oficinas e das rodas de diálogos sobre a vivência na comunidade.

A instituição começou sua atividade oferecendo sopa à comunidade periférica de Tururu, no município de Paulista (PE). Com o tempo, ampliou a ação com atividades pedagógicas para crianças e adolescentes no contraturno escolar, com objetivo de oferecer uma formação cidadã.

No dia a dia na Ong, Bruna percebeu que poderia ampliar a atuação da instituição para atender também as mães dos educandos.

Quem cuida das mães?

Quando chegou à instituição, há cinco anos, Bruna percebeu que o suporte que poderia dar às crianças poderia ir além.

As crianças trazem muito o que acontece nas casas delas. Não necessariamente verbalizando, mas nas entrelinhas a gente consegue compreender a falta de comida, a violência, o pai que falou ou fez algo que acabam reproduzindo.
Bruna Rafaella Santos

Identificou a necessidade de cuidar também das mães dos educandos oferecendo atividades exclusivas, através do diálogo e do acolhimento. E, então, propôs encontros mensais em que as mulheres se sentam em roda e conversam sobre temas da realidade delas. "O foco é o fortalecimento do vínculo, porque as realidades são tão doloridas, ainda mais agora durante a pandemia".

Nessas ocasiões, os temas são colocados em imagens e músicas de forma sutil e lúdica. "A gente não traz de cara o machismo e o patriarcado, por exemplo. A gente traz elementos que estão no dia a dia para que ela consiga entender o que passa como violência doméstica, para que saiba que tem uma rede de suporte e que a gente é esse apoio, que ela não está só".

E é aí que entra a importância do círculo, uma prática tradicional da educação social. "Sentar-se em roda traz a aproximação, uma mulher vê a outra e vê que sua dor não é só sua, é da outra também". No último encontro, o tema foi sororidade. "A gente trabalhou a questão de ser companheira uma da outra, sem disputar sobre quem é a melhor mãe, por exemplo".

Bruna é sempre muito acolhedora. É uma pessoa com quem podemos contar, uma amiga, companheira. Desabafamos, recebemos suporte.
Rosiane Oliveira, participante assídua dos encontros

Os temas abordados com as mães sempre ecoam o que é trabalhado com os filhos, para que a família esteja a par e pronta para o diálogo. Como exemplo, Bruna fala da questão sobre sexualidade e gênero, que tem aparecido nas conversas. "A gente não pode falar de assuntos como pessoas trans com os educandos sem falar com as mães", explica. Também entram questões do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), como garantia de direitos, conscientização sobre abuso e exploração sexual, trabalho infantil e a importância da educação.

Apesar de 65 mães serem cadastradas na ONG, não são muitas as que frequentam os encontros. "A gente faz com quem vem", diz Bruna, calculando que 10 mulheres são as mais assíduas.

Nos intervalos entre as reuniões, a educadora mantém contato constante pelo WhatsApp com as mães. E se alguma delas sai sem explicação do grupo do aplicativo, ela vai atrás. "Eu sou curiosa, pergunto por que saiu do grupo", conta aos risos.

Ela espera que o projeto ainda cause impactos concretos nessas mulheres, que elas consigam construir um novo caminho. E por que ela acha que isso ainda não aconteceu? "Talvez elas não tenham tido tempo suficiente para entender que esse espaço é delas também, que ela pode transformar a própria vida, a própria realidade. Não é porque ela é Maria que ela precisa ser igual às Marias", diz, referindo-se à reprodução dos papéis e padrões que são colocados às mulheres na nossa sociedade.

Para o futuro, sonha com um espaço que seja só das mães, ampliando a ação da ONG, oferecendo formações para que elas se desenvolvam. "Eu quero um mundo melhor, né. Eu sou dessas", ri, relembrando de quando disseram para ela na juventude que outro mundo é possível. "Eu quero esse outro mundo".

"Eu sou uma composição"

Bruna não costuma medir o que diz. "Expresso os sentimentos de acordo com o que eu estou sentindo mesmo. Tenho uma amiga que fala 'filtra'. Eu tento, mas a cara não deixa", conta.

Nascida e crescida em Olinda, a educadora foi criada apenas pela mãe e a avó com a influência frequente dos tios. Presenciou o que chama da "violência sutil", naturalizada no dia a dia das mulheres. "Aquela ideia de que é normal o dinheiro da casa ser administrado pelo homem porque o homem é o dono da casa. E para desconstruir isso a gente fica feito doida", diz.

A pernambucana pondera que é preciso encarar que a família pode ser tanto o espaço do acolhimento, como um espaço de violência. "A gente acha que a violência está na vizinha, que não está dentro de casa. Mas está tudo em casa".

Na adolescência, entrou em um grupo de jovens da igreja católica para encontrar as amigas e ter o que fazer aos domingos, "um dia meio chato". A vivência na igreja e o contexto familiar alimentaram na jovem o desejo de ajudar a comunidade e se envolver em projetos sociais, moldando sua maneira de ver o papel da mulher. "Eu não sou só eu, sou uma composição. Eu sou o registro do que eu aprendi com cada uma que cruzou meu caminho", diz.

Sobre o Prêmio Inspiradoras

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. São 21 finalistas, divididas em sete categorias. Além de Representantes Avon, tem também: Inovação em Câncer de Mama, Informação para vida, Conscientização e Acolhimento, Acesso à Justiça, Equidade e Cidadania e Esporte e Cultura.

Para escolher suas favoritas, basta clicar na votação a seguir. Está difícil se decidir? Não tem problema: você pode votar quantas vezes quiser. Também vale fazer campanha, enviando este e os outros conteúdos da premiação para quem você quiser. Para saber mais detalhes sobre a votação, é só consultar o Regulamento.

No mês que vem, durante dos 21 dias de enfrentamento à violência, uma série de lives com as finalistas de todas as categorias vai debater este e outros temas relacionados ao universo feminino. Dá para acompanhar as novidades no portal Universa e em nossas redes sociais.

A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.