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Voz das ruas: elas celebram a escrita feminina em lambe-lambes nas cidades

Lambe-lambe com texto de Raissa Gio feito pela Papel Mulher - Reprodução
Lambe-lambe com texto de Raissa Gio feito pela Papel Mulher Imagem: Reprodução

Julyana Mattos em depoimento a Gabryella Garcia

Colaboração para o UOL

03/10/2021 04h00

"A Papel Mulher, que tem como objetivo divulgar a escrita de mulheres através da colagem de lambe-lambe e de cartazes colados em ruas públicas, surgiu em fevereiro deste ano a partir de uma ideia que a Alexandra Maia, escritora e poetisa cearense, teve e me chamou. Sou carioca da Baixada Fluminense, e a Jessyka Ribeiro, uma outra amiga, é paraibana.

A partir do abraço da ideia por muitas mulheres, a coletiva tomou proporções inimagináveis e hoje é formada por mais de 150 mulheres, somos Amandas, Anas, Isabelas, Kellys, Renas, Wilmas, Cecílias, Lanas, Kamilas, Manuelas, Rafaelas, Vanessas, Alices, Sams, Mônicas, Anas, Beatrizes... Queremos ser mais e lamber os muros de cada vez mais cidades.

Somos mulheres que gostam de literatura e nos conhecemos em um rolê literário, nós estávamos cansadas da literatura ficar presa no mundo acadêmico e não ser acessível para mulheres. Queríamos mostrar o que mulheres escrevem e tirar do lugar acadêmico, tornar mais acessível e trazer outras pessoas para esse lugar do que é literário.

Então, a coletiva nasce da ideia de que existe uma disputa de narrativa, em especial no campo literário, que reconhece certos discursos, e outros não. Afinal o que é literatura, quem pode produzir literatura? As mulheres escrevem? São publicadas? Sobre o que escrevem?

A Papel Mulher nasce da certeza de que as mulheres escrevem por anos, apenas não foram e ainda não são reconhecidas como escritoras. Temos escritoras mapeadas no Brasil desde 1800, por que, então, não estudamos essas mulheres em nossas aulas de literatura?

Nós mesmas, muitas vezes, crescemos escrevendo em nossos diários e mesmo depois de anos praticando a escrita, temos vergonha de mostrar nossos escritos. Isso só acontece porque a sociedade nos fez pensar que esse lugar não era para nós, fazendo com que desde cedo nós só reconhecêssemos como escritores, homens brancos, héteros, de classe média. A Papel Mulher veio mudar isso! Tem mulher escrevendo sobre todo e qualquer assunto, podemos provar.

Escolhemos a intervenção nas ruas através do lambe-lambe por querer tornar a literatura acessível, ao rés-do-chão, ao alcance do olho de quem procura, passa e faz parte da rua. Entendemos a literatura como direito de todas, todes, todos. Apesar do que querem nos fazer acreditar, essa arte não é só destinada a uma parcela da sociedade com acesso ao dinheiro.

Literatura não é coisa desvinculada da vida vivida. O silêncio que, por muitos anos, pairou sobre certos assuntos tais como machismo, racismo, homofobia, transfobia, entre outros, acabou. É possível fazer poesia com qualquer temática. É possível fazer transformação com poesia. Acreditamos na literatura como um meio de transformação de subjetividades e, quem sabe, de transformação de sociedade.

Fizemos a escolha de divulgar a escrita de mulheres através do lambe-lambe por ser um material barato que conseguimos fazer chegar entre as mulheres da coletiva sem muitas barreiras. Enviamos por correio, entregamos pessoalmente, as integrantes conseguem imprimir na cidade em que moram, por não ser algo muito caro.

A ideia sempre foi fazer não só no Rio de Janeiro, porque somos mulheres de todos os lugares. A gente nunca imaginava que em alguns meses teria todo esse acesso e número de seguidores, conseguimos colar até fora do país, no México.

Sempre quisemos ter uma curadoria plural, queremos mulheres cis, trans, negras, indígenas. Queremos que as mulheres se vejam representadas, então, é importante para nós que essa pluralidade exista. Temos alguns focos temáticos, no mês de Setembro, por exemplo, focamos todo o mês na questão da visibilidade bissexual e assuntos pertinentes ao setembro amarelo, mês de conscientização da prevenção a
suicídio.

Fazemos também alguns resgates históricos de escritoras que na época que escreveram não tiveram a visibilidade merecida e acabaram sendo esquecidas, como Stella do Patrocínio, Maura Lopes Cançado, Cassandra Rios, entre outras.

Neste mês, estamos fazendo a curadoria da Maria Firmina dos Reis, que é uma escritora nortista do Maranhão e a primeira romancista do Brasil, que muita gente não conhece. Temos como princípio a autonomia e a pluralidade, por isso, não ficamos restritas só em uma região do país, temos um núcleo no Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

Atualmente, por uma razão política, estamos com uma chamada aberta para receber escritos de escritoras nortistas, por reconhecermos a invisibilidade que essas escritoras muitas vezes sofrem. As questões de invisibilidade não dizem respeito apenas à questão do gênero, mas tem muitos outros marcadores, a região geográfica da qual escreve a escritora também.

Quem quiser colar precisa querer fazer parte da coletiva, nós temos um formulário e, a partir das respostas, a pessoa entra em um grupo de WhatsApp e combinamos as colagens. Temos um drive separado por autoras com todos os nossos lambes e ali a pessoa consegue baixar, imprimir e colar. Temos também reuniões mensais para ensinar a colar, então todas as mulheres que querem colar, conseguem, basta entrar em contato pelo nosso Instagram.

Tudo acontece lá e a nossa organização é toda pela internet. Também temos algumas ações fora o lambe. Em todos os atos contra o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), nós tivemos panfletagem poética escrita por mulheres e fazendo coro, além da colagem de lambes e oficinas de colagem e de como fazer um lambe.

A coletiva não possui fins lucrativos, todo dinheiro que entra se transforma em palavra de mulher.

Elaboramos algumas formas de conseguir financiar as ações através de rifas com as artes das mulheres que fazem parte da coletiva, vendas de ecobags estampadas com palavras de mulher e abrimos nosso pix, como quem passa o chapéu. Toda contribuição é muito importante para que continuemos a existir.

A coletiva possui um caixa para ajudar manas que não possuem dinheiro para colar e para nos prepararmos caso um dia tenhamos que pagar fiança de alguma mana, já que o lambe-lambe é considerado infração
em algumas cidades.

Ver a concretização de tudo isso é uma felicidade muito grande. É a realização de um sonho que não foi sonhado sozinho, é um sonho em conjunto porque a coletiva passou a existir pelo contexto político e bizarro que nós vivemos hoje e queremos sair desse buraco.

A coletiva é um espaço de respiro, muitos laços e histórias, e ver mulheres que encontram nosso trabalho e mulheres dizendo que conseguiram acordar porque viram o lambe é de uma representatividade enorme.

A gente nunca imaginou tocar tanta gente em tão pouco tempo, nós fizemos até parceria com autoras que admiramos e não imaginávamos isso." Julyana Mattos

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