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Minha história

'Aos 50, casei e finalmente contei pra minha mãe de 91 que sou lésbica'

Lúcia (esquerda), dona Zefinha (meio) e Leilane (direita) - Arquivo pessoal
Lúcia (esquerda), dona Zefinha (meio) e Leilane (direita) Imagem: Arquivo pessoal

Leilane Bezerra em depoimento a Júlia Flores

De Universa

03/10/2021 16h00

"Durante muito tempo, minha mãe, hoje com 91 anos, fechou os olhos para a minha sexualidade. Eu, desde criança, ouvia comentários preconceituosos dela sobre pessoas homossexuais. Cresci com medo de contar para ela que sou lésbica - até o momento em que decidi me casar e senti que tinha chegado a hora de abrir o jogo para a família. Hoje, aos 50, decidi que ia parar de me esconder.

Na última semana, oficializei a relação que tinha com a Lúcia, o amor da minha vida, com quem estou junta desde 2016. Eu já sabia que era lésbica há muito tempo; desde os 19 já tinha relacionamentos com mulheres e, apesar de nunca ter mentido, ninguém da família gostava de tocar neste assunto.

'Apresentava minhas namoradas como amigas'

Minha mãe teve 6 filhos: 3 meninos e 3 meninas. Minhas irmãs já sabiam da minha orientação sexual, contei para elas há cerca de 10 anos. Já meus irmãos evitavam tocar no assunto.

Sou a caçula da família, então foi difícil driblar a expectativa que depositaram em mim de ter filhos, seguir o modelo tradicional. Só que eu acho que desde cedo todo mundo já sabia que eu era gay.

Minhas ex-namoradas sempre frequentaram minha casa, só que sempre as apresentava como amigas; mamãe tratava bem a todas

Por minha mãe ser homofóbica, estava apreensiva com as repercussões (até físicas) da conversa. Eu achava que ela devia saber, porém eu tinha medo da reação, e a responsabilidade cair pra mim.

A gente sabia que minha mãe percebia que tinha 'algo de diferente comigo'. Há uns 10 anos, ela tentou tocar nesse assunto comigo, mas evitei o papo.

'Minha mulher também era preconceituosa'

Leilane e a esposa Lúcia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Leilane e a esposa Lúcia
Imagem: Arquivo pessoal

A primeira vez que vi a minha atual companheira foi há mais de 20 anos. Ela é médica e me atendeu em uma emergência. Nos reencontramos em 2012, porque comecei a fazer acompanhamento com ela. Viramos amigas e nunca esperava que teria algum relacionamento com ela.

Ela era casada com um homem, tem 3 filhos e era super preconceituosa. Em 2015, convidei ela para um churrasco de amigos e ela foi. Ali começamos a nos aproximar e passei a trabalhar na clínica dela, como administradora do local.

Com o tempo, nós começamos a perceber que a relação não era estritamente profissional. Começamos a nos relacionar, mas tudo escondido, porque ela tinha medo de ser rotulada

Até que, em dezembro de 2016, demos nosso primeiro beijo. Antes de nos 'pegarmos', já sentia que estava rolando um clima diferente entre nós duas, só que achava que ela não ia se abrir, porque era preconceituosa, fazia brincadeiras, se referia a mulheres LGBT como 'sapatão'. Foi uma surpresa.

Em pouco tempo, por passarmos muito tempo uma colada na outra, todos os amigos se deram conta de que estávamos namorando. Mas ela ainda não havia contado para os filhos e não podíamos assumir publicamente o relacionamento.

Um dia, depois de uma discussão nossa, ela ficou com medo do término e decidiu falar com os dois filhos mais velhos - isso foi em 2018. Um deles disse: 'Se você está amando alguém, essa pessoa deve ser muito especial. Quero que você seja feliz'. Ainda assim ela só revelou sua orientação sexual para a filha adolescente em dezembro de 2019. Dali em diante, assumimos nossa relação.

"Ao contar para minha mãe, resolvi meus fantasmas"

Dona Zefinha abraça a nora Lúcia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Dona Zefinha abraça a nora Lúcia
Imagem: Arquivo pessoal

Hoje temos um relacionamento muito bom. A pandemia reformulou a maneira como víamos o mundo e decidimos oficializar nossa união. Ela me pediu em casamento e eu aceitei com a condição de que teria que contar para a minha mãe.

Há cerca de uma semana, cheguei em casa e pedi para conversar com mamãe. Foi um momento delicado, porque não fazia uma semana que ela tinha perdido um neto e eu um sobrinho, ela estava com medo de que eu estivesse doente. A acalmei e, como sou muito chorona, quem se emocionou foi eu.

Peguei as duas mãos dela e perguntei: 'A senhora sabe que eu namoro a Lúcia, não sabe?'. Ela respondeu que sim com a cabeça. 'Sempre soube, sempre perguntei para seus irmãos e todos sempre me negaram', ela disse. 'Negaram porque a senhora nunca teve a mente aberta para isso', respondi.

Como filha caçula, sempre tentei mudar a cabeça dela. Recentemente ela aprendeu a lidar melhor com o tema, porque acho que passou a ver mais diversidade nas novelas, nos realitys shows e matérias jornalísticas. Ainda assim, como ela é muito católica, ainda fazia comentários discriminatórios a respeito.

Depois de abrir o jogo, mamãe me perguntou: 'Por que casar agora?'. Bom, eu já tenho 50 anos, a Lúcia - minha companheira - 59, decidimos nos casar porque sabíamos que só tínhamos uma à outra.

No último dia 28, eu e Lúcia oficializamos nosso relacionamento no cartório civil com minha irmã e meu enteado de testemunhas. Quando cheguei em casa depois do casamento, pedi para minha mãe abençoar as alianças e ela o fez.

Minha mulher foi visita-la e minha mãe a abraçou forte ao encontra-la. 'Eu só quero que vocês sejam felizes', ela disse. Isso foi uma surpresa para todo mundo; ninguém esperava que ela reagisse tão bem.

Foi um alívio ter contato isso para ela. Minha mãe é meu maior tesouro e me arrependeria se não falasse. Já a Lúcia é o amor da minha vida, minha alma gêmea, a gente parece muito, fisicamente inclusive, temos os mesmos gostos musicais, de lazer. Temos o mesmo olhar para o futuro.

Antes eu vivia preocupada que minha mãe descobrisse, agora que todo mundo já sabe, estou pouco me lixando para quem não aceita. Eu resolvi meus fantasmas

A pandemia me fez perceber que temos que viver tudo hoje, não deixar nada para amanhã. Estou muito leve depois do casamento, se quero postar algo nas redes sociais, eu posto, finalmente posso estar em público com minha companheira e todo mundo sabe que somos um casal e não duas amigas." Leilane Bezerra, 50 anos, é professora e mora em Olinda, Pernambuco

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