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Minha história

'Peguei ISTs na minha 1ª vez. Recuperada, hoje me dedico à educação sexual'

Juliana Lemes criou uma página de acolhimento para mulheres que foram sexualmente contaminadas por seus parceiros - Arquivo pessoal
Juliana Lemes criou uma página de acolhimento para mulheres que foram sexualmente contaminadas por seus parceiros Imagem: Arquivo pessoal

Juliana Lemes em depoimento à Júlia Flores

De Universa

02/10/2021 16h44

"Tenho 20 anos, aos 16 tive a minha primeira experiência sexual com um rapaz da minha cidade (moro em Sumaré, no interior de São Paulo), três anos mais velho do que eu, 'disputado e cobiçado' por outras meninas.

Apesar de termos amigos em comum, começamos a nos falar pelo Instagram; até que um dia nos encontramos pessoalmente e começamos a ficar. Estava encantada e, mesmo sabendo que esse cara não queria nada sério comigo, resolvi que ia ter minha primeira relação sexual com ele.

Durante o ato, perguntei se a gente ia usar preservativo, ele disse que não era necessário, porque a camisinha ia me machucar

Como eu tomava pílula anticoncepcional, gravidez nem passava pela minha cabeça. Confiei nele e transamos sem preservativo. Acreditei porque nós, mulheres, fomos ensinadas que o que um homem fala vale mais do que a gente acredita.

Depois do sexo, percebi que ele só queria transar comigo — e não ter um relacionamento. Me afastei desse garoto e, poucos dias depois de ter transado com ele, comecei a ter um corrimento estranho. Achei suspeito e fui perguntar para minha mãe (que sabia que eu tinha tido a minha primeira relação sexual). Ela achou estranho, mas disse que devia ser uma candidíase. Mal sabíamos o que estava para acontecer

"Imagina seu pai descobrir que você se contaminou na primeira relação sexual?"

Juliana precisou ser internada duas vezes por causa de uma infecção pélvica causada pela bactéria da gonorreia. Ela também teve sífilis  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Juliana precisou ser internada duas vezes por causa de uma infecção pélvica causada pela bactéria da gonorreia. Ela também teve sífilis
Imagem: Arquivo pessoal

Com o tempo, o corrimento só aumentava - a ponto de eu ter que usar 3, 4, absorventes por dia. Até que um dia (cerca de três semanas depois da primeira transa) tive uma crise de cólica que me paralisou. Tive que ir para o hospital e, chegando lá, não me examinaram, nem nada; me deram um remédio e me mandaram para casa.

No dia seguinte, não conseguia andar, nem comer. Voltei para o hospital e já fui encaminhada para uma bateria de exames. Lembro de precisar fazer exame de urina, mas não poder porque junto com o corrimento começou o sangramento, então as médicas tiveram que passar a sonda dentro de mim para avaliar o que estava acontecendo.

Estava com muita dor, tentei resistir, mas as médicas disseram: 'Olha Juliana, a gente vai ter que fazer mais um exame (transvaginal) nem que seja à força' e foi ali que meu hímen terminou de romper. Logo descobriram que estava com doença inflamatória pélvica, e que precisava passar por uma cirurgia de emergência para retirar o pus acumulado no meu corpo.

Tinha 1,5 litro de pus solto na minha cavidade pélvica. Se eu tivesse ficado mais alguns dias com aquilo no corpo, teria tido uma infecção generalizada e morrido

Precisei entrar em uma cirurgia de emergência e resolvi ligar para o meu pai o que estava acontecendo. Essa foi uma das partes mais difíceis para mim. Imagina seu pai descobrir que você se contaminou durante a primeira relação sexual? Foi traumático. Minha mãe, quando ouviu que eu poderia perder as trompas por causa da operação, ficou desesperada. Eu nem imaginava o que aquilo poderia significar.

"Fui julgada pelos médicos: 'você transa com qualquer um?'"

A operação durou 4 horas. Fiquei acordada durante todo o procedimento, porque não pude tomar anestesia geral. Quando me mandaram para o quarto, tive que fazer exame de sífilis, HIV, hepatite B e C. Eles já sabiam que a infecção havia sido causada pela bactéria da gonorreia.

O exame da HIV demorou muito para ficar pronto, e aqueles foram dias horríveis para mim. Eu não tinha noção de que um soropositivo podia levar uma vida normal e saudável

Deu negativo para HIV e positivo para sífilis. Tive que tomar 6 injeções de benzetacil. Passei mais 20 dias internada, passando por baterias constantes de exames. O tratamento foi bom, mas o acolhimento médico foi péssimo. Mesmo sendo um hospital particular, os profissionais não acreditavam no que eu falava, as médicas duvidavam de mim. Repetiam perguntas como: 'Ele não era seu namorado? Então você transou com qualquer um? Certeza que você só saiu com ele? Nossa, você acabou com sua vida tendo uma IST (infecção sexualmente transmissível)'.

A médica que fez minha cirurgia, cada dia falava que eu tinha uma IST diferente. Na época, a gente não sabia o que era uma clamídia, uma gonorreia. Elas não falaram para os meus pais o que eram as infecções, não explicaram. Não tive nenhum acolhimento psicológico dentro do hospital.

Não contava para as pessoas que tinha tido IST, falava para os meus amigos que era um cisto que tinha se rompido

Depois que saí da primeira internação, após um mês, comecei a ter febre de novo. Não queria voltar para o hospital e ficava tomando remédio para esconder isso dos meus pais. Até que um dia, com 40 graus de febre, voltei a ser internada, porque tinha sobrado pus na minha cavidade pélvica. Foi horrível, fiquei deprimida e parei de comer. Naquela época, cheguei a pesar 46 kg.

"O cara que me contaminou duvidou de mim"

Assim que descobri que estava com IST, fui contar para o parceiro com quem tinha tido minha primeira e única relação sexual. Ele desmentiu, disse que não era dele, que ele se cuidava e fazia exames. Mas não tinha como ser de outra pessoa, porque não tive outro parceiro sexual.

Lembro de ver fotos dele na balada enquanto estava internada no hospital

Naquela época não tinha conhecimento que podia processa-lo. Fui aprender isso muitos anos depois. Proibi meus pais de irem conversar com ele, porque só queria acabar com aquela história.

Levou dois anos para eu tornar os fatos públicos. Em 2019, publiquei no Twitter um relato da história. Ele me mandou um texto pedindo desculpas, falando que o que ele tinha feito não tinha perdão, só que havia se tornado pessoa mais madura. Eu perdoei o que eu passei, eu me perdoei, mas não o perdoei.

Hoje encontro com ele na rua e em festa, mas não gosto de conversar, não consigo. As mulheres não têm voz nem quando apanham, imagina quando um cara passa uma IST para elas?

"Quero fazer enfermagem e uso redes sociais para falar de educação sexual"

Comecei a fazer terapia em 2017. Agora eu estou bem, não tenho mais nenhuma IST, estou curada e meu objetivo principal é poder conscientizar outras pessoas sobre os riscos do sexo sem preservativo. Depois que vi o vídeo em que uma mulher conta que foi contaminada por HIV pelo parceiro, resolvi que também contaria minha história nas redes sociais.

Decidi gravar um vídeo sobre o episódio e, em maio de 2021, publiquei a filmagem no TikTok, hoje a publicação tem mais de 3.9 milhões de visualizações. Depois desse sucesso, decidi que transformaria meu perfil no Instagram em uma página para poder conscientizar e ouvir relatos de mulheres que também passaram por uma IST. Queria acolhe-las.

No meu perfil do Instagram, recebo cerca de 20 relatos por semana. A maioria (98%) de mulheres; as faixas etárias variam. Sexo é bom, mas sexo seguro é ainda melhor. Perguntam se eu tive educação sexual em casa e, na verdade, eu não tive, meus pais nunca ouviram falar sobre IST. A única coisa que conversávamos em casa era sobre gravidez na adolescência e a única saída para evitar isso era a abstinência.

Frequentava uma escola particular e me recordo de ter tido duas aulas sobre o tema. Fiquei apavorada porque as imagens das doenças eram horríveis, aquilo parecia uma realidade distante. Ninguém me disse que uma IST poderia ser silenciosa.

No momento, estou estudando para entrar na faculdade de enfermagem. Não tenho dúvidas de que as minhas ISTs me levaram a escolher esta profissão: quero trabalhar com a saúde da mulher, quero trazer essas mulheres para perto de mim. Quero falar sobre educação sexual de um jeito correto.

É possível ser feliz depois de um episódio de IST. Atualmente eu namoro. Mesmo com dois anos de relacionamento, a gente usa preservativo até hoje e nos testamos sempre.

Recebo mensagens de pessoas dizendo que ouviram de homens que o preservativo rasga fácil, de mulheres casadas que 'confiam' no parceiro e acabam se contaminando. Sempre que ouço esses relatos, compartilho a minha experiência com as vitimas e as aconselho a irem ao ginecologista, ouvir a opinião de um profissional.

O que faço no meu perfil não é julgar quem não usa camisinha, e sim explicar que IST não tem cara, nem orientação sexual. A gente só pode confiar na gente, afinal de contas nossa saúde é muito importante e usar camisinha é autocuidado." Juliana Lemes é estudante, tem 20 anos e mora em Sumaré, interior de São Paulo

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