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Camisa, terno: por que mulher precisa 'se vestir como homem' no trabalho?

Mayra Cotta e Thais Farage discutem no livro "Mulher, Roupa e Trabalho" a desiguladade de gênero a partir da vestimenta exigida para mulheres - Renato Parada/Divulgação
Mayra Cotta e Thais Farage discutem no livro "Mulher, Roupa e Trabalho" a desiguladade de gênero a partir da vestimenta exigida para mulheres Imagem: Renato Parada/Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

29/09/2021 04h00

Camisa, terno, blazer, tons sóbrios, branco, preto, cinza. Trajes e cores tradicionalmente associadas aos homens foram, ao longo da história, adaptados ao vestuário feminino à medida em que as mulheres começaram a ocupar mais cargos de liderança no mercado de trabalho. Por quê?

Segundo Thais Farage e Mayra Cotta, autoras do livro "Mulher, Roupa, Trabalho — Como se Veste a Desigualdade de Gênero", que será lançado em 13 de outubro pela editora Paralela, a explicação vem desde o século 18, quando homens, na Europa da Revolução Industrial, começaram a trabalhar em indústrias e com um vestuário prático.

As mulheres brancas usavam o que era visto como feminino: anáguas, saias pesadíssimas, saltos. Vistas à época como mais frágeis e dependentes, sua função era ficar em casa.

Estamos em 2021 e ainda é preciso seguir um código de vestimenta para se sentir reconhecida no trabalho."

A ideia de associar o masculino a adjetivos como "sério" e "respeitável" se perpetua ainda hoje, tanto que, ao longo do tempo, foram criadas peças para mulheres no trabalho tendo como referência o que era usado por eles.

"Em 1980, com essas mulheres brancas indo para o mercado de trabalho, foi criado o termo 'power dressing' [vestir-se de maneira poderosa, em tradução livre] para elas. Algo que é feminino, tem o masculino como referência para que elas não fossem vistas e julgadas por serem mulheres, perdoadas por ter filhos, por ter turno extra de trabalho em casa. Seguimos nessa ideia", afirma Thais, consultora de moda que teve a ideia de escrever o livro sobre o tema e procurou Mayra, advogada e pesquisadora em trabalho, política e gênero.

No livro, as autoras mostram por que há um código de vestimenta que é exigido de todas as mulheres no mercado de trabalho. Elas, portanto, precisam sempre analisar muito bem que peças irão vestir — diferentemente dos homens. E isso tem uma relação profunda com a maneira como serão tratadas.

"Somos tão inadequadas que existem vários guias"

Profissional da moda com experiência na área, Thais afirma que a discussão sobre o que vestir no trabalho existe há muitos anos. "Mas sempre no sentido de guia. Como se a gente fosse tão inadequada que tivesse sempre que seguir um monte de regras", diz. "Eu percebia o incômodo das minhas clientes."

Queremos mostrar como os conceitos da desigualdade de gênero são levados para o ambiente de trabalho também em relação à roupa — e a gente nem percebe."

Mayra, que entrou com a missão de analisar a moda pela perspectiva empresarial e política, explica que as várias regras que existem mantêm um constante estado de desconforto na mulher. "O fato de a gente se sentir sempre um pouco demais e um pouco de menos mostra que o problema não está na roupa, isso é um reflexo de não pertencimento ao espaço", avalia.

O "demais ou de menos" é uma realidade que as autoras explicitam no livro. "É na roupa de trabalho que está a maior alegoria dessa dinâmica de distribuição dos papéis sociais de gênero, pois é exatamente esta a descrição da roupa que a gente julga apropriada para a mulher: que marque nossas curvas e 'valorize' nossa feminilidade, mas sem chamar a atenção demais; que não fuja tanto dos códigos do armário do homem branco ocidental; que não seja 'mulherzinha' demais, só que 'tomboy' [com aparência tida como mais masculina] também não pode, não."

No fim das contas, a roupa, na verdade, é só uma consequência de um problema maior, e a gente reproduz nas vestimentas o mesmo modelo de pensamento que usamos para definir a nossa carreira — ou a ausência dela."

A cobrança pelas peças escolhidas, inclusive, têm um significado desde muito antes de chegar na idade de poder trabalhar. "Quando uma menina veste um vestido e, pela primeira vez, percebe como essa roupa a limita — com o vestido ela precisa sentar direito, não pode se abaixar descuidadamente e fica mais difícil correr —, ela aprende desde aquele momento que seus coleguinhas meninos vão conseguir circular com mais liberdade pelo mundo. E o mais grave: é levada a acreditar que isso é natural", explicam as autoras na obra.

O livro também discute a maneira como mulheres na política são julgadas em relação à aparência. Cita como exemplo comentários feitos à chanceler alemã Angela Merkel. Em 2008, aos 54 anos, ela a foi à ópera com um vestido decotado. Estava com 54 anos e era, então, considerada uma das mulheres mais poderosas da política internacional.

"O decote de Merkel para ir à ópera se tornou tamanho escândalo nacional que obrigou o porta-voz de seu partido a se pronunciar a respeito do 'incidente'. Nas eleições seguintes, um partido de oposição fez uma campanha que usava a foto de Merkel com o vestido e trazia a frase 'Nós temos mais a oferecer'", informa o livro.

Livro - mulher, roupa e trabalho - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

No Brasil, Thais relembra as eleições para prefeito em 2020. "Havia uma diferença grande no tratamento dado a Manuela d'Ávila [que concorreu em Porto Alegre pelo PCdoB] e ao Guilherme Boulos [candidato em São Paulo pelo PSOL]", aponta a consultora.

Boulos mudou roupa, barba, cabelo. Muito mais do que Manuela. Mas os comentários eram para ela: a camiseta que usou, o cabelo que cortou."

"Falavam o tempo todo que a Dilma Rousseff engordou, emagreceu. Quem fala da aparência do Bolsonaro?", questiona.

"É um questionamento eterno sobre a mulher e sua aparência. Quantas matérias em jornais você já viu sobre senadores e deputados que fizeram implante capilar? Nenhuma, mas eles fazem. Só que quando é com os homens, é um assunto sério."

"Se vestir do jeito que gosta já é uma revolução"

Como mudar as ainda hoje comuns obrigações femininas relacionadas à roupa? O livro não se pretende a responder definitivamente à pergunta, mas, antes, promover discussões em torno do tema.

"Não é instrumento de cobrança, para aumentar as demandas que a mulher tem que atender, e também não foi pensado para elaborar soluções para que vida de apenas algumas mulheres melhore apenas. Tem que mudar muito para dar conta da complexidade. A gente precisa se unir e pensar juntas", afirma Mayra.

Não é sobre a minha ou a sua roupa, é sobre o coletivo. Tudo bem querer usar blazer para se sentir mais confiante, mas acho válido pensar que só seremos respeitadas quando isso não for necessário. Mesmo porque o blazer não é uma peça equalizadora de gênero."

"Sozinha não se faz nada, só se consegue mudar algo quando se politiza a roupa, se entende porque é do jeito que é. Quem tem mais privilégio pode movimentar mais a estrutura: a mulher branca chefe que briga para não ter obrigação de usar maquiagem, por exemplo, e que barra o racismo que não permite que uma mulher negra use um turbante", sugere. "E acredito que se vestir do jeito que se gosta é, por si só, também uma revolução."

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