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Carreira e finanças

'Gerir patrimônio é autocuidado': elas aprenderam a investir na pandemia

Presença feminina na bolsa de valores já chega à casa do 1 milhão - Getty Images
Presença feminina na bolsa de valores já chega à casa do 1 milhão Imagem: Getty Images

Júlia Flores

De Universa

16/09/2021 04h00

Aos finais de semana, a vendedora Manoela de Oliveira dedica partes de seus sábados e domingos para estudar finanças. "Vejo vídeos, acesso cursos, reviso textos: é assim que eu decido onde e como investir", conta a baiana de 39 anos para Universa. Ela viu a sua renda mensal cair em 20% por causa da pandemia de covid-19 e, justamente na crise, tomou coragem para mudar a relação com o dinheiro.

A vendedora Manoela de Oliveira reconstruiu sua vida financeira durante a pandemia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A vendedora Manoela de Oliveira reconstruiu sua vida financeira durante a pandemia
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu decidi, por conta própria, mudar meus hábitos de consumo e a forma como vejo dinheiro", diz a autônoma que, de janeiro até setembro de 2021, já conseguiu economizar cerca de R$ 20 mil, apenas com readequação de gastos e investimentos em fundos de renda fixa.

"Por causa da crise, eu tive que mudar minha mentalidade com relação ao dinheiro. Decidi poupar e investir, coisa que nunca tinha visto necessidade de fazer" - Manoela de Oliveira

Júlia Mendonça, especialista em investimentos e colunista do UOL, reforça que o comportamento de Manoela não é isolado. "Na pandemia, o cenário econômico ficou incerto. Deixamos de ter a garantia de um emprego, de renda, de verba. A necessidade de pesquisar sobre dinheiro ganhou ainda mais força. Ninguém queria ficar à mercê do governo, do patrão e de despesas desnecessárias", opina.

Para a especialista, esse movimento de conscientização financeira foi maior entre pessoas do sexo feminino. "Cada vez mais as mulheres estão buscando a própria independência, não querem depender da opinião alheia, muito menos de um parceiro, para controlar as despesas. Elas estão perdendo o medo de investir e a pandemia permitiu que elas tivessem um tempo maior para olhar para o próprio bolso", explica.

Do próprio bolso à bolsa de valores, Universa ouviu o relato de mulheres que também passaram a investir no período pandêmico.

"Cuidar do dinheiro é autocuidado"

Manoela não foi a única que decidiu rever o modo como lidava com o dinheiro. A advogada Rayana Bitencourt também passou a investir durante a pandemia por medo das incertezas do futuro. "De 2020 para cá, por causa da mudança para o home office, tive mais tempo livre para analisar minhas finanças. Me dei conta de que não pensava na minha aposentadoria, de que não tinha um fundo de reserva, nem poupança, daí me apavorei", comenta a servidora pública de 33 anos.

Rayana conta que ouviu críticas da própria família quando começou a investir: "Até meu pai duvidou de mim" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rayana conta que ouviu críticas da própria família quando começou a investir: "Até meu pai duvidou de mim"
Imagem: Arquivo pessoal

Foi então que Rayana começou a estudar sobre o assunto. Fez um curso on-line e, por conta própria, criou um plano financeiro personalizado. Ela já chegou a guardar cerca de R$ 30 mil —o valor caiu depois que Rayana precisou passar por uma cirurgia de emergência. "Tive síndrome do silicone e precisei pagar a retirada da prótese por conta própria, porque o seguro não cobria a cirurgia. Ainda bem que eu já tinha começado a salvar dinheiro. Se fosse seis meses antes, não teria como pagar pela operação."

Na opinião de Rayana, cuidar das finanças pessoais é um ato de empoderamento feminino: "Enxergo como uma forma de autocuidado. É um jeito de pensar em um futuro melhor para mim, estou poupando para o meu bem-estar, para não depender de ninguém".

"Toda mulher tem que saber gerir o próprio patrimônio. Isso é autocuidado" - Rayana Bittencourt

Mas nem tudo foram flores no caminho de Rayana. Ela conta que sofreu críticas de pessoas próximas quando começou a investir. "Fui desestimulada pela minha própria família, meu pai, inclusive, duvidou de mim. Agora estou ajudando minha mãe a organizar a vida financeira dela, quero que ela seja independente."

Bolsa registra aumento inédito de CPFs femininos

A vendedora Ana Paula começou a investir na Bolsa de Valores durante a pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A vendedora Ana Paula começou a investir na Bolsa de Valores durante a pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Tal como Rayana, a vendedora Ana Paula, de 25 anos, também enfrenta comentários maldosos ao abordar o tema investimentos. "Quando eu começo a falar sobre ação e bolsa de valores, a pessoa questiona se eu realmente sei o que estou fazendo, dizem que vou perder dinheiro. Geralmente são homens que falam isso", comenta.

Ao contrário das outras entrevistadas, Ana Paula afirma que, desde criança, tem uma relação de "longo prazo com dinheiro". Ainda pequena, ela começou a guardar suas economias. Isso permitiu que, em abril de 2021, ela pudesse aprofundar os estudos em finanças e começasse a investir no mercado de ações.

A decisão de Ana Paula é reflexo de um movimento nacional. De acordo com a B3 (nome da bolsa de valores brasileira), em maio de 2021, o número de CPFs femininos cadastrados na Bolsa bateu a casa de 1 milhão. E, segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), a previsão é a de que a presença feminina triplique em 2021.

Esses números reforçam o que Júlia Mendonça acredita ser uma tendência coletiva. "As mulheres estão vendo que a vizinha delas, as amigas, as conhecidas, estão investindo e perdendo o medo de dar esse primeiro passo. Elas começaram a ver que não é só homem que investe, que a gente também pode e que não precisamos de R$ 10 mil para começar. Ao fazer isso, mesmo não intencionalmente, elas estão quebrando o estereótipo de que o sexo feminino só sabe gastar", opina.

A vendedora Ana Paula, por sua vez, investe com a consciência de que está rompendo tabus: "Ainda existe aquela ideia de que quem cuida do dinheiro é o homem e a mulher apenas aceita. Não quero perpetuar isso. Eu, inclusive, sou a pessoa que cuida do dinheiro do casal. Meu namorado sabe que sou mais organizada do que ele nesse sentido. Já ganhei até a fama de mão de vaca. Mas eu não ligo."

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