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"No swing, aprendi a me amar", diz ex-evangélica que criou clube de sexo

Camila Voluptas - @cemporcentoimaginacao
Camila Voluptas Imagem: @cemporcentoimaginacao

Carlos Minuano

Colaboração para Universa

13/09/2021 04h00

Enquanto ela era proibida de ouvir rock, o marido se esbaldava com todo tipo de pornografia. Entre namoro, noivado e casamento foram três anos de um relacionamento abusivo, carregado de chantagens emocionais, espancamentos, enforcamentos, chutes e todo tipo de autoritarismo, conta Camila Voluptas. E esse foi só um dos seus problemas.

Na conservadora igreja evangélica Congregação Cristã, que frequentou durante dez anos, e onde conheceu o ex-marido, coisas simples são consideradas transgressões às leis divinas. Ir à praia, cortar cabelo, vestir calça, ouvir música: tudo era pecado.

Para piorar, não aceitava o próprio corpo, que considerava acima do peso. Procurou terapia. Questões para lidar não faltavam em sua vida. Na infância, após a separação dos pais, teve inúmeros problemas de rejeição com padrastos e madrastas, tanto que foi morar com os avós paternos.

A baixa autoestima acompanhou toda a vida de Camila e, claro, só piorou com o seu primeiro casamento. "Ele não queria ter relações sexuais comigo e muitas vezes me pedia apenas para abrir as pernas para que se masturbasse e gozasse sozinho."

Antes da separação, descobriu que o ex-marido frequentava sites de sexo entre homens. "Só casou-se para se ver livre da fiscalização religiosa da família sobre ele", avalia Camila.

Do fundo do poço em que se encontrava, destruída emocionalmente, ela conseguiu reunir os próprios pedaços. Superou traumas e se reconstruiu. Hoje, afirma ter retomado as rédeas da própria vida. E a liberdade que a ex-evangélica tanto procurava não foi encontrada no divã, mas no swing, ao lado do atual marido, Edgard.

Edgard, pseudônimo de Eduardo, foi um affair proibido do passado (era casado). Por ironia, ele a levou à igreja, anos atrás. A mesma de onde saíram juntos uma década depois, ambos divorciados e prontos para uma nova vida, juntos finalmente.

Camila Voluptas é na realidade o pseudônimo de Samantha, que também é mãe, cuida do avô, da casa, é escritora e empresária. Não são apenas nomes fictícios, são personagens inventados para que pudessem entrar mais discretamente no circuito do sexo liberal, explica a swinger.

"Nos conhecemos sexualmente e aprendemos a amar nossos corpos da forma que eles são", relata Camila, na introdução do livro autobiográfico "Ela, Dama de Espadas" (editora Secret Pass), que acaba de ser lançado.

No livro, ela conta sua história singular, cujo desfecho infeliz parecia quase certo, mas que uma virada singular mudou radicalmente. Depois de anos de abusos, violências e repressão, a vida hoje é uma festa. Uma, não, várias.

A busca frenética do casal por prazer sexual com outras pessoas a levou a criar uma sociedade secreta de swing, a Voluptas (prazer, em latim), atualmente com quase 50 mil integrantes no Brasil e no exterior.

Em entrevista a Universa, ela fala sobre sua jornada de autoconhecimento, dos dramas e feridas de muitas relações tóxicas à redescoberta do amor e do desejo através da realização das fantasias sexuais, sem tabus, preconceitos ou julgamentos.

UNIVERSA - Depois de sofrer abusos, mergulhar no swing e dar uma virada na vida, você decidiu criar um clube secreto de sexo. Por que?

CAMILA - Eu me sentia incomodada com casas de swing. Não via sentido em ter sexo antes de uma boa conversa. Além disso, eu ficava aterrorizada de imaginar que poderia estar interagindo com um abusador, que estava atrás do anonimato de uma casa de swing encostando as mãos em mim. Na sociedade que fundei, realizamos vários tipos de pesquisa, incluindo antecedentes criminais. Mantemos o anonimato a sete chaves, mas sabemos exatamente quem é cada um. Com a sociedade secreta, combinei o melhor do swing com segurança, elegância e tempo. Agora as pessoas podem fazer amigos reais e ter tempo de descobrir se a química existe.

Pode contar um pouco mais como isso funciona na prática?

Realizamos festas lindíssimas em mansões e hotéis pelo Brasil e, através desses encontros e da rede social que desenvolvemos, todos podem conhecer pessoas com quem dividir desde uma boa amizade até a realização de uma fantasia. Mas quando lançamos um evento, os participantes só vão receber a localização exata do local com 24 horas de antecedência junto com a senha de acesso. Somos bem rigorosos. Vou te dar um exemplo: João se cadastrou com a Maria. Se na hora ele for com a Joana, não entra, pois além de todas as conferências que fazemos, checamos o rosto deles através do cadastro (que somente o jurídico tem acesso). Para participar é preciso entrar no site da Voluptas Society, preencher o cadastro e enviar cópia dos documentos. Se aprovados, os membros têm acesso às informações dos eventos e à nossa rede social secreta.

E a inspiração veio de onde? Qual o perfil dos membros e como são as festas?

Eu assisti "De Olhos Bem Fechados" [Stanley Kubrick, 1999] e decidi que queria algo naquele formato, porém, o filme é extremamente machista. São homens ricos e poderosos em uma noite de fantasias com mulheres padrões que estão ali para satisfazê-los. A Voluptas foi criada para todos os corpos e gêneros. As baladas podem durar desde 6 horas até 16 horas, como foi o caso da última antes da pandemia. Geralmente são temáticas. Já fizemos bailes com os temas: "Poderoso Chefão", "Game of Thrones", "Hollywood" e temos anualmente a "Carnavale di Venezia". As festas são muito luxuosas, algumas com baladas, outras com música ambiente e grande parte usa máscaras. Na "Carnavale" principalmente, pois é um baile de máscaras bem parecido com o Carnaval de Veneza. Nas festas acontece de tudo: jantar, conversas, danças, paqueras e sexo. Existe ambiente próprio para cada coisa e ninguém é obrigado a nada. Quem entra na Voluptas dificilmente sai.

Você teve problemas de autoestima e de aceitação do corpo, como lidou com essas questões no swing?

Eu me sentia um objeto extirpado de desejos e pouco merecedor de qualquer afeto. Foi no swing que aprendi a amar meu corpo, descobri que existe gosto para tudo. Foi conhecendo e me relacionando com pessoas diferentes que conheci gente querida, empática e respeitosa, que me ensinou que meu corpo tem valor exatamente como é.

Em seu livro, você fala de uma reconstrução junto com seu atual parceiro, e afirma que ele foi fundamental no processo de iniciação no swing. Pode contar como foi isso?

Ele realmente fez a diferença em minha vida. Me ensinou que a única pessoa da qual eu não podia desistir nesse mundo era de mim. Edgar encontrou uma mulher traumatizada, ferida e cheia de gatilhos. Com paciência, amor e bondade legítima me tirou do poço fundo em que eu fui colocada. Os traumas eram tantos que eu odiava sexo; apesar de amá-lo, eu não sentia o menor desejo sexual. Edgar me deu liberdade e apoio para que eu pudesse me descobrir sexualmente e eu fiz o mesmo com ele. O swing aconteceu, pois éramos muito parceiros e queríamos experimentar e descobrir tudo juntos. Acredito que realizamos quase tudo sexualmente.

O que foi mais desafiador no processo?

O maior risco do swing é entrar nele acreditando que ele salvará um casamento com problemas, pois o que está ruim pode ficar pior. Já aconteceu de muitos casamentos com problemas encontrarem solução no swing, mas não são a maioria. É preciso entender que existem pessoas que nasceram para ser monogâmicas e outras não. Começar através da imposição, além de um erro é também um abuso. Não dá para convencer ninguém a ser liberal, é uma construção que o casal deve fazer lado a lado.

Há muitas mulheres vivendo relações abusivas no circuito liberal?

Há muitas mulheres no mundo todo vivendo relações abusivas; infelizmente ainda somos vítimas todo dia do machismo e do patriarcado, onde quer que estejamos. Mas, na igreja eu vi muito mais casos de abuso do que no swing. Na Congregação Cristã recebia o ensinamento que minha paciência edificaria meu lar, porém por causa da paciência que tive, sofri abusos de diversas formas.

Qual a dica para os casais que queiram se iniciar na prática?

É preciso muito diálogo, respeito e transparência entre o casal para que o swing possa ser algo bom na vida deles. Recomendo que iniciem nas próprias fantasias. Se na cama, entre eles, for bom imaginar, talvez sejam fortes candidatos a um casamento liberal. Visitar baladas liberais apenas para espiar é um ótimo começo, pois diferente do que muitos imaginam, uma casa de swing é uma balada adulta que contém espaços privativos para interação sexual, o casal sequer precisa entrar nessas áreas se não quiser. Podem apenas curtir a pista de dança e drinques em um clima muito mais seguro e de respeito daquilo que imaginam.

Fala-se bastante em preconceito no circuito do swing em relação a troca entre homens, na Voluptas é diferente?

Temos muitos casais bissexuais, inclusive meu marido e eu. Orientamos que todos conversem, descubram afinidades e se respeitem. Preconceito é uma palavra que não existe aqui, pois se qualquer pessoa for preconceituosa, será banida e dependendo do caso, levamos inclusive para esferas jurídicas. Nunca aconteceu. Espero que venham cada vez mais LGBTs. Meu sonho é ver a Voluptas cada dia mais colorida.

Como foram as primeiras festas? Pararam durante a pandemia? Quando deve acontecer uma próxima?

A primeira festa oficial da Voluptas foi em 2017, um baile de máscaras em uma mansão no Morumbi, em São Paulo, com aproximadamente cem pessoas. Hoje temos que limitar a quantidade. Na maior que fiz tinham 200 casais, mas é o nosso limite. Gostamos de manter um número mais limitado para manter a qualidade e o requinte da noite. Nos abstemos durante a pandemia, mas fantasiamos. Nosso entrosamento é tanto, que às vezes parece que tem três pessoas na cama conosco. A maioria do clube esteve assim também. Não temos data ainda para a próxima festa. Mas, quando acontecer, e todos estiverem se sentindo seguros para interagir, acredito que terão muito mais coragem de experimentar que antes, pois viram o quanto é perigoso muitas vezes deixar de viver experiências por medo, esperando o amanhã que pode não chegar.

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