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Minha história

'Mesmo ostomizada, tenho vida sexual e muita lenha pra queimar'

Zoraida Feitosa - Arquivo pessoal
Zoraida Feitosa Imagem: Arquivo pessoal

Zoraida Feitosa, em depoimento para Carolina Farias

Colaboração para o UOL

06/09/2021 04h00

Me chamo Zoraida Feitosa, tenho 44 anos, mas há três anos existe uma outra Zoraida. Tive um câncer de reto em 2018 e comecei um tratamento com quimioterapia e radioterapia. Apesar de ser formada em enfermagem, trabalho desde os 17 anos em hospital, não consegui absorver todas as informações na velocidade que elas vieram. Os médicos diziam: "O tumor é muito grande, vamos retirá-lo, mas o trânsito intestinal será interrompido e vamos confeccionar uma ostomia [abertura de uma comunicação para a saída de fezes ou urina]".

Acordei da cirurgia e após passar a anestesia e vi a bolsa coletora. Foi a segunda rasteira da vida. A primeira foi o câncer.

No começo eu tinha vergonha. Passei por um processo de negação. Não é normal evacuar pela região abdominal. No início a bolsa era transparente, aparecia o bolo fecal. Nós não falamos de cocô e para uma pessoa ostomizada o cocô vira o centro de sua vida.

Também sou casada há 17 anos, mas estou com meu marido entre namoro e casamento há 28 anos. Depois de me tornar ostomizada não queria que ele me visse sem roupa. Não deixava ele ir ao banheiro comigo e tomar banho juntos fazia parte da nossa rotina de intimidade, de amor, companheirismo.

Somente depois de 15 dias de operada ele me viu pelada, mas voltar para a intimidade mesmo, levou quase um ano. Depois que troquei a bolsa, que deixou de ser transparente, fiquei mais à vontade. Também passei a entender melhor os horários das fezes. Há um ciclo, mas, no começo, eu produzia muitas fezes e tinha ódio de mim. A medicação para controlar ajudou e passei a aceitar e conhecer minha nova condição de vida.

Hoje, depois de três anos, minha vida é bem adaptada e tranquila. Estou agora trabalhando, e a bolsa, aqui.

Não foi fácil. Eu era uma pessoa ativa, trabalhava 12 horas por dia e, de cuidadora, passei a ser cuidada. Meu marido, Jorge, e meu filho, Gabriel, de 16 anos, que na época tinha 13, foram fundamentais.

"Sou praieira", diz Zoraida Feitosa - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Sou praieira", diz Zoraida Feitosa
Imagem: Arquivo pessoal

Jorge dizia não acreditar que eu tinha vergonha dele. Me ajudava a trocar a bolsa, quando vazava, ele e meu filho me limpavam. Eles sempre me entenderam. O Gabriel, que tem um tipo leve de autismo, me falava: "Quantas vezes você me limpou quando eu era bebê? Agora é minha vez". Essas atitudes foram me dando autonomia e credibilidade. Fui entendendo que estava viva.

Não sou frustrada ou triste. Sou praieira. Vou à praia de biquíni, com bolsa de fora, com minhas cicatrizes. A bolsa é opaca, não aparece o conteúdo. Me perguntam porque eu não uso maiô. Eu tentei usar, mas a barriga ficava branca, não fiquei feliz.

Fácil não é, mas vou me esconder? Encaro como segunda chance que a vida me deu de estar viva. Atualmente estou tratando uma metástase no fígado e, por causa desse tratamento, minha menopausa foi adiantada.

Mantenho minha vida sexual, não quero abdicar, não. Tenho lenha pra caramba pra queimar. A menopausa causa um ressecamento vaginal, mas estou viva, tenho desejo, vontade. Estou procurando tratamento para combater esses transtornos. Estou na luta. Sem vida sexual ativa a gente pira o cabeção.

Meu marido é parceiro, nenhum momento perdeu tesão por mim, pelo contrário. Quando vamos transar, se tem dor, ele tem todo cuidado, paciência, respeito. E outra técnica também (risos).

Não posso reclamar da vida, me sinto abençoada. Um marido que passa todos esses percalços comigo. Falo para minhas amigas: "Quer saber se um homem te ama, deixa ele limpar sua bunda". Porque amar uma mulher saudável, gostosinha, é fácil. Quero ver amar uma mulher doente, com diarréias intensas, que vomitava o tempo todo. Cheguei a pesar 36 quilos.

Hoje eu não sinto tanto os efeitos da quimioterapia. Dirijo minha moto, uso maquiagem quando saio, pinto meus cabelos e unhas de vermelho. Sempre fui perua e muito ativa. Meu atual vespeiro é que somos 500 ostomizados na região da Baixada Litorânea, 270 só em Rio das Ostras, onde moro, e não tem bolsa. É um equipamento muito caro.

Desde maio há um processo licitatório para a compra do material que nunca acaba. As pessoas têm que viver de doação porque o poder público negligencia. Estamos sem bolsas, faz o quê? Colocar saco plástico? Todo meu tratamento é pelo SUS (Sistema Único de Saúde), não tenho convênio. Minhas bolsas vêm do SUS, meu filho é acompanhado por serviço psicológico também do SUS.

Atualmente sou vice-presidente da AEPORJ (Associação Estadual de Pessoas com Ostomia do Rio de Janeiro) e serei presidente da AOSBL (Associação de Ostomizados da Baixada Litorânea), além de ser membro do Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência —ostomizados com a bolsa coletora no corpo são considerados pessoas com deficiência.

Tenho tantas demandas com minhas bandeiras, não tenho tempo para pensar que tenho câncer, ostomia. Não aceito ser vítima da história, a vida não é perfeita para ninguém.

No ano que vem, quero fazer um mestrado sobre PCD (pessoa com deficiência). Gosto mais de mim hoje, essa versão ativista militante da causa PCD.

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