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Minha história

Para pagar promessa pela vida dos netos, ela levou cruz de 42 kg por 90 km

Neide Aparecida da Silva com a cruz que pesa 42 kg - Arquivo pessoal
Neide Aparecida da Silva com a cruz que pesa 42 kg Imagem: Arquivo pessoal

Neide Aparecida da Silva, em depoimento para Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL

16/08/2021 04h00

"Meus netos Davi e Samuel são gêmeos e nasceram prematuramente aos cinco meses e 15 dias de gestação, em 6 de junho de 2015. Se eu conto essa história para você hoje é porque estão vivos.

É que prometi que, se eles sobrevivessem e completassem cinco anos, iria percorrer a pé 96 quilômetros de Mandaguari, até o Santuário de Santa Rita de Cássia, em Lunardeli, no Paraná. Consegui cumprir essa promessa, em 17 de julho.

Quando os dois nasceram, ficaram por 90 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) da Santa Casa de Maringá, onde tinha atendimento especializado, e os médicos sempre falavam que ambos não aguentariam porque não vieram ao mundo com a formação completa.

Só que sempre fui confiante de que conseguiriam superar isso e acreditei em um milagre a ser intercedido pela Nossa Senhora Aparecida e, principalmente, por Santa Rita de Cássia. Prometi que, se os dois sobrevivessem, eu iria a pé até Lunardeli, com uma cruz de madeira.

Pandemia adiou pagamento de promessa

Depois de mais de 100 dias entre UTI e enfermaria, meus netos receberam alta e completaram cinco anos em 2020, mas devido a pandemia, não pude pagar a minha promessa no ano passado. Fiquei com isso na cabeça, sempre pedindo a Deus que me proporcionasse saúde para poder cumprir o que havia prometido pela vida deles.

Eles fizeram seis anos em 6 de junho deste ano, mas infelizmente tive que adiar em mais de um mês o percurso porque fui acometida com a covid-19. Fiquei muito ruim de saúde. Os médicos me monitoravam pelo celular e até orientaram para que eu procurasse atendimento mais especializado, porém decidi me cuidar em casa.

Eu me perguntava como iria cumprir essa promessa, já que estava doente. Não queria morrer sem realizar o que havia me comprometido. Consegui me recuperar e o dia chegou. Foi em 17 de julho, quando dei início à peregrinação e nada mais faria adiar.

O dia foi castigado com uma chuva muito forte. Algumas amigas da igreja até me questionaram se daria para ir. Para mim, não era problema porque tinha que fazer o percurso e precisava cumprir minha promessa.

Iniciei e logo no início, na estrada, fiquei toda molhada, dos pés à cabeça, mas não senti nenhum cansaço. A cruz parecia que tinha o peso de uma laranja.

Meu filho me ajudou, me acompanhando no percurso em um carro, com os mantimentos. Saí apenas com um travesseiro, cobertor, gois galões pequenos com água de coco, maçã e banana.

A peregrinação

Saí umas 10h20 de Mandaguari e andei 32 quilômetros no primeiro dia até chegar em Bom Sucesso, já no período da noite.

Ao chegar à primeira parada, na cidade, me surpreendi porque muitas pessoas estavam me esperando, apesar de eu não ter contato isso para quase ninguém, com exceção dos amigos. Só que acabou se espalhando e muitos começaram me abraçar, me dando força. Aquilo meu deu um gás.

A minha intenção era de dormir em um posto de combustível e tomar um banho lá mesmo, mas arrumaram uma pousada de graça e até fizeram uma janta. Só não aceitei a comida porque o meu percurso deveria ocorrer em jejum. Comia apenas as maçãs e bananas.

No sábado, sai umas 10h. O percurso programado era de 28 quilômetros e com o passar da caminhada, já tinha repórter me seguindo, gente dos municípios à beira da estrada me dando apoio, fiéis pedindo para colocar fotos dos parentes na cruz e até um pai solicitando que o filho tocasse nela.

Parei nesse dia somente umas 22h porque tive que parar bastante ao longo da estrada para atender quem queria colocar imagem na cruz. Teve uma pessoa até que colou dois cigarros para ajuda-la a parar de fumar.

Só não andei mais porque parei num posto da PRF (Polícia Rodoviária Federal) e não permitiram mais que continuasse. Os agentes avaliaram que a estrada estava perigosa à noite.

No terceiro dia, menos 7 kg

Estava muito cansada no segundo dia. Me desidratei tanto que emagreci sete quilos nessas 30 horas de caminhada ao longo dos três dias.

No domingo, dia 19, estava programado para que eu encerrasse o percurso. Para isso, precisava sair ainda de madrugada de São João do Ivaí, onde passei a noite. Fiquei com medo de não conseguir cumprir, mas levantei às 4h15 da manhã, peguei minha cruz no posto da PRF e segui.

No trecho desse dia, encontrei cobra atravessando o asfalto, cachorros e outros animais na estrada. Não poderia parar. As calças estavam caindo e as pernas bambas. Pedi força a Deus.

Por volta de 10h40, cheguei a Lunardeli, sem aguentar mais porque estava muito cansada. Fiquei sem palavras quando cheguei. Foi como se tivesse pagado a última parcela de uma dívida grande. Estava muito feliz porque pagava pelo que pedi com a minha fé, que era a vida dos meus netos.

Não aguentei ficar em pé quando cheguei. Literalmente, tirei um peso das costas, carregava sempre no ombro esquerdo porque não poderia colocar no direito por ter problemas nele.

Meu ombro ficou inflamado, feriu um pouco, mas não foi nada demais. Nada que pudesse ser maior que minha vontade de concluir o percurso.

Eu quis mostrar que não devemos perder a fé. Precisamos acreditar porque hoje, mesmo toda a dificuldade que passo com meus netos, estou tocando a vida.

Meus netos são órfãos de pai desde os dois meses, após meu ex-genro falecer em um acidente de trânsito. Vivemos de uma pensão-morte de R$ 1.300 por mês. O Davi tem problemas da paralisia devido à hidrocefalia e usa cadeira de rodas. Já o Samuel é autista e toma remédio. Ainda assim, acordados felizes de manhã cedo para assistir TV e não perdemos a fé que dias melhores virão ao longo desse tempo.

A próxima promessa a ser paga é caminhar até a cidade de Aparecida, em São Paulo, se o Davi conseguir falar. É importante para o próprio bem dele dizer algumas palavras, quando está com fome, sede e falar o que sente.

Minha ideia é levar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em uma mochila e seguir caminhando de Mandaguari até Aparecida. São 780 km, mas nada impossível para uma avó que luta pelos netos.

Neide Aparecida da Silva, 52 anos, dona de casa.

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