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Monica Iozzi: 'É leviano não se posicionar diante do genocídio que vivemos'

A atriz e apresentadora Monica Iozzi terá um programa no Canal Brasil. Ppolítica será tema central de "Fale Mais Sobre Isso" - Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix
A atriz e apresentadora Monica Iozzi terá um programa no Canal Brasil. Ppolítica será tema central de "Fale Mais Sobre Isso" Imagem: Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix

Laís Rissato

Colaboração para Universa

16/08/2021 04h00

Falar de política é assunto corriqueiro na vida de Monica Iozzi desde a infância. Em 1989, aos 8 anos, ela era uma ferrenha defensora do então candidato à presidência Fernando Collor de Mello, que disputava os votos com Luís Inácio Lula da Silva. "Discutia com uma amiga com quem estudei até a oitava série, e me lembro muito bem porque ela era a favor do Lula e me arrasava, acabava comigo", diz, entre risos, a atriz e apresentadora de 39 anos.

Em outubro, Monica deve estrear o programa "Fale Mais Sobre Isso", no Canal Brasil, que tem, claro, a política como tema central. Em setembro começa a filmar, a comédia "Novela", da Amazon Prime Video. Ela será a protagonista, Isabel, uma roteirista de que sonha em escrever para o horário nobre da TV, mas é traída por seu chefe.

Monica ficou conhecida do grande público quando foi integrante do programa CQC - Custe o que Custar, da Band, entre 2009 e 2014, e viveu o dia a dia da política brasileira de forma intensa pelos corredores do Congresso Nacional, em Brasília. De lá, trouxe à tona uma figura que, até então, ainda não era totalmente conhecida pelos brasileiros: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). "No início, Bolsonaro começou a entrar mais no nosso radar não pelo discurso de ódio, mas pelo total despreparo.", explica ela, que já lamentou ter dado mais espaço a ele do que gostaria durante sua passagem pelo programa.

Feminista e questionadora, Monica não deixa de dizer o que pensa em suas redes sociais, mesmo depois de ter sido processada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, em 2014, quando fez um post em que criticava o habeas corpus concedido por ele ao médico Roger Abdelmassih, condenado a mais de 173 anos de reclusão por estupro de pacientes. "Não tenho medo do embate, nem de perder seguidores. Minhas redes sociais têm muita coisa sobre o meu trabalho, mas são uma extensão da minha vida. É leviano não se posicionar diante do genocídio que vivemos. Há momentos em que se calar é quase tão grave quanto apoiar tudo isso". Leia a entrevista que Monica concedeu a Universa a seguir:

UNIVERSA - Você falou em uma entrevista que quem mais deu voz ao presidente Jair Bolsonaro no passado foi o CQC, e que se arrependeu de ter falado tantas vezes com ele. Escolhia entrevistá-lo pelas opiniões polêmicas?
MONICA IOZZI - O CQC tinha um caráter extremamente irônico, eram raras as ocasiões em que a gente marcava entrevistas. Lá no Congresso, o trabalho era basicamente ficar umas 10, 12 horas em pé, nos corredores, falando com quem passava.

O Bolsonaro sempre foi uma pessoa do baixo clero, nunca tinha apresentado nenhum projeto relevante e se elegia com discursos extremamente conservadores e reacionários. Como ele sempre gostou de aparecer, não era difícil falar com ele. No início, entrou nosso radar não pelo discurso de ódio, mas pelo total despreparo.

Ele não tinha condição nenhuma de estar num cargo como aquele, de deputado federal à época, porque tudo o que a gente perguntava, ele errava, não fazia a menor ideia ou respondia de maneira grosseira. Depois, eu mostrava o que ele falava mais em um tom de denúncia, Ele já disse, e isso foi ao ar, por exemplo, que o SUS não deveria bancar o tratamento pra pessoas soropositivas, porque se você pegou HIV, você não presta. Ele achava que os grupos de extermínios faziam um favor à sociedade, defendia tortura, enfim, atrocidades.

De certa forma, se sente responsável pela enorme visibilidade que ele ganhou até chegar à presidência?
Olha, seria bem prepotente achar que eu tenho essa responsabilidade, até porque o cara já estava lá há mais de 20 anos. Mas eu me questiono sim, fazia aquilo com a melhor das intenções, pra mostrar que esse tipo de parlamentar não pode ser eleito.

Bolsonaro só não deu um golpe ainda porque não tem apoio necessário para isso. E eu nunca imaginei que estaria dando um megafone na mão de alguém que uma parte da sociedade abraçaria os mesmos ideais.

O Bolsonaro tinha que ter saído preso depois do voto dele no impeachment da Dilma. Não por ele ter votado "sim", mas pela justificativa [Bolsonaro exaltou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura militar]. Mesmo que a gente queira denunciar, não seria melhor a gente não dar voz a esse tipo de discurso? Ainda não tenho essa resposta.

"Não tenho medo do embate, nem de perder seguidores", diz Monica sobre se posicionar politicamente - Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix - Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix
"Não tenho medo do embate, nem de perder seguidores", diz Monica sobre se posicionar politicamente
Imagem: Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix

Desde 2013, com as manifestações de Junho, a política se tornou um assunto recorrente no país. Acha que, mesmo assim, o brasileiro ainda se interessa pouco por política?
As paixões começaram a ser inflamadas ali em 2013, as manifestações fizeram com que as pessoas se colocassem mais, mas não me parece que muita gente começou a estudar e a pesquisar isso a fundo. Temos uma cultura de nos guiarmos por manchetes, e ninguém para pra ler, avaliar o que está sendo dito nas notícias. Com o advento das fake news, isso fica ainda mais claro.

Assim como estamos debatendo muito sobre política, abriu-se espaço também para falar sobre machismo, feminismo, direito das mulheres e assédio. Você já foi assediada?
Sim, mas nunca no meu ambiente de trabalho, por parte de colegas ou chefes. Às vezes que aconteceram foram em Brasília, mas como a câmera estava ligada, a coisa não era tão agressiva. Nos bastidores, os assessores, ou o próprio político na entrevista falava "ah, você tá louca", algo que não falaria para homens.

Mônica Iozzi leva cantada de José Serra durante entrevista para o "CQC" - Reprodução/Band  - Reprodução/Band
Mônica Iozzi leva cantada de José Serra durante entrevista para o "CQC"
Imagem: Reprodução/Band

Uma vez, falando com o José Serra em uma cobertura da campanha eleitoral, ele não me respondia, ficava fazendo gracinha, me paquerando. Foi uma saída que ele achou e, se fosse com algum dos meninos, ele não se sentiria à vontade para fazer isso. Também já ganhei presentes, como joias e flores, com cartões dizendo que eu era mais bonita pessoalmente. Mas eu nunca sabia se o cara estava realmente dando em cima de mim ou se queria que eu pegasse mais leve nas entrevistas. Ah, e só pra deixar claro: eu não fiquei com essas joias!

Em novembro você faz 40 anos. As mulheres são julgadas por envelhecer e mostrar as marcas do tempo cada vez mais jovens. Você já sofreu com o etarismo de alguma forma?
Por enquanto não, mas é provável que isso comece a acontecer.

Eu não tenho medo de envelhecer, aliás, acho que estou no melhor momento da minha vida em vários sentidos, me sentindo realizada, gata pra car@lho, então, estou muito bem com isso.

Mas é notório, como atriz, o quanto os papeis interessantes vão diminuindo com a idade, mas isso não me preocupa tanto, porque acho que o meu trabalho não é tão diretamente ligado à aparência.

a atriz e apresentadora Monica Iozzi - Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix - Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix
Esse ano, Monica completa 40 anos: "Não tenho medo de envelhecer, aliás, acho que estou no melhor momento da minha vida em vários sentidos", diz.
Imagem: Foto: Gustavo Arraes Styling: Cristian Heverson Make: Pablo Félix

Nas Olimpíadas de Tóquio, de dez treinadores, apenas uma era mulher. Nas eleições municipais do ano passado, tivemos 7.816 vereadoras frente a 50.099 vereadores. O que falta para que a representatividade feminina aumente em todos os setores da sociedade?
Durante séculos esses foram lugares ocupados só por homens, e nós fomos impedidas, via legislação, de estarmos ali. Estamos em um país em que a maioria da população é de mulheres, pessoas pretas e pardas, e a representatividade delas é extremamente pequena. Há leis que estão começando a fazer esse trabalho, mas isso ainda está muito no começo, e nós temos que prestar atenção, porque os direitos conquistados estão sempre em risco. Temos que apoiar as mulheres independentemente da área em que estejam.

Este ano, comemoramos os 15 anos da Lei Maria da Penha e, ao mesmo tempo, também houve uma queda no orçamento federal para políticas públicas voltadas às mulheres. Além disso, você já declarou que o ambiente político, no geral, é um lugar violento. Como o Brasil pode se tornar um país mais seguro para as mulheres?
Tudo tem que ser mudado. A gente tem uma legislação incrível para defender as mulheres, mas mesmo assim, o Brasil está entre os países que mais nos mata. É necessário ter uma rede de apoio para que as mulheres denunciem seus agressores e sigam com a vida, porque é difícil os homens ficarem presos durante o tempo determinado pela lei.

Eu também não acredito que só a punição vá resolver. Eles precisam ser ensinados a lidar com suas frustrações, a entender o que gera esse ciclo de violência.

Muitas mulheres às vezes não saem de uma relação porque dependem financeiramente do agressor e querem só que esse ciclo de violência pare.

Como surgiu a ideia de fazer um programa sobre política?
Eu já pensava sobre isso há bastante tempo, quando surgiu o convite do Canal Brasil. O André Saddy, chefe do canal, disse que gostava muito do meu trabalho, e foi um convite bem aberto, com uma liberdade grande, e isso me deixou feliz. Minha vontade era debater política para que todo mundo entenda sobre o que estamos falando, porque na época do CQC, percebi que existia um desinteresse do público de maneira geral por esse assunto, porque a maioria acredita que a política é uma engrenagem falida, todo mundo é corrupto, e falta conhecimento sobre os mecanismos mais básicos do fazer na política. Então, a ideia é fazer com que entendam minimamente esses mecanismos básicos.

Você já disse que se interessa por política desde criança. De que forma o assunto entrou na sua vida?
Quando eu era pequena, tinha curiosidade para assistir o horário eleitoral, achava tudo aquilo um pouco estranho. Havia uma coisa de espetáculo e uns personagens muito estranhos de vez em quando, tomava uns sustos com o Enéas [o político Enéas Carneiro, morto em 2007] por exemplo, e aquilo me chamava a atenção. Na escola, lembro de falar bastante, principalmente na época da eleição entre o Lula e o Collor, e o quanto as crianças eram inflamadas para aquele debate. E eu defendia o Collor fervorosamente (risos).

Você fez algumas perguntas aos seus seguidores no Instagram, para que eles te ajudem a construir as pautas do seu novo programa. Uma delas foi: "Se você pudesse mudar qualquer fato da nossa história, qual seria e por quê?". Qual é o seu?
Com certeza absoluta eu deletaria a escravidão, porque muito da desigualdade social, do preconceito e da violência tem a ver com isso. Fomos o último país do mundo a acabar com a escravidão, existiu todo um trabalho de branqueamento da população, trazendo os imigrantes europeus para cá com uma série de privilégios. A população negra foi impedida de comprar terras, de ter acesso à educação... E isso traz efeitos terríveis até hoje.

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