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"Sou tatuadora de cicatrizes e ajudo mulheres a recuperar a autoestima"

Raquel Gauthier faz tatuagens sobre cicatrizes e ajuda em autoestima de mulheres - Divulgação
Raquel Gauthier faz tatuagens sobre cicatrizes e ajuda em autoestima de mulheres Imagem: Divulgação

Raquel Gauthier em depoimento para Claudia Dias

Colaboração para Universa

15/08/2021 04h00

"Desde que me tornei tatuadora, há cerca de três anos, tentava me encontrar em um estilo. Já fiz muitos, só que nenhum deles chegava ao ponto de pensar: 'É nisso que vou focar'. Mas vinha percebendo que tudo ligado ao emocional fazia me sentir mais viva.

Não sei explicar o sentimento em palavras, mas poderia dizer que fazia uma tatuagem que não significava nada para a pessoa e, no final da sessão, me via cansada. Porém, quando era algo emocional, sentia que aquilo era para mim também. E foi quando comecei a tatuar cicatrizes que me encontrei no que estava procurando há anos.

Hoje, defino meu trabalho como uma profissão afetiva. Tatuo sentimentos e emoções. E tenho sempre que estar preparada psicologicamente para as histórias que ajudo a transformar.

"Não quero apenas tatuar; quero transmitir minha energia"

tatuagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Antes de colocar na pele, há o processo de criação da arte da tatuadora
Imagem: Arquivo pessoal

A maior parte dos clientes é formada por mulheres, pelo fato de trabalhar com tatuagens vistas como delicadas. Sinto que falta isso em muitos estúdios, onde a proposta de cobertura de cicatriz costuma ser grosseira ou pesada — e nem toda mulher gosta desse estilo.

Mas não é só isso. Não quero apenas tatuar: quero transmitir um pouco da minha energia para as clientes. Quero que elas saibam que tem alguém que se preocupa e entende suas dores e vai ajudá-las, de alguma forma, nesse processo de cura, 'ressignificando', dando outro sentido àquela cicatriz que tanto incomoda.

Cada cliente tem um jeito especial. Algumas chegam quietinhas e até com vergonha de mostrar a cicatriz. Além de terem a autoestima abalada, carregam um trauma naquela cicatriz, às vezes, um trauma bem pesado. Toda pessoa tem algo para contar e não dá para comparar marcas ou mesmo histórias, porque cada uma sente de uma forma o que carrega.

Ao trabalhar com cicatrizes, estamos lidando com algo muito pessoal e aprender a entender a dor da cliente é essencial. Por isso, acolhemos, temos empatia e ouvimos depoimentos muito íntimos e até que nunca foram contados a mais ninguém.

Boa parte das histórias por trás das cicatrizes envolve autoestima e autoaceitação e algo até bem mais profundo. Muitas vezes, trazem situações que as mulheres queriam apagar da mente, mas não conseguiam, vendo a cicatriz que trazia toda a lembrança ruim.

Então, além de tatuar, me preocupo em acolher. É um trabalho bem humanizado. Também gosto de humanizar meu Instagram, que é a rede que traz a maioria dos clientes. Ali, posso expor a forma como trabalho, desde o primeiro atendimento, que é quando entendemos a cicatriz e sua história, até a parte em que criamos a arte e a deixamos prontinha.

"Depois de terminar um relacionamento, investi na micropigmentação"

As pessoas se impressionam com o fato de que tatuo há pouco tempo e, mesmo assim, tenho um traço bastante delicado. Em 2016, cursei estética no Senac, por influência do meu pai, logo após me assumir homossexual. À época, ele quis me direcionar para algo mais feminino e delicado. Tive muitos aprendizados nas aulas, inclusive sobre tecidos da pele.

Depois do curso, atuei em algumas clínicas, com massagem corporal, limpeza de pele, mas sentia que aquilo era não era pra mim. Então, comecei a trabalhar em restaurantes como garçonete, apenas para ganhar dinheiro. O tempo inteiro pensava no que poderia fazer para me encontrar numa verdadeira e apaixonante profissão.

Em 2017, conheci uma pessoa em Minas Gerais, larguei toda minha vida na capital para morar em uma pequena cidade mineira. Fiquei sem trabalho durante sete meses, só me dedicando ao violão e à meditação - me imaginava totalmente realizada na minha área, mas nem sabia qual área seguir.

Até que tive a ideia de fazer um curso de micropigmentação de sobrancelhas, que também era algo estético, mas menos delicado - já que a micropigmentação na sobrancelha nada mais é do que uma tatuagem. A ideia era abrir um negócio no interior.

Voltei para São Paulo para o curso e, nesse rápido intervalo de tempo, o relacionamento acabou. Fiquei muito triste mas encontrei ânimo para fazer algo novo. Ao começar a atender clientes da micropigmentação, tive vontade de usar a tinta da sobrancelha na minha pele, em algum desenho. E foi aí que não tive mais dúvidas: tatuar peles com desenhos era a minha área!

"Com trabalho em tatuagem, recuperei minha paixão por desenhar"

Sempre achei um corpo tatuado muito bonito e, de certa forma, me chamava a atenção, mas jamais pensaria que eu me tornaria a pessoa que iria fazer as tatuagens. Só que tudo foi acontecendo e dando certo...

Deixei a micropigmentação e comecei a atender clientes de tatuagem. Havia um quartinho de bagunça na casa dos meus pais, que arrumei e pintei para fazer os atendimentos. Foi meu primeiro estúdio, tudo muito caseiro e improvisado, mas era o que eu tinha pra começar - e começou de uma forma linda!

Me aprofundei do jeito que podia nos estudos sobre tatuagem. Via todas as aulas gratuitas que encontrava no YouTube e só precisava de pele para treinar. No começo, cobrava só o custo do material para conhecerem meu trabalho.

A micropigmentação me ajudou bastante nesse processo. Na minha concepção, começar pelo rosto é uma tremenda responsabilidade e fazer traços finos é muito, mas muito difícil, e foi justamente isso que me deu mais segurança e conforto para atender clientes da tattoo.

Trabalhando com a tatuagem, também deixei aflorar outra paixão da infância. Eu desenhava muito quando criança e até competia com meus irmãos, todos homens, sobre quem fazia o mais bonito. Tinha esquecido o desenho na adolescência e agora, na fase adulta, ele voltou para dizer que sempre fez parte da minha vida.

"Cada cicatriz tem suas características"

tatuagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Da micropigmentação as tatuagens "afetivas", trabalho de Raquel ganhou outro significado
Imagem: Arquivo pessoal

A técnica é diferente porque não envolve uma pele lisa. Cada cicatriz tem suas características e é preciso fazer uma análise antes de tatuar. Além do mais, durante a tatuagem, a profundidade precisa ser mais leve do que em uma pele íntegra.

Quando avaliamos a arte para uma cicatriz, levamos em consideração alguns fatores, como: textura, tonalidade e local, porque vamos criar algo harmônico e delicado.

As tatuagens que mais executo são nos braços, pernas e na barriga e as mais frequentes são cicatrizes de apendicite, estrias, automutilação, abdominoplastia, queimaduras e marcas de uso de fixadores externos.

As mais difíceis de tatuar são de queimadura, porque enruga a pele, e abdominoplastia, porque as marcas são grandes, escuras e na horizontal. Como precisamos seguir a anatomia do corpo, temos que desenvolver um desenho que não marque ainda mais a região e que fique harmônico.

A maior parte das minhas tatuagens inclui flores, que resultam em um trabalho bem sensível. Gosto muito de flores, assim como grande parte das mulheres.

Além de conseguirem disfarçar uma cicatriz muito bem, com os detalhes agregados, cada uma delas traz uma simbologia. Assim, conseguimos dar um significado a mais para a arte, de acordo com o que a cliente quer transmitir quando cobre sua marca.

"Me emociono com as histórias das clientes"

Quando uma cliente chega bem traumatizada, ela tem a liberdade para se abrir e conversar durante a sessão, geralmente demorada. Se ela começa a compartilhar o que há por trás da cicatriz, eu já aviso que sou uma tatuadora muito chorona. Acabo me emocionando com muitas histórias.

Uma das que mais me marcaram é de uma cliente de 36 anos que, aos 13, foi atropelada no quintal de casa por um carro desgovernado. Seu corpo ganhou várias cicatrizes e, a partir daquele dia, sua vida nunca foi a mesma. Ela só foi usar blusa que mostrasse partes do corpo depois de ter feito a tatuagem.

Outra cliente teve uma hemorragia interna ainda bebê. Quase faleceu com o sangramento e passou dias na UTI, após cirurgia para limpeza dos órgãos e fechamento das veias que tinham estourado. Foi um período muito difícil para a família, pois os médicos achavam que era decorrência de agressão.

Seus pais se dividiram entre o hospital e a delegacia, para provar a inocência. Ela cresceu sem conviver bem com as cicatrizes, sabendo dos acontecimentos tristes por trás. Além disso, histórias de automutilação sempre me impactam bastante.

"Crio as artes junto com minha esposa"

tatuagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raquel e Margarita estudam opções de desenho para a tatuagem sobre marca de abdominoplastia
Imagem: Arquivo pessoal

Sou casada com Margarita Sultanova, que é russa e uma pessoa incrível! Além de ser minha motivação, ela é minha amiga e companheira de trabalho. Está o tempo inteiro analisando as tatuagens comigo e pesquisando sobre novas técnicas e evolução no design.

Criamos as artes juntas, antes de apresentarmos as ideias às clientes. Precisamos ser bem fiéis uma à outra na hora da criação, porque nem sempre uma de nós está totalmente certa, o que exige flexibilidade e compreensão. Há uma conexão muito grande entre nós, porque precisamos estar em sintonia e firmes na parceria, já que são duas cabeças focadas em uma única finalidade.

Sempre procuramos conversar, antes e depois de recebermos clientes em nosso estúdio, para analisarmos como foi o dia e o que podemos fazer para melhorar.

Durante o processo de criação das tatuagens, prometemos uma à outra que não vamos finalizar uma arte se estivermos com dúvidas sobre algo. Só finalizamos quando nós e a cliente entramos em acordo de que tudo está certo. Ao lado dela, posso afirmar que meu maior sonho está sendo realizado, por estar sendo reconhecida pelo meu trabalho afetivo. Mas já existe um novo, que é ser reconhecida mundialmente." Raquel Gauthier, 24 anos, tatuadora, de São Paulo (SP)

Antes e depois: desenhos que marcam na pele

Confira o resultado de algumas tatuagens sobre cicatrizes. A maioria delas carregava histórias tristes e, segundo as clientes, deram outro sentido para a marca na pele: