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"Com covid, passei por cesárea em coma e depois não reconheci bebê"

Milena, com ajuda da mãe, segura a filha Helena pela primeira vez - Unimed de Catanduva
Milena, com ajuda da mãe, segura a filha Helena pela primeira vez Imagem: Unimed de Catanduva

Milena de Brito em depoimento a Júlia Flores

De Universa

14/08/2021 04h00

"A primeira vez que vi a Helena, não conseguia reconhecer aquele bebê como minha filha. Quando eu estava grávida de seis meses, contraí covid-19 e meu quadro evoluiu para uma entubação —fiquei de 17 de junho a 27 de julho em coma, internada em um hospital privado de Catanduva, no interior de São Paulo.

No dia 2 de julho, a equipe médica decidiu realizar uma cesárea de emergência. Só pude ter contato com ela quase um mês depois do parto. Como ainda estava atordoada com a situação, foi difícil criar uma conexão com ela, não parecia real.

A Helena nasceu prematura, abaixo do peso e teve uma infecção pulmonar, por isso ela ainda está internada na UTI. Nos vemos diariamente às 10h da manhã, através de vídeo chamada. Presencialmente, cheguei a ir ao hospital três vezes para visitá-la, mas pude segurá-la no colo uma vez —e foi assim que consegui a identificá-la como minha filha.

Lembro desse momento com muita emoção. Tive complicações físicas e estou debilitada até hoje, minha mãe teve que segurar os meus braços para que eu tivesse força.

Contaminação

Comecei a sentir os sintomas de covid em 15 de junho. Meu esposo é enfermeiro, foi ele quem contraiu e me passou. Como ele já tinha tomado a vacina, não teve sintomas fortes e em quatro dias estava recuperado. Eu, por outro lado, apresentei um quadro grave da doença.

Não lembro direito de como foi o dia da internação. Só lembro que a última pessoa com quem falei foi o meu cunhado. Estava triste e desesperada, sem saber o que ia acontecer, se eu e minha filha iríamos ou não sobreviver. Depois eu não lembro de mais nada.

Se as pessoas não tivessem me contado tudo o que aconteceu, pareceria que eu tinha dormido e acordado de um sonho longo

Enquanto estava internada, em coma, minha mãe mobilizou a família e amigos para que eles mandassem áudios e se comunicassem comigo... Não lembro de nada disso. Ela conta que isso fazia bem para a minha saúde e que se, por exemplo, eu estivesse com a pressão instável, eu melhorava depois de ouvir áudios de conhecidos falando comigo.

Recebi áudios inclusive no dia em que realizei a cesárea de emergência. A equipe avaliou que eu tinha apresentado uma certa estabilidade clínica e que era a hora de fazer o parto. Antes disso, eles chegaram a falar para minha família que eles deviam escolher quem sobreviveria: ou eu ou a Helena.

"A psicóloga me obrigou a pegar minha filha no colo"

No começo, era muito difícil de identificar a Helena como minha filha. Cheguei a visitar a UTI outras três vezes sem a segurar. A psicóloga teve que 'me obrigar' a pegá-la no colo.

Sempre que eu pisava na UTI, a Helena se mexia, parecia sentir minha presença, mas mesmo assim eu não conseguia reconhecer a bebê como minha filha

Como eu apresentei muitas sequelas físicas da covid e sigo fazendo fisioterapia para recuperar movimentos e a respiração, não tinha força para segurá-la. Minha mãe teve que vir por trás de mim para me ajudar.

Do lado de fora da sala da UTI, a equipe médica me esperava com equipamentos, caso eu precisasse de ajuda. Todos eles choraram e se emocionaram com o momento. Eu também me emocionei, fiquei sem ar e tive que ir embora.

Sequelas

Meu marido, o Anderson, está mais tranquilo agora, depois que eu saí da UTI. A gente está morando em casas separadas, devemos ficar assim por mais algum tempo, até que eu e Helena fiquemos bem, nos vemos pela janela, à distância. No Dia dos Pais, ele foi à UTI e conversou com a Helena: foi a primeira vez que ela abriu os olhinhos.

Ainda não tive a oportunidade de amamenta-la, estou muito fraca e debilitada. Perdi o movimento da cintura para baixo. Sinto as pernas, mas não consigo me sustentar. Também tenho dificuldades de memória, e a covid deixou sequelas na minha visão.

Estou emocionalmente abalada. Às vezes, do nada, começo a chorar. Me sinto mal porque não consigo fazer coisas simples, como alguns exercícios de puxar o ar. Fico muito cansada até de levantar

Apesar de tudo, não paro de pensar nela, o enxoval está pronto e quero que o berço fique do lado da minha cama. Quero poder ficar observando ela o tempo todo. Pode ser excesso de cuidado, mas quero ter certeza de que ela está respirando. As coisas não estão fáceis, só que eu sei que vai passar, basta lutar."

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