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'Somos um casal trans e realizamos o sonho de ter uma filha biológica'

Fabiana dos Santos, 28, e Cleyton Bittencourt, 26, auxiliar administrativo, com Álex - arquivo pessoal
Fabiana dos Santos, 28, e Cleyton Bittencourt, 26, auxiliar administrativo, com Álex Imagem: arquivo pessoal

Fabiana dos Santos, em depoimento a André Aram

Colaboração para Universa

10/08/2021 04h00

"Sou uma mulher trans, nasci biologicamente um menino, e o Cleyton (meu marido) biologicamente era uma menina. Hoje nós somos transexuais e fazemos uso de hormônio para mudar as nossas características, porque nós não éramos felizes com aquela aparência que nós tínhamos no passado, eu como menino e ele como menina. Estamos juntos há 2 anos, nos conhecemos pelo Instagram e somos pais da Álex, nossa filha biológica de 3 meses.

Para que a gravidez fosse possível, nós ficamos 6 meses sem poder tomar hormônios, principalmente o Cleyton por causa da gestação, apesar de termos interrompido a transição, ele só foi ovular após 4 meses porque tinha um tempo de hormonização ainda, e durante esse recesso muitas coisas mudaram como a voz por exemplo, mas fizemos isso porque queríamos muito ter um bebê, seguimos todos os protocolos de saúde e tudo transcorreu bem.

O desejo de ser mãe veio aos 24 anos, quando eu senti vontade de construir uma família, apesar da mentalidade do ser humano ainda ser pequena infelizmente, às vezes por ignorância ou falta de conhecimento, já ouvi coisas do tipo 'você é uma mulher trans, então você deveria ficar com um homem cis, que tenha uma genitália masculina', mas identidade de gênero e orientação sexual são duas coisas diferentes, você pode ser uma mulher trans e gostar de mulher, eu tento explicar de uma forma clara para que as pessoas não tenham dúvidas e consigam entender os lados.

Felizmente não tivemos nenhuma represália dos nossos familiares em relação a ter um bebê, e fomos bem atendidos na rede pública de saúde, porque foi tudo pelo SUS (Sistema Único de Saúde), e quando iniciamos o pré-natal era um rapaz que sempre dizia que se errasse algum termo, era porque estava ainda aprendendo, que era algo novo para todos eles ali, então podemos dizer que não sofremos preconceito nenhum, tiraram as nossas dúvidas e nós, as deles.

Nós morávamos no Morro do Vidigal (RJ) e havíamos pensado antes sobre a possibilidade de ter o parto humanizado em casa, mas desistimos dessa ideia, de todo modo, eu queria apenas mulheres no momento do parto no hospital, porque elas compreenderiam melhor o corpo biológico feminino, digamos assim, e a nossa doula nos indicou uma equipe feminina, então tudo foi conforme o planejado.

casal - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O casal trans Fabiana dos Santos, 28, dona de salão de beleza, e Cleyton Bittencourt, 26, auxiliar administrativo, com a filha biológica Alex, 3 meses; eles moram no Rio de Janeiro
Imagem: Arquivo pessoal

Após deixar o hospital, o Cleyton já começou a amamentar, mas foi difícil no início, porque estava machucando muito o peito dele, então teve que parar a amamentação e tivemos que extrair o leite e dar na mamadeira pra ela, mas ele não deixou de dar o leite, até porque achamos a amamentação muito importante. Nesse meio tempo, eu já voltei a me hormonizar, ele ainda não, pois é necessário fazer alguns exames antes para saber se já pode retomar a transição, mas logo ele fará.

Eu costumo dizer que ser transexual no Brasil é uma luta diária, onde você tem que lutar contra muitos preconceitos, as pessoas não te respeitam, e isso é muito ruim. Há pouco tempo sofri transfobia na rua, um grupo de rapazes me disse 'vira homem', em outra ocasião, me abordaram para perguntar o que eu era, o que eu tinha ou deixei de ter, às vezes te olham feio na rua, mas você tem que saber se posicionar, e quando estamos juntos, ninguém nunca disse nada pra nós.

Na rede social já sofremos discriminação, ameaças; é mais fácil pra eles que escondem o rosto e não mostram quem eles realmente são.

Eu possuo um salão de cabeleireiro em Copacabana, bairro onde também moramos, e atualmente tem acontecido situações onde é nítido o preconceito por parte da locação e isso tem dificultado muito a nossa vida. Temos planos de comprar a nossa casa própria até o ano que vem, esse é o nosso próximo passo, mostrar que nós somos capazes, nos colocar na sociedade, as pessoas não querem respeitar e para você fazer alguma coisa você precisa ter o respeito.

Ser transexual é batalhar diariamente, para estar viva e se manter viva, por isso, nós vamos educar a Álex no mundo real, onde existe a diversidade, onde existem pessoas diferentes, de classes sociais diferentes, mas que ela deverá respeitar a todos e a todas as diferenças, que ela saiba se impor em certas situações de desrespeito que possam acontecer com ela. Queremos criá-la com uma mente aberta, independente da família que ela tenha e independente das escolhas que ela faça, eu espero realmente que ela possa viver no futuro em uma sociedade menos intolerante e mais inclusiva, respeitando o próximo e sendo sempre respeitada."

*Fabiana dos Santos, 28, é dona de salão de beleza no Rio de Janeiro

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