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Bulimia e depressão: vitórias de Michelle e Bruno antes do "beijo olímpico"

Bruno Fratus beija a mulher, Michelle Lenhardt, que também é sua técnica, após o bronze nas Olimpíadas de Tóquio - Satiro Sodré/SSPress/CBDA
Bruno Fratus beija a mulher, Michelle Lenhardt, que também é sua técnica, após o bronze nas Olimpíadas de Tóquio Imagem: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

06/08/2021 04h00

Quando o nadador carioca Bruno Fratus, de 32 anos, subiu ao pódio das Olimpíadas de Tóquio para receber a medalha de bronze nos 50 metros livre, no último sábado (31), protagonizou uma cena cinematográfica: em lágrimas, beijou a mulher, Michelle Lenhardt, de 41, que também é sua treinadora e teve papel essencial na conquista do atleta.

Em entrevista a Universa, ela mesma classifica aquele momento como "cena de final de filme", mas conta que, nos últimos cinco anos, o casal enfrentou alguns obstáculos no caminho até a vitória — entre eles a bulimia de Michelle e a depressão dela e do marido.

Foram cinco anos sendo a treinadora dele, não só a esposa que torcia e sofria. Eu tive um papel importante nessa conquista.

"Mas confesso que, naquele momento, na final, eu não estava sendo a técnica, eu estava sendo a esposa", lembra. "Deixei o lado profissional de lado e ali, naquela prova, fui só emoção. Vê-lo subir ao pódio foi libertador, uma alegria enorme para nós dois".

Michelle e Bruno se beijam após nadador conquistar medalha de bronze, nas Olimpíadas de Tóquio - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Michelle e Bruno se beijam após nadador conquistar medalha de bronze, nas Olimpíadas de Tóquio
Imagem: Reprodução/Instagram

"Entrei em ciclo vicioso de comer e sentir culpa"

Michelle é nadadora desde criança e competiu nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011, onde conquistou medalha de prata nos 4x100m.

Ela se aposentou em 2013, e passou a treinar o marido depois das Olimpíadas de 2016 — naqueles Jogos, Bruno ficou em sexto lugar na colocação final e voltou para casa, na Flórida, sem medalha e sem seu então técnico, que foi contratado para treinar universitários no Alabama.

Michelle Lemhardt conquista medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011 - Flavio Florido/UOL - Flavio Florido/UOL
Michelle Lemhardt conquista medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011
Imagem: Flavio Florido/UOL

Meses antes de assumir a função, Michelle se tornou campeã mundial de bodybuilding, mas a vitória na modalidade que ela descobriu apenas um ano antes desencadeou uma relação nada saudável com a comida.

"Aqui [nos Estados Unidos, onde o casal vive desde 2015] a comida é muito acessível, mas nem sempre saudável, e eu não estava me alimentando bem. Vim para cá acompanhar o Bruno, mas passava o dia em casa, sozinha.

Não dominava muito bem o inglês, não tinha muitos amigos e estava meio perdida. Então eu comia, comia, comia.

Um health coach apresentou o universo fitness à ex-nadadora, recém-aposentada, e sugeriu que ela começasse a competir como bodybuilder. Em um ano, ela se tornou campeã mundial da categoria.

"No café da manhã eu só comia tilápia e vagem. Hoje nem posso mais ver tilápia na minha frente. Eu venci aquela competição à base de passar fome, por conta de uma dieta muito restritiva, e de treinos pesados. Era o foco que eu tinha colocado para ser campeã mundial", conta.

"Quando eu desci do palco, no final da competição, não conseguia parar de comer. Era uma 'recompensa' que eu estava me dando por ter vencido. Fui entrando nesse ciclo vicioso de comer e sentir culpa, comer e sentir culpa, até que comecei a vomitar."

"Hoje não sou obcecada com o corpo. Encontrei equilíbrio"

Na época, Bruno também sofria com a saúde mental, depois da segunda vez disputando uma final olímpica sem subir ao pódio —o atleta ficou em 4º lugar em Londres, em 2012, e 6º lugar no Rio, em 2016.

O trabalho como técnica de Bruno foi o que ajudou Michelle a "se reerguer" e Bruno a focar durante mais um ciclo olímpico até Tóquio, onde foi medalhista.

Michelle se tornou treinadora de Bruno após as Olimpíadas do Rio, em 2016 - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Michelle se tornou treinadora de Bruno após as Olimpíadas do Rio, em 2016
Imagem: Reprodução/Instagram

"Depois das Olimpíadas do Rio, ele tinha perdido todos os patrocínios e eu estava naquele momento pós-competição, enfrentando esses problemas todos", lembra. "Estudar [para se tornar personal trainer e health coach] e trabalhar como técnica do Bruno foi o que me reergueu", lembra.

Quanto mais eu estudava e aprendia, mais eu conseguia me libertar do sentimento de culpa com a comida e de um padrão estético fora da realidade que eu estava me exigindo.

Hoje, ela conta, encontrou um equilíbrio e conseguiu se livrar do sentimento de culpa relacionado à comida. "Não sou mais obcecada com o corpo, entendo que a gente envelhece e o organismo desacelera. Graças a Deus estou muito bem resolvida".

Michelle conta que, no começo, era difícil separar a relação pessoal da profissional — por isso, o casal teve algumas discussões e chegou a duvidar se a parceria atleta-treinadora daria certo.

"O treinador precisa ter um olhar mais técnico, mais frio, e eu tenho o lado companheira. Quando ele compete, sinto frio na barriga, fico nervosa por ele", fala. "Saíam muitas faíscas, muita cara fechada dentro de casa por conta de uma discussão mais dura no treino, mas a gente foi amadurecendo e aprendendo a dialogar, porque no final do dia a gente voltava para a mesma casa, dormia na mesma cama".

Michelle Lenhardt na Vila Olímpica, em Tóquio, enquanto acompanha Bruno nas competições - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Michelle Lenhardt na Vila Olímpica, em Tóquio, enquanto acompanha Bruno nas competições
Imagem: Reprodução/Instagram

"Atleta também tem sentimentos, sofre"

Nos Jogos de Tóquio, depois que a ginasta Simone Biles desistiu de três finais para preservar sua saúde mental, o equilíbrio entre o corpo e a mente dos atletas entrou em discussão.

Para Michelle, o assunto surgiu há mais tempo, desde que o campeão olímpico da natação Michael Phelps se aposentou, em 2016.

"Foi um momento muito marcante e bem próximo da gente, porque era um nadador que estava vindo à tona demonstrar sentimentos semelhantes aos que o Bruno sentiu nos dois períodos pós-Olimpíadas dele: sem chão e sem saber quem é o ser humano depois do atleta."

"São muitas inseguranças. Essas Olimpíadas vieram mostrar que o atleta também é humano, tem sentimentos, sofre", acredita.

Outra discussão relevante dessas Olimpíadas tem sido a sexualização das mulheres esportistas, especialmente depois que a seleção de handebol de praia da Noruega foi multada depois de se recusar a usar biquíni e as ginastas alemãs usaram calça comprida.

"Muitas vezes, e num passado não muito distante, veículos publicavam fotos nossas de costas, na borda da piscina ou saindo na água, de maiô, com uma conotação bem sexual, que nos incomodava. Aí vinham os julgamentos pela beleza e história das musas", lembra. "Isso nos incomodava porque queríamos ser reconhecidas pelas nossas habilidades, não pelo padrão estético."

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