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Mãe de Alagoas luta para sepultar filha após 9 anos buscando por seu corpo

A servidora pública Mônica Dias,  45, de Penedo (AL), luta para sepultar o corpo da filha assassinada há 9 anos; restos mortais foram encontrados em abril - Arquivo pessoal
A servidora pública Mônica Dias, 45, de Penedo (AL), luta para sepultar o corpo da filha assassinada há 9 anos; restos mortais foram encontrados em abril Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa, em Maceió

02/08/2021 04h00

Há nove anos, a servidora pública Mônica Dias, 45, espera dar um enterro digno a sua filha, a estudante Roberta Dias, 18, sequestrada em 14 de abril de 2012. Espera também que os acusados pelo MP-AL (Ministério Público de Alagoas) do assassinato sejam julgados.

Roberta era uma estudante do Ifal (Instituto Federal de Alagoas) e estava grávida quando saiu de casa, em Penedo, para fazer o exame pré-natal. Nunca mais voltou, e uma longa angústia começou. "Nunca deixei de lutar por ela, por justiça", diz Mônica.

Para os investigadores, o crime está esclarecido: foi praticado pela sogra de Roberta, Mary Jane Araújo Santos, e por um amigo de seu filho, Karlo Bruno Pereira Tavares. Eles teriam agido porque a jovem se recusou a fazer um aborto ilegal.
Os dois suspeitos negam a autoria do crime e dizem que vão provar a inocência na Justiça. O namorado de Roberta, à época com 17 anos, não foi denunciado.

Os acusados foram denunciados pelo MP por homicídio qualificado, aborto provocado por terceiro e ocultação de cadáver. O caso está na 4ª Vara Criminal de Penedo, mas não tem prazo para conclusão.

"Minha filha fazia [o curso de] meio ambiente no Ifal e o futuro dela foi cortado por uma gravidez. Como você vai tirar a vida de uma pessoa, culpando um ser inocente que não chegou nem a vir ao mundo?", lamenta Mônica.

Busca pela verdade

Apesar do desaparecimento, Mônica conta que sempre soube que a filha estaria morta, mas nunca perdeu as esperanças de enterrá-la.

O local aproximado do crime ela sabia: um dos acusados gravou um áudio indicando não só como a matou, mas onde: em uma área de Piaçabuçu, município vizinho a Penedo. "Eu ia sempre à praia e ficava imaginando onde é que ela poderia estar enterrada. Passavam navios, eu ficava lá olhando", lembra.

Depois de nove anos de buscas, o mistério sobre o corpo começou a ser desvendado: um crânio foi encontrado em 18 de abril no povoado Pontal do Peba, em Piaçabuçu. O local bate com a indicação feita no áudio.

"Quando acharam esse crânio, lembro bem, era um domingo. Na segunda-feira cedo eu liguei para o IML [Instituto Médico Legal] e perguntei se o crânio era feminino ou masculino. A moça falou que era feminino, aí eu expliquei que eu tinha uma filha desaparecida com indicativo de estar naquela região. Fui lá na terça-feira e perguntei: vocês acharam mais ossos ou só o crânio? A moça falou que, quando [o IML] é acionado, só pega o que está em cima da terra, não tem direito de escavação", conta.

Diante da informação, Mônica decidiu tentar fazer a busca por contra própria para encontrar mais restos do que seria sua filha. No dia seguinte, ela foi com o irmão ao local.

"A gente ia contratar uma retroescavadeira, mas a prefeitura cedeu uma. Na quarta-feira, a gente começou a escavar às 6h da manhã. Daí começaram a aparecer os ossinhos do braço. Quando eu vi a alça do sutiã — que eu reconheci —, eu cai em prantos", recorda.

Eu sabia que ela estava morta, mas acho que não tinha caído a ficha. Uma coisa é você saber, outra é você ver. Mas depois respirei fundo e consegui até a última escavação ficar sem chorar porque eu sabia que eu ia dar um enterro digno à minha filha.

Agora, luta para conseguir enterrá-la

Após três meses de investigação, no último dia 14 o Instituto de Criminalística de Alagoas emitiu o laudo do DNA que confirmou que os restos mortais são de Roberta Dias.

Mas mesmo com a confirmação, Mônica não conseguiu enterrar a filha. A Justiça negou a liberação alegando que são necessários mais exames que ajudem a esclarecer a data e causa da morte da jovem.

Mônica acredita que a confirmação de que a ossada é de Roberta deve ajudar a fortalecer a denúncia. "Eu acredito que, dessa vez, os culpados vão pagar. A Justiça falava que não tinha corpo, ficava difícil acusar as pessoas. Agora temos", diz.

Na terça-feira passada (27), os dois acusados pelo MP seriam ouvidos, mas a oitiva foi remarcada para outubro. O adiamento revoltou Mônica. "Nessa noite não consegui dormir com tanta ansiedade porque depois de nove anos, seria a primeira vez que iam ser ouvidos", fala.

Não sei nem explicar o que sinto. Uma coisa que eu digo é que isso é uma pressão psicológica muito grande. Meu psicológico não está mais aguentando. Estou tomando remédio de depressão porque a ansiedade está demais. Já aguentei nove anos de impunidade sem achar os mortais da minha filha porque vivo. Eu sabia que ela não estava viva. E quando eu consegui achar ainda ter que aguentar essa tortura. Eu espero que essa tortura seja de vitória.

O desaparecimento

Um dia antes de Roberta desaparecer, conta Mônica, a mãe do namorado dela esteve na sua casa. "À noite, ela chegou chamando a Roberta para ir para ir à farmácia [tomar um coquetel abortivo], e ela não quis. No outro dia, Roberta foi fazer o exame de pré-natal e não voltou mais. Ele passou várias mensagens para ela dizendo que, quando ela fosse para o médico, iria se encontrar com ela e que não era para dizer a mim, nem a ninguém", lembra.

Segundo Mônica, Mary Jane dizia que não estava preparada para ser avó, que a gravidez iria "destruir o futuro do filho dela porque ele era novo". "Ela me disse que não tinha para quê ter filho naquela idade, como se a minha filha não tivesse futuro pela frente, como só o filho dela tivesse futuro", diz.


A Universa, o MP-AL informou que a demora no caso ocorreu porque a Polícia Civil só concluiu o inquérito em 2018, depois de cobranças da promotoria.

Em sete de agosto, o MP-AL denunciou os dois suspeitos. No processo, arrolou 16 pessoas para serem ouvidas no processo (oito testemunhas e oito declarantes), fora isso houve as testemunhas arroladas pela além daquelas testemunhas que foram convocadas pelo juiz.

Com a pandemia, diz o órgão, algumas audiências foram suspensas, até que foi criado o mecanismo de audiências virtuais.
O processo, porém, está próximo de conclusão: o depoimento dos acusados serão os últimos. Em seguida, abre-se o prazo para as alegações finais de defesa e acusação, e o juiz decidirá se pronuncia ou não os acusados pelo MP-AL.

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