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'Já pedi para meu pai ligar na hora': elas mentem para fugir de date ruim

"Inventei que meu celular tinha quebrado e tive que apagar o WhatsApp para sustentar a mentira", conta Mayara - Arquivo pessoal
"Inventei que meu celular tinha quebrado e tive que apagar o WhatsApp para sustentar a mentira", conta Mayara Imagem: Arquivo pessoal

Júlia Flores

De Universa

28/07/2021 04h00

Ok, você combinou de sair com um desconhecido que encontrou na internet. Gastou seu tempo escolhendo a roupa, fuçando as redes sociais dele/dela, indo até o local de encontro e quando chegou lá... a química não bateu. Acontece que, por constrangimento ou insegurança, você não consegue dizer para a pessoa que quer ir embora. O que fazer então?

Na nova série da Netflix "Geração 30 e poucos", o protagonista Daniel passa por uma situação semelhante a do início do texto. A saída encontrada pelo personagem para fugir do encontro - alerta spoiler! — é pedir ajuda aos amigos, que interrompem o date com uma ligação.

Mentir para fugir de um encontro não é uma prática que existe apenas na ficção; três personagens entrevistadas por Universa relatam suas mentiras e histórias inventadas para escapar de um date ruim: de parente morto a celular quebrado, o que não falta é criatividade.

"Inventei que a avó da minha amiga morreu"

A estudante Rhayanne Mulfort pediu ajuda para uma amiga para escapar do date ruim - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A estudante Rhayanne Mulfort pediu ajuda para uma amiga para escapar do date ruim
Imagem: Arquivo pessoal

A estudante de direito Rhayanne Mulfort passou por uma situação parecida com a do personagem da nova série da Netflix. Mas a desculpa encontrada por ela foi um pouco mais ousada do que a de Daniel. "Em uma noite de 2019 convidei um paquera para jantar na minha casa. O encontro não estava dos melhores e, para escapar dele, fui ao banheiro e mandei mensagem para a minha amiga. Ela inventou uma história, fingiu que a avó dela tinha morrido e me ligou chorando desesperada", conta Rhayanne.

Rhayanne relata ter conhecido "o boy" através de amigos em comum. Os dois se seguiram no Instagram e decidiram marcar um encontro. Eles passaram cerca de 4 meses conversando pela internet e, de acordo com ela, na vida real o "crush" não era uma pessoa tão compreensiva, respeitosa e legal quanto parecia ser no mundo online.

"Eu só queria uma companhia para beber e dar uns beijos, me senti segura para convida-lo a vir até a minha casa; quando ele chegou, começou a 'passar do ponto', apesar de eu ter dito que não queria fazer sexo, ele ficou insistindo. Já estava cansada da situação quando recorri a minha amiga", relembra a estudante.

Por sorte, a desculpa inventada por Rhayanne e sua amiga funcionou e o rapaz foi embora. "Essa história virou piada no nosso grupo. Agora sempre que temos uma situação em que uma amiga precisa ser socorrida de date ruim, a avó da Gabi é morta — ela está viva ainda, apesar de já ter sido morta umas 5 vezes", brinca.

Morte? Celular quebrado? Tem de tudo

A auxiliar administrativa Mariana Nunes também precisou da ajuda de outras pessoas para fugir de um encontro ruim - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A auxiliar administrativa Mariana Nunes também precisou da ajuda de outras pessoas para fugir de um encontro ruim
Imagem: Arquivo pessoal

Assim como Rhayanne, a auxiliar administrativa Mariana Nunes também precisou da ajuda de outras pessoas para fugir de um encontro ruim.

"A história aconteceu no final de 2015. Conheci um homem em um bar, trocamos algumas mensagens e decidimos nos encontrar. Na interação que tivemos via internet, ele parecia legal. No dia combinado, ele veio me buscar em casa e, já no carro, a caminho do restaurante, o papo ficou chato", diz Mariana.

Além disso, outra característica — dessa vez física — foi determinante para que Mariana fugisse do encontro: "Tenho 1,73 de altura e não gosto de ficar com pessoas mais baixas do que eu. Como quando o vi pela primeira vez estávamos sentados, eu não tinha reparado na altura dele".

A auxiliar administrativa de 26 anos decidiu pedir ajuda para o pai, que ligou no meio do jantar. "Inventei para o boy que o tio do meu pai tinha acabado de morrer e que, por isso, precisava ir para casa para cuidar do meu cachorro".

Não dei um beijo de despedida, nem mandei mensagem depois. Acho que ele se deu conta de que era mentira. Nunca mais nos falamos depois do date, ele até me excluiu das redes sociais - Mariana Nunes

Mayara Bernardo, 22 anos, estudante de marketing: "Já inventei algumas desculpas para fugir de encontros ruins"  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mayara Bernardo, 22 anos, estudante de marketing: "Já inventei algumas desculpas para fugir de encontros ruins"
Imagem: Arquivo pessoal

Diferente de Rhayanne e Mariana, a estudante de marketing Mayara Bernardo, de 22 anos, inventou uma história para escapar do date antes mesmo do encontro acontecer. No dia combinado, ao reparar que o pretendente estava apresentando um comportamento inapropriado, Mayara mentiu para o rapaz e disse que o celular dela tinha quebrado. Para garantir que a mentira fosse aceita, ela chegou a apagar o aplicativo de conversas WhatsApp de seu celular e ficou sem o app por uma semana.

"Conheci o rapaz pela internet, temos alguns amigos em comum e ele começou a me seguir em uma rede social. Estávamos combinando de nos encontrar, mas do nada ele começou falar muito sobre sexo - sem nem termos nos visto - e decidi cair fora. No dia do date, mandei uma mensagem pra ele no Instagram falando que meu celular tinha quebrado e que não dava mais para nos vermos", conta Mayara.

Decidir cancelar o date com uma mentira porque não me sinto bem dizendo não para as pessoas. Pelo menos eu evitei que ambos perdêssemos tempo com um encontro que eu não tinha certeza de que queria ir - Mayara Bernardo

Por que não conseguimos falar "não"?

Na opinião da psicóloga Gabriele Menezes, "a maior dificuldade em falar 'não' está no medo de ser indelicado com o outro; tem também a insegurança de ter que lidar com a reação alheia". A profissional ressalta que o autoconhecimento é importante nessa hora, pois, assim, é mais fácil de estabelecer limites e saber se você está indo ao encontro por vontade própria ou apenas para agradar alguém.

Gabriele relaciona esta tentativa de agradar o outro ao machismo: "Nós, mulheres, fomos feitas para agradar os homens. Somos mais propensas a ceder quando o assunto é ir a encontros ruins por medo de desapontar outra pessoa".

O mercado tecnológico já encontrou nisso um espaço e existe até aplicativo para escapar de "encontros ruins". Apps como o eHarmony, o Smart Fake Call ou Bad Date Rescue permitem que o usuário programe (com horário e nome pré-definido) receber uma ligação "falsa". Do download para frente, caso você não tenha coragem de dizer "não" para um encontro incerto, basta soltar a imaginação e inventar a própria desculpa.

A psicóloga Gabriele Menezes, porém, alerta: "Uma vez criada a mentira, mais difícil fica de sair dela".

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