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Ciúme, tapa e ameaça com arma: ela superou violência e hoje ajuda mulheres

Michele Pin: "Tive que ser forte para aguentar o preconceito" - Reprodução/Instagram
Michele Pin: "Tive que ser forte para aguentar o preconceito" Imagem: Reprodução/Instagram

Luiza Souto

De Universa

19/07/2021 04h00

Michele Pin, 40, ganhou passarelas internacionais aos 22 anos após participar, por acaso, e ganhar um concurso de beleza. Trabalhou com renomados estilistas, como Giorgio Armani, e foi ainda repórter de programas de entretenimento. Os seus feitos, viagens e meio social incomodavam um namorado com quem se envolveu, aos 28. "Ele queria que eu apagasse meu passado."

Esse ex-companheiro fez a capixaba se afastar de amigos logo no início do relacionamento e até rasgar fotos com outros homens com quem se relacionou. Michele inclusive atenta ao fato de que um relacionamento abusivo começa, muitas vezes, com esse tipo de atitude.

"O ciúme é muito romantizado pela sociedade, enquanto ele disfarça a violência. Nem sempre a gente nota no início. E continuamos no relacionamento porque ficamos presas naquele ciclo da violência doméstica, que começa com o aumento da tensão, passa pela explosão e depois vem a lua de mel, que é quando o agressor se arrepende."Michele se deu conta mesmo de que corria perigo durante uma viagem a Orlando (EUA). Ela e o ex visitavam o parque da Disney quando levou um tapa no rosto durante uma discussão. A violência foi tanta que a lente dos óculos que Michele usava quebrou e feriu seu rosto.

Nessa mesma viagem, os dois passavam numa rodovia quando o ex mandou Michele sair do carro, no meio da pista, após nova discussão. Sem celular, ela atravessou entre os carros e esperou por socorro durante uma hora, num pequeno acostamento, mas só quem parou foi o próprio ex, que deu a volta e a pegou. Os dois voltaram ao Brasil e Michele deu um basta no relacionamento.

Ele não aceitou o fim do namoro e passou a perseguir Michele. Semanas após o término, eles se reencontraram num evento, em São Paulo, onde estava morando, ao lado de um amigo, e ele a sequestrou. Michele foi arrastada pelos cabelos até o carro e, no meio da avenida Paulista, ela teve uma arma apontada para sua cabeça:

Eu só conseguia pensar em duas coisas: ou não sairia dali viva ou sairia com sequelas.

"Ele foi se acalmando, baixando a arma e falei: 'Preciso sair do carro'. Quando coloquei a mão na porta, senti a arma nas minhas costas, e pensei em tudo. O amigo que estava comigo no evento seguiu a gente em outro carro e consegui ir embora com ele. No mesmo dia, peguei um ônibus e fui praticamente fugida para o Rio de Janeiro."

Michele decidiu não denunciar o homem por medo. Ele ainda passou semanas enviando mensagens em que hora se declarava, hora a xingava. Num intervalo de 5 minutos, ela chegou a receber 30 ligações, o que a fez quebrar o celular. "Ele se machucava e mandava a foto do sangue e falava que a culpa era minha, para você ver o nível da loucura. E isso faz a mulher se sentir culpada."

Ela também não quis preocupar os pais nem amigos com sua história, e sofreu calada por todo esse tempo.

"Já estava distante dos amigos por causa desse relacionamento e envergonhada por estar passando por aquilo. Além disso, venho de uma família de classe média baixa. Meu pai é um homem branco italiano e minha mãe, uma mulher negra brasileira. Tive que ser forte para aguentar o preconceito em cima deles, da minha mãe. Achava que era forte o suficiente. Mas nem isso me impediu de entrar nesse relacionamento."

Assédio no meio do trabalho

Enquanto modelo, Michele assegura que nunca sofreu pressões estéticas ou assédio no trabalho. Mas recorda-se de ter levado um tapa na bunda de um assistente de fotografia por ter reclamado do comportamento da equipe durante uma campanha publicitária.

"Estava fotografando para uma campanha em Paris, e a stylist me tratava como objeto, me virando de qualquer jeito durante troca de roupa, como se fosse um boneco. O fotógrafo me destratou muito. Mandei e-mail para o meu agente contando o que estava acontecendo, e no dia seguinte me trataram pior", ela lembra.

"Até que subi numa escada e o assistente do fotógrafo me deu um tapa na bunda. Mandei outro e-mail falando que estava deixando o trabalho, que seria de sete dias, e resolveram trocar toda a equipe. Ali eu sei que tive coragem de me impor, mas sei que muitas têm medo."

Escrevendo uma nova história

Instalada no Rio ano após o episódio da arma apontada para sua cabeça, Michele fez terapia, estudou coaching de relacionamento e, em 2014, passou a publicar vídeos no canal do YouTube "Help in love", em que dá dicas de autoamor a mulheres, e sobre como se livrar de relacionamentos abusivos. Passou a receber relatos e denúncias de violência de todo lugar. Essa troca de experiência com outras internautas rendeu o livro "Desafio do Amor Próprio'', lançado em 2019.

"O livro é um passo a passo para que essa mulher crie a sua independência emocional e financeira, e consiga viver sem o auxílio de seu agressor. Também encorajo essa mulher a acreditar mais nela mesma, a ter amor próprio", explica Michele, que está concluindo um segundo livro, "O poder de ser você mesma".

No mesmo ano do lançamento do livro, Michele achou que poderia fazer mais, e procurou a Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres do Rio de Janeiro para entender com especialistas como poderia ajudar melhor não só as internautas que compartilham suas histórias de violência, mas de que forma poderia também contribuir com o poder público no combate à violência de gênero. Saiu de lá com pelo menos três projetos.

Um deles, "O amor próprio vai à escola", oferece palestras em comunidades e escolas sobre a violência de gênero. Ela também amadrinhou um projeto de implantação de brinquedotecas nas 14 Delegacias da Mulher da cidade e duas Salas Lilás, que são espaços reservados dentro do IML (Instituto Médico Legal), no Centro, para mulheres vítimas de violência física e sexual que precisam passar por exames de perícia.

"A ideia é padronizar esses espaços com livros e brinquedos para a criança ser acolhida enquanto a mãe presta depoimento e é atendida. Ali, essa criança também pode ter uma escuta especializada, se precisar."

O papel de Michelle nesses projetos é conseguir apoio de empresas e marcas para doação de material necessário. Nessa busca, ela garantiu doações regulares de absorventes íntimos a serem distribuídos nas delegacias da mulher.

Hoje mãe de uma menina de 3 anos, Bella, de seu casamento com o empresário João Paulo de Magalhães Lins, Michele aposta que ao compartilhar sua experiência e investir no acolhimento das mulheres, a geração da filha não mais testemunhará tantos casos de violência gênero.

"Mostro o quão é importante é a voz dela, falo para ela dizer 'não' quando não gostar de algo, a respeitar. Se os responsáveis fizerem esse trabalho de casa, de respeitar o limite da filha e de ouvir também, a gente empodera essas crianças."

A ex-modelo e escritora até se contorceu na cadeira durante a entrevista, feita pelo computador, ao falar as agressões sofridas por Pamella Holanda do ex-marido, o DJ Ivis, preso um dia antes desta conversa.

"A gente sabe que a cada dois segundos uma mulher sofre violência [segundo o Instituto Maria da Penha], mas não é todo dia que um vídeo como esse choca. E a violência ainda foi na presença de um bebê [a filha do casal, de um mês]. Choca a todas nós. Quando uma mulher é agredida, todas nós também somos de alguma forma", lamenta ela, que viveu momentos parecidos com o de Pamella.

Como pedir ajuda

Para pedir ajuda, a mulher pode procurar canais como o 190, que é o número de emergência indicado para quem estiver presenciando uma situação de agressão. A Polícia Militar poderá agir imediatamente e levar o agressor a uma delegacia. O Ligue 180 é outro canal criado para mulheres que estão passando por situações de violência. O atendente recebe as denúncias, dá orientação de especialistas e encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. Também é possível acionar esse serviço pelo Whatsapp. Nesse caso, acesse o (61) 99656-5008.

Também é possível realizar denúncias de violência contra a mulher pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos (ONDH) do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH). No site está disponível o atendimento por chat e com acessibilidade para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Se preferir, é possível fazer a denúncia por meio do Telegram: basta acessar o aplicativo, digitar na busca "DireitosHumanosBrasil" e mandar mensagem para a equipe da Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180.

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