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Conheça as mulheres que enfrentam homens e bois em vaquejadas pelo Nordeste

Mônica aprendeu a correr vaquejada com o pai - Arquivo pessoal
Mônica aprendeu a correr vaquejada com o pai Imagem: Arquivo pessoal

Júlia Flores

De Universa

16/07/2021 04h00

De batom, calça jeans perneira (uma proteção reforçada para as pernas), capacete, luva e unhas feitas, a paraibana Joyce Nóbrega sobe em um cavalo para "correr vaquejada". O esporte, predominantemente composto por atletas homens, é tradicional no Nordeste e vem, a cada dia, ganhando mais fama e adeptos —ou melhor: adeptas.

"O sucesso do forró eletrônico levou a vaquejada para fora do Nordeste. Antigamente, só tinha notícia negativa sobre o esporte, porque não era uma prática regularizada, não tinha lei, todo mundo falava que fazia mal para os animais", comenta Joyce, que tem 20 anos e estuda medicina veterinária. "Quando o Wesley Safadão começou a correr e falar sobre isso, tudo mudou."

Entre as dez músicas mais tocadas hoje no Spotify Brasil, cinco são de forró. No topo, está João Gomes com "Meu Pedaço de Pecado" —"vem matar logo o desejo, faz esse vaqueiro feliz de verdade", canta o pernambucano no refrão. Além de João Gomes e Wesley Safadão, outros forrozeiros como Zé Vaqueiro, Mano Walter e Taty Vaqueira divulgam o esporte com suas produções.

A origem da vaquejada remonta aos séculos 17 e 18 no sertão brasileiro. O esporte consiste em dois cavaleiros que cercam o boi e tentam derrubar o animal, puxando-o pelo rabo, em um espaço pré-delimitado de areia. "Como antigamente não era comum ter cerca nas fazendas, os donos de terra contratavam peões para cuidar e recolher esses animais do pasto. Com o tempo, os fazendeiros começaram a apostar para ver quem realizava essa prática com mais rapidez e foi aí que surgiu a vaquejada", explica a psicóloga Anyelle Brito que, em sua dissertação de mestrado para a Universidade Federal do Vale do São Francisco, estudou as questões de gênero no esporte.

Anyelle aponta que, por ser uma prática historicamente dominada por homens, a vaquejada ainda é um esporte "masculino" e que as mulheres que tentam fazer parte desse universo acabam encontrando dificuldades, como assédio e preconceito. Conversamos com algumas vaqueiras para entender melhor.

Vaqueira sim, com muito orgulho

Mônica já ganhou R$ 10 mil em torneios de vaquejada - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Mônica já ganhou R$ 10 mil em torneios de vaquejada
Imagem: Arquivo Pessoal

A pernambucana Mônica Cardoso tem 23 anos e corre vaquejada desde 2013, seguindo os passos do pai e dos irmãos. Hoje ela é um dos nomes femininos mais reconhecidos do meio, e pratica o esporte na posição de "puxadora".

Em resumo, "puxador" é o vaqueiro responsável por derrubar o boi enquanto o "bate esteira" cerca o animal. Desde que a Associação Brasileira de Vaquejada (ABRAVA) surgiu, em 2012, o esporte se tornou regulamentado, e leis como o uso de uma cauda falsa para puxar o animal, a presença de médicos veterinários nas arenas e a criação de uma categoria feminina foram colocadas em prática.

"Quando eu comecei, em 2013, só competia com meninos. Fui ter contato com atletas do sexo feminino depois de dois anos. Acho bonito ver que as mulheres estão cada vez mais ocupando novos espaços", conta Mônica, que compete na categoria profissional e consegue pagar a faculdade de psicologia com o dinheiro que ganha nas competições. "Tem campeonato que dá R$ 300 mil, R$ 500 mil em prêmio. Eu já ganhei R$ 10 mil em um único evento."

Questionada sobre o machismo no esporte, ela responde: "Eu mesma nunca sofri nenhum comentário machista, pelo fato de sempre estar do lado do meu pai, de irmãos, do namorado. Mas conheço muitas mulheres que já sofreram preconceito, escutaram que o lugar delas era em casa... Principalmente depois de derrotarem homens!"

Mônica Cardoso é "puxadora" - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mônica Cardoso é "puxadora"
Imagem: Arquivo pessoal

Ser uma vaqueira profissional exige uma rotina diária de treinos, além do próprio material de trabalho, o que torna a prática cara. "Ter um cavalo e um lugar para treinar tornam a vaquejada um esporte caro. Outro problema é que poucas atletas mulheres são patrocinadas", comenta Anyelle.

Vaqueiras também estão nas redes sociais

Joyce durante vaquejada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Joyce durante vaquejada
Imagem: Arquivo pessoal

Joyce também já participa de campeonatos, mas não como profissional. "Assim que passar a pandemia, quero começar a treinar mais. Minha meta de vida é sair em vaquejada pelo Brasil", comenta a estudante. Diferentemente de Mônica, ela não possui um cavalo próprio e, para começar no esporte, enfrentou dificuldades.

"No começo ninguém queria me emprestar um cavalo. Achavam que pelo fato de eu ser mulher, eu não seria capaz de correr vaquejada. Eu ficava com vergonha, eles não confiavam em mim", relembra. Para Joyce, essa diferença no tratamento pode ser explicada também pelo fato da maior parte dos competidores serem homens "do interior, que cresceram em cidades pequenas".

Com o tempo, porém, ela driblou o preconceito e começou a compartilhar sua rotina nas redes sociais com posts em que ela mostra a diferença entre a Joyce "vaqueira" e a Joyce "fora das arenas".

Assim como Joyce, a estudante Whannya Silva, 18, também expõe a vida de uma "vaqueira raiz" nas redes sociais. Whannya mora no Rio Grande do Norte e aprendeu a correr vaquejada com amigos. Ela é a primeira da família a praticar o esporte.

Há cerca de dois anos, a espora, a luva e o capacete fazem parte do seu guarda-roupa. "Não corro em campeonatos oficiais, mas sempre que participo de algum bolão, como são chamados os torneios amadores, gosto de me arrumar", deixa claro.

Antigamente eu me inspirava nos homens, não via muitas mulheres competindo. Hoje em dia o ambiente está diferente. Meu plano para o futuro é comprar um cavalo - Whannya Silva

A profissional Mônica Cardoso engrossa o caldo das vaqueiras "cuidadosas": "A Mônica fora das pistas é vaidosa, delicada e frágil. Somos totalmente normais".

Amor de vaqueiro

Segundo a psicóloga Anyelle Brito, muitas dessas atletas têm sua orientação sexual questionada por praticarem o esporte. "Ao mesmo tempo em que essas femininas sofrem situações de assédio, elas também ouvem que são lésbicas, 'machos'. É complicado", comenta a especialista.

Entretanto, um fator além do esporte une Mônica e Joyce: ambas já viveram um "amor de vaqueiro". Mônica namora um atleta profissional do esporte (José Iran) e Joyce aprendeu a correr por influência do ex. Foi, inclusive, brincando com o assunto que a estudante de veterinária viralizou no Tik Tok:

O vídeo já teve mais de 1 milhões de visualizações, mas Joyce diz criado o viral sem querer: "Já teve uns 20 dias que postei e não para de chegar novo seguidor".

Direitos dos animais

Todas as entrevistadas nesta reportagem frisaram que a vaquejada é uma manifestação cultural e que as regras estabelecidas pela ABRAVA garantem a proteção dos animais. Para a ativista Alessandra Luglio, porém, o uso de animais para a prática de esportes é desumano.

"Não é só colocar um rabo de plástico que vai diminuir a dor do bicho, não dá para fazer redução de danos nesse caso. Vale lembrar que muitas coisas culturais mudaram com o tempo, inclusive o jeito que os humanos se relacionam. Se formos colocar em uma escala, entre alimentação carnívora e vaquejada, pelo menos comer é essencial, o entretenimento, não."

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