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Polícia investiga cirurgião plástico acusado de abuso sexual por 70 vítimas

Mais de 70 pacientes denunciaram cirurgião plástico, segundo a polícia do RS - iStock
Mais de 70 pacientes denunciaram cirurgião plástico, segundo a polícia do RS Imagem: iStock

Franceli Stefani

Colaboração para Universa, em Porto Alegre

15/07/2021 20h54Atualizada em 17/07/2021 02h11

Um cirurgião plástico é investigado no Rio Grande do Sul por suspeita de abuso sexual. Responsável pelas investigações, a delegada Jeiselaure Rocha de Souza, da 1ª Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Porto Alegre, afirmou que Klaus Wietzke Brodbeck foi denunciado por mais de 70 pacientes.

"As vítimas eram todas mulheres que chegavam até o endereço em busca da realização de procedimentos estéticos", diz Jeiselaure. A maioria das vítimas é do Rio Grande do Sul.

Ele prestou depoimento hoje em Porto Alegre, após ter sido alvo de uma operação da Polícia Civil na última terça-feira (13). De acordo com Jeiselaure, o cirurgião foi interrogado e negou todas as acusações de crimes sexuais. Foram mais de seis horas de depoimento, e ele foi liberado após prestar os esclarecimentos.

Na investigação foram apreendidos aparelhos eletrônicos e objetos de uso pessoal do suspeito, sendo encaminhados para perícia. Exames de comparação genética também serão feitos, porque há denúncia de estupro de vulnerável, já que as pacientes eram sedadas para realização dos procedimentos.

Uma das mulheres que denunciou o cirurgião afirmou a Universa que o abuso ocorreu na primeira consulta. Sob condição de anonimato, a vítima, de 36 anos, contou que procurou o médico para colocar próteses de silicone e o conheceu após buscas na internet.

Demorei para me conscientizar do que acontecia. Recentemente eu tive a noção do que era, nunca contei para ninguém, até outras mulheres relatarem o mesmo que eu vivi
Paciente que denunciou abuso do cirurgião plástico Klaus Wietzke Brodbeck

A paciente conta que foi muito bem atendida no consultório. O abuso começou logo após ela retirar a camiseta para que o cirurgião a examinasse.

Foi quando começou a encostar a mão na minha barriga. Foi subindo e pedindo que eu virasse. Chegou a tentar colocar a mão dentro da minha calça. Toda vez que eu me movimentava, ele começava a usar termos técnicos e tentava me acalmar
Paciente que denunciou abuso do cirurgião plástico Klaus Wietzke Brodbeck

Em determinado momento, segundo ela, Brodbeck tentou colocar o dedo em sua boca e chegou a oferecer procedimentos estéticos em troca de relações sexuais. "Fiquei tremendo de vergonha, horrível a sensação. Disse que se eu fizesse o procedimento, ele daria outros dois (procedimentos estéticos)", afirma.

No dia da cirurgia, marcada em um hospital de Porto Alegre, ele alegou que faria marcações para o procedimento e pegou-a no colo, em vez de deixá-la subir na maca. "Começou a fazer carinho no braço e, então, tentou me abraçar e me dar beijo. Reforçou que poderia fazer mais, se eu concordasse com o que ele sugeriu", afirma.

Encorajada por outras mulheres que procuraram a polícia, ela espera justiça no caso. "Espero que ele seja condenado, que vá para cadeia. Ele provocou muita dor em muitas mulheres. Conheci duas que passaram pelas mesmas coisas que eu".

Em carta enviada à imprensa, a defesa de Brodbeck, que em um primeiro momento declarou à Universa que não iria se pronunciar, afirmou que ele está "contribuindo com todos os atos possíveis de modo a facilitar o esclarecimento das investigações em andamento" e que o número de acusações é "muito inferior" ao que circula nos meios de comunicação, sem especificar quantas seriam, mas rebatendo algumas delas.

"O médico rechaça qualquer alegação de abuso na paciente, salientando que todas as portas do consultório não possuem fechadura ou trancas, bem como sempre suas assistentes, duas mulheres, circulam pelos corredores do consultório que possuem portas de vidro. Infelizmente, apenas um lado da história tornou-se público, ferindo a dignidade pessoal e prejudicando a imagem profissional do Dr. Klaus Brodbeck", declararam.

Os defensores também afirmaram que o médico vem recebendo apoio de "diversos pacientes" nas redes sociais.

"Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. Infelizmente, vivemos tempos de julgamentos sumários de redes sociais, mas o julgamento da justiça trará de volta a dignidade do homem vultoso", concluíram.

Juíza nega prisão preventiva

A delegada do caso solicitou a prisão preventiva de Klaus na última terça-feira, mas foi negado pela juíza Rosália Huyer, da 2ª Vara Criminal do Foro Central de Porto Alegre, que alegou que a medida não era viável pela necessidade de haver mais elementos probatórios. Contudo, diante dos elementos constantes nos procedimentos cautelares, a magistrada determinou que ele não mantenha contato com as mulheres que o denunciaram, bem como com as testemunhas e respectivos familiares.

Em nota, o Cremers (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul) informa que tomou conhecimento das denúncias por meio da Polícia Civil e "busca informações sobre os casos relatados para apurar os fatos e eventuais responsabilidades". O conselho deverá encaminhar o caso à corregedoria.

Como denunciar violência contra a mulher

Mulheres que passaram ou estejam passando por situação de violência, seja física, psicológica ou sexual, podem ligar para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico.

O contato também pode ser feito pelo Whatsapp no número (61) 99656-5008. Também é possível realizar denúncias de violência contra a mulher pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos (ONDH), do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH).

Mulheres vítimas de estupro podem buscar os hospitais de referência em atendimento para violência sexual, para tomar medicação de prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), ter atendimento psicológico e fazer interrupção da gestação legalmente.