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Mãe solo, Giselle Itié explica por que dá boneca para o filho brincar

Giselle Itié diz que, a partir de exemplo, criará o filho Pedro Luna para ser um homem anti-machista - Arquivo Pessoal
Giselle Itié diz que, a partir de exemplo, criará o filho Pedro Luna para ser um homem anti-machista Imagem: Arquivo Pessoal

Júlia Flores

De Universa

14/07/2021 04h00

"Me desculpa se eu falar alguma informação errada, estou há 1 ano e meio sem dormir direito", disse Giselle Itié, ao telefone, antes de começar essa entrevista para Universa. "Mãe pandêmica", como ela mesma se define, a atriz atualmente divide a rotina entre os cuidados com o filho Pedro Luna e as gravações da série "O Rei da TV", que contará a história do empresário Silvio Santos.

Na produção, Giselle interpretará Michelly Veiga, uma atriz mexicana que vem para o Brasil gravar uma novela. História parecida com a dela, que nasceu na Cidade do México e já atuou em produções como "Kubanacan", "Pé na Jaca", "Bela, a Feia" e "Começar de Novo".

Aos 38 anos e mãe de primeira viagem, a artista usa as redes sociais para falar sobre feminismo, carreira e maternidade real. Sem retoques nem filtros, Giselle aparece em seu perfil do Instagram para conversar com os seguidores sobre os desafios de criar um filho em uma sociedade patriarcal, machista e "dolorosa para a mulher".

Após denunciar episódio de assédio que teria sofrido durante as gravações de "Começar de Novo", Giselle ouviu comentários pejorativos de Antônia Fontenelle, que disse "volta para o seu país, é o melhor que você faz". Itié chegou a entrar na Justiça contra Fontenelle por difamação, calúnia e injúria, mas recentemente o processo foi arquivado.

Com Pedro Luna no colo, no apartamento em São Paulo, onde segue isolada, Giselle conversou por telefone com Universa. "Até hoje sinto que não me curei do que vivi", diz a atriz, que crê em um futuro melhor para o filho. Veja a íntegra do papo:

Universa - Como você se sentiu depois que o processo contra Antônia Fontenelle foi arquivado?

Giselle - Fiquei, sei lá, desmotivada. Injustiça é a realidade do brasileiro. Fiz a denúncia não só pelo fato de ter me sentido ofendida, mas também por estamos vivendo um mundo de preconceito, de machismo, de xenofobia - e infelizmente o Governo Federal abraça essas pautas. Receber essa recusa no mesmo período em que um caso de agressão como o da Pamella Holanda ganhou repercussão só mostra como é difícil ser mulher no Brasil.

Mesmo com os vídeos divulgados, o agressor de Pamella segue livre, ganhando seguidores e até defensores. Como foi para você fazer a denúncia de um caso de assédio? Ficou com medo?

Antes de fazer a denúncia, conversei com a minha mãe. Ela me apoiou e eu tive coragem de levar o assunto à diante. Ainda hoje, em pleno 2021, os agressores se acham no direito de justificar a violência, parece que a nossa sociedade evolui e retrocede ao mesmo tempo. Estamos na quinta onda feminista e ainda é difícil de fazer uma denúncia de violência. Precisamos passar por uma mudança estrutural, ter mais mulheres na justiça, na política, nos espaços públicos, só assim vamos evoluir.

Ainda não me curei do que vivi. Tinha 23 anos quando sofri o assédio - mesmo 15 anos depois ainda não consigo falar sobre o que aconteceu

Você fez a denúncia muito tempo depois do episódio. O que te levou a expor o caso?

Quando o "Ni Una A Menos" estourou na América Latina, por volta de 2016, comecei a dirigir vídeos para o movimento, entrevistei vítimas, conversei com outras mulheres que também tinham sofrido assédio, vi o quanto era importante escutá-las, pois aquilo estava me curando. Foi naquele momento que entendi que é importante se posicionar. Demorei para fazer isso porque esse ainda é um episódio que dói muito.

Mudando de assunto, na sua opinião a pandemia deixou a maternidade ainda mais real?

Gosto de repetir que sou uma mãe pandêmica. É um processo ainda mais solitário, exaustivo e cansativo para a mulher. Eu vejo que o Pedro Luna "me salvou" nesse momento tão difícil que estamos atravessando, mas ao mesmo tempo é complicado. É um sentimento ambíguo — estou exausta, porém ele me enche de oxitocina.

Giselle Itié e o filho Pedro Luna - Reprodução/Instagram/@gitie - Reprodução/Instagram/@gitie
Giselle também comentou sobre voltar ao trabalho após dar à luz Pedro Luna
Imagem: Reprodução/Instagram/@gitie

Você sempre fala sobre a importância de "pais presentes" na criação dos filhos. Por quê?

Acredito que é muito importante a gente chamar os pais para paternidade 100%. Não queremos que eles apenas nos ajudem, e sim que sejam presentes. A grande maioria das mulheres é mãe solo e não sabem. Nós que nos preocupamos com a vacina da criança, com as roupas, amamentação, colocamos para dormir. Ser pai não é só dar carinho e brincar - que é muito importante também - mas ter uma presença que não seja só recreativa. Não sinto essa falta na criação do meu filho. O Guilherme [Winter] é um pai carinhoso e ele e Pedro Luna têm uma relação linda de se ver.

Me separei logo no início da gestação e da pandemia. É complicado porque vivemos em uma sociedade patriarcal que ensina que nós, mulheres, precisamos constituir uma família para ser feliz. Para explicar para a minha Gisele menina, a Gisele interior, que príncipe encantado não existe, foi um processo demorado e doloroso.

Então você acredita que, nós, mulheres sofremos uma sobrecarga na hora em que decidimos nos tornar mães?

Sim, as mulheres sofrem com a sobrecarga mental na maternidade, no casamento, no cotidiano. É sobre a gente que as responsabilidades recaem. A sociedade está sendo criada por mães exaustas, e olha que estou falando do ponto de vista da minha bolha privilegiada. Tenho uma mãe para me ajudar, apesar de ter optado por não ter uma babá. Quando eu fecho os olhos e penso nas mães que não são privilegiadas, que precisam sair de casa para trabalhar e sustentar os filhos, sinto a dor delas. Isso, inclusive, não tem efeito só nelas, mas nos filhos também.

Você tem medo de não ser uma boa mãe?

Estou amando a maternidade, apesar de ser um assunto delicado. Acho sim que sou uma boa mãe, porque eu, Gisele, sempre fui uma pessoa que gosta do cuidado. Mas, para isso, também é importante termos nossos momentos de autocuidado, reservar um espaço do dia para fazer ioga, meditar, respirar.

Mãe de primeira viagem, Giselle Itié usa as redes sociais para falar sobre maternidade real - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mãe de primeira viagem, Giselle Itié usa as redes sociais para falar sobre maternidade real
Imagem: Arquivo pessoal

E você não sente medo de transformar esse autocuidado em mais uma pressão na sua vida?

Tenho medo do autocuidado virar uma pressão é claro. Atualmente não tenho muito tempo livre para cuidar de mim, mas tento não me cobrar. Estou dando o meu melhor agora e isso não é fácil.

Quanto mais você entende e percebe o que é ser mulher, repara nos abusos do cotidiano, se dá conta de toda a pressão, mais duro fica. Somos violentadas 24 horas por dia.

Recentemente você admitiu ter namorado "homens machistas". Quais situações tóxicas você já viveu em relacionamentos amorosos?

Tive muitos relacionamentos abusivos... Quem não teve? Nós todos somos machistas, estamos aqui nos desconstruindo. Já ouvi comentários que minha boca é muito grande para eu usar batom vermelho (esse foi um dos últimos), que minha roupa estava curta, muito decotada, não anda com essa amiga que ela é vagabunda.

Como você fará para evitar que seu filho seja um homem machista?

Temos que valorizar o lado feminino dos homens. Por isso é importante ter pais que cuidam, dar boneca para os meninos, eles têm que entender o quanto é importante acolher, fazer ninar, alimentar outra vida. As crianças aprendem pelo exemplo, então acredito que o Pedro Luna [de 1 ano e meio] não será machista. Desejo que ele seja livre para ser quem quiser, sem sofrer censuras por isso. Por ser um homem branco, espero que ele assuma esse privilegio e consiga ajudar outras pessoas.

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