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"Uso de psicodélico em culto religioso pode coibir abuso", diz psicóloga

A psicóloga Louise Ferri - Arquivo pessoal
A psicóloga Louise Ferri Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Minuano

Colaboração para Universa

07/07/2021 04h00

O uso de substâncias psicodélicas em cerimônias religiosas não representa um facilitador para abusos sexuais, defende a psicóloga Louise Ferri. Pesquisadora de comportamento e saúde mental do Instituto Phaneros e da Associação Psicodélica do Brasil, Louise é também uma das líderes do recém-criado MovAya (Movimento Nacional de Combate ao Abuso no Meio Ayahuasqueiro). O grupo foi formado por mulheres que se uniram para conscientizar frequentadoras de cultos como o do Santo Daime e da União do Vegetal e para acolher vítimas de violência sexual praticadas por "gurus", que vieram à tona recentemente nas redes sociais.

Para Louise, o fato de substâncias como o ayahuasca ser usada em grupo, pode até coibir abusos — o que falta é informação. "Quem busca essas religiões precisa saber identificar o que faz parte do ritual e o que pode ser invenção de última hora". Segundo a psicóloga, não faltam líderes e abusadores querendo se aproveitar da vulnerabilidade que o contexto religioso propicia.

"A união de religião e psicodélicos pode ser muito potente e transformadora para algumas pessoas. Ou traumática se for realizada por grupos não comprometidos com objetivos legítimos", pondera em seguida.

Há 15 anos Louise foi frequentadora assídua do Santo Daime. Hoje não frequenta culto nem segue nenhuma religião. A Universa, a pesquisadora fala sobre prevenção e combate ao abuso em grupos de ayahuasca, do seu trabalho no MovAya e sobre os novos horizontes que psicodélicos representam no campo da saúde mental.

UNIVERSA - Quais os principais tipos de abusos já identificados em grupos ayahuasqueiros?
Louise Ferri
- Infelizmente todos os tipos já foram reportados, além de abusos sexuais. Abuso moral, como menosprezar a vítima por sua orientação sexual, condições financeiras, ridicularizar ou fazer piadas para humilhar a pessoa no grupo, colocá-la em trabalhos excessivamente cansativos. Também há relatos de casos de abuso psicológico, com agressões verbais, insultos, formas de manipulação, isolamento, ameaças e constrangimentos à vítima. Além de abuso patrimonial, que é o uso indevido de bens e propriedades da vítima sem seu consentimento.

Como agem os abusadores do meio ayahuasqueiro?
Com base nos casos conhecidos, tanto no meio ayahuasqueiro quanto em outros meios religiosos, podemos observar alguns sinais. Geralmente são pessoas carismáticas e influentes na comunidade, um líder com função relevante dentro do grupo. Seja por admiração ou medo, as pessoas tendem a levar em consideração suas falas e acreditar nelas. Os abusos começam com a manipulação da vítima, técnicas de gaslighting [método de violência psicológica sutil]. O afastamento e isolamento da vítima da comunidade e de sua rede de apoio também são muito comuns, assim como o uso de ameaças, punições e ou retaliações "espirituais" por parte do abusador para que consiga continuar no controle da situação.

É comum mulheres terem dúvida se sofreram um abuso?
É difícil para a vítima reconhecer o abuso porque os abusadores utilizam de seu poder e influência para criar uma narrativa fantasiosa que "prende" a vítima em um mar de medo e dúvidas, a manipulação é muito grande.

Quando a vítima começa sentir que algo está errado e questiona, geralmente o abusador diz que ela está questionando um 'poder superior' e que pode ser punida por isso, ou que os favores sexuais servem a uma 'entidade espiritual maior'. Muitas pessoas que buscam rituais com ayahuasca estão em busca de cura para males físicos, mentais, psicológicos, em alguns casos já tentou em outras religiões e enxergou na bebida uma alternativa derradeira

A fragilidade emocional, quando este é o caso, se torna alvo fácil para os psicopatas infiltrados nesses meios. Nós do MovAya lutamos por um ambiente ayahuasqueiro saudável, para que as pessoas possam praticar sua fé com segurança.

Como reconhecer sinais que podem indicar que há algo errado nesses cultos?
Sentir-se confortável nesses meios é importante. Se tem algo sendo imposto e forçado, é porque tem algo errado. Antes de participar de cerimônias é bom saber como funciona o ritual, conversar com várias pessoas, ler sobre o assunto. Ter uma rede de apoio, amigos e família com quem possa falar sobre as experiências também é legal. Existe um guia de conscientização sobre abuso sexual na comunidade ayahuasqueira, criado pelo Chacruna Institute [ONG americana especializada em plantas psicodélicas medicinais] sobre o que prestar atenção ao frequentar um grupo ayahuasqueiro. É bem interessante.

Como se prevenir de abusos nesses rituais?
Não aceite sair antes, durante ou depois da cerimônia com as pessoas que coordenam o ritual, questione caso tiver alguma dúvida.

Relações sexuais ou algo semelhante, como encostar nas partes íntimas, não fazem parte de nenhum ritual com ayahuasca

E se ocorrer algo errado, busque ajuda. O abuso nunca é culpa da vítima.

Quando é hora de procurar ajuda?
Sempre é hora de buscar ajuda. Se reconhecer que está vivenciando algum tipo de abuso, se está se sentindo desconfortável por algo que está acontecendo ou que ocorreu há algum tempo e ainda causa sofrimento emocional. Denunciar o abusador pode ajudar muitas pessoas que estão vivendo abusos e não sabem ou não tem coragem de denunciar seja por medo de retaliação ou falta de estrutura e apoio para fazê-lo.

O medo das vítimas acaba ajudando os abusadores?
O que vem depois de uma denúncia pode ser um processo dolorido.

Não temos uma legislação que proteja a identidade da vítima, mas muitos casos só precisam de uma única denúncia para que outras vítimas se sintam fortes para também denunciar e desmontar a rede de apoio ao abusador

O MovAya está trabalhando para acolher as vítimas e protegê-las, o que inclui a necessidade do afastamento efetivo do denunciado/suspeito até a finalização da apuração judicial.

Como funciona atualmente o MovAya e qual seu trabalho no grupo?
Minha atuação é na frente de acolhimento, na organização dos treinamentos e supervisão às psicólogas voluntárias e pessoas que queiram fazer a triagem dos casos. No momento o acolhimento que o MovAya disponibiliza é uma escuta inicial e orientação, mas com a realização do seminário "Mulheres Ayahuasqueiras: perspectivas para uma cultura de paz", que aconteceu em abril, mais pessoas vieram para o voluntariado nessa frente, estamos então nos estruturando para um melhor acompanhamento dos casos, no âmbito jurídico e psicológico.

O avanço dos estudos com substâncias psicodélicas pode levar a ayahuasca dos cultos religiosos para as sessões de terapia?
O Brasil está muito bem no ranking de pesquisas realizadas com psicodélicos para tratamento de doenças mentais. No caso da ayahuasca, por estamos próximos às regiões onde essa bebida é originariamente utilizada temos a vantagem de um acesso mais fácil, o que possibilita entendermos mais sobre ela, e acho isso muito bom para todos, tanto para aqueles que fazem o uso religioso ou tradicional, quanto para a ciência. Porém, não dá para falar sobre psicodélicos no geral sem entender as especificidades, o histórico e o surgimento dos diferentes compostos e seus contextos. Alguns psicodélicos estão sendo estudados para tratar problemas muito específicos, minha opinião é que não podemos entendê-los como uma panaceia, porque não são.

O que as pessoas podem esperar do tratamento com psicodélicos?
O potencial terapêutico dos psicodélicos clássicos como LSD, psilocibina (encontrada nos cogumelos psilocybe) e DMT (presente na ayahuasca) para tratar depressão e MDMA para tratar TEPT (transtorno do estresse pós-traumático) é algo impressionante, e os cientistas têm cada vez mais corroborado com esse entendimento através de novas pesquisas publicadas. Mas, é importante lembrar que geralmente o uso terapêutico implica também na realização de psicoterapia e não no uso da substância de forma isolada.

Como denunciar violência contra a mulher

Mulheres que passaram ou estejam passando por situação de violência, seja física, psicológica ou sexual, podem ligar para o número 180, a Central de Atendimento à Mulher. Funciona em todo o país e no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, dá orientação de especialistas e faz encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. O contato também pode ser feito pelo Whatsapp no número (61) 99656-5008.

Também é possível realizar denúncias de violência contra a mulher pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil e na página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos (ONDH), do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH).

Mulheres vítimas de estupro podem buscar os hospitais de referência em atendimento para violência sexual, para tomar medicação de prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), ter atendimento psicológico e fazer interrupção da gestação legalmente.

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